Aproveitando a agitada gincana em que as eleições se transformaram, cometeram-se algumas barbaridades nas últimas semanas. Por baixo da mesa, como um ilusionista que desvia a atenção da audiência para poder realizar o truque de "magia", vamos conhecendo, aos poucos, atropelos à lógica e à lei. É aliás bem possível que o que sobe à tona seja apenas a ponta do icebergue.
Recebi de um arqueólogo amigo a seguinte nota que, pelo seu interesse, partilho com os leiores do Ecosfera:
"Novas instalações para a Escola Portuguesa de Arte Equestre e Museu dos Coches
2005-02-10
Novas instalações para a Escola Portuguesa de Arte Equestre e Museu dos Coches
Numa cerimónia presidida pelo Primeiro-Ministro, Dr. Pedro Santana Lopes, foi assinado, esta quinta-feira, um protocolo que permitirá instalar o Museu dos Coches e a Escola Portuguesa de Arte Equestre no espaço das antigas Oficinas Gerais de Material de Engenharia, situadas na Avenida de Índia.
O protocolo entre o Serviço Nacional Coudélico, o Instituto Português do Património Arquitectónico e a Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais permitirá igualmente restituir ao actual edifício do Museu dos Coches as suas funções originais de Picadeiro.
O plano de instalação prevê que todos os passos a dar permitam que a construção se inicie em 2007 e que o novo espaço entre em funcionamento em 2008.
Recorde-se que desde 1979 que as instituições em causa aguardam a sua instalação nas antigas Oficinas Gerais de Material de Engenharia."
Pois é, assim sem mais, a notícia surge com uma simplicidade tocante.
Mas, e há sempre um pequeno mas, as antigas Oficinas Gerais de Material de Engenharia não constituem propriamente um imóvel devoluto ou abandonado.
Entre outros serviços, eventualmente de menor expressão, do Ministério da Cultura, trata-se do local onde está sediado o Instituto Português de Arqueologia (o instituto público a quem compete o inventário e salvaguarda do património arqueológico nacional), o CIPA (Centro de Investigação de Paleoecologia, um organismo científico da maior importância para o estudo das realidades ambientais antigas, do espaço que hoje é Portugal), o CNANS (Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, a entidade pública que vela pela salvaguarda do património histórico nacional, em meio subaquático). Como se não bastasse, é no IPA também que se encontra a mais importante biblioteca de Arqueologia existente em Portugal. Uma biblioteca que foi constituída com o fundo bibliográfico da antiga delegação de Lisboa do Instituto Arqueológico Alemão, cedida ao Estado português por um acordo de comodato, que implica obrigações por parte do nosso Estado. Este núcleo inicial, foi acrescentado em poucos anos, mercê de uma lúcida e eficaz política de aquisições e permuta de publicações. Tão importante é esta entidade que, em boa hora, foi decidido resguardá-la em novas e mais dignas instalações, justamente na Av. da Índia, que se encontram em fase de acabamento e onde, ironicamente, foi assinado o protocolo a que se refere a notícia em epígrafe.
No puro domínio do surrealismo, haveria a registar o facto de as instalações da dita biblioteca, ainda por inaugurar, terem servido para assinar um protocolo que ditará forçosamente a destruição dessas mesmas instalações. Tal diz muito sobre o conceito de boa utilização dos fundos públicos e de planificação estratégica das actividades dos organismos públicos.
Mas o que verdadeiramente interessa perguntar é:
1 – Para onde irá o IPA e se continuará a existir enquanto organismo autónomo?
2 – Naturalmente, também, para onde irão o CIPA e o CNANS e se continuarão a existir enquanto entidades?
3 – Para onde irá a Biblioteca e se o Estado português continuará a honrar os compromissos assumidos no passado?
Em suma, três questões relevantes e de superior interesse público.
Naturalmente, numa perspectiva cínica, poderíamos dizer que se trata tão-somente de mais uma iniciativa desastrada de S. Exª o Sr. Primeiro-Ministro e que nada disto fará sentido no dia 21 de Fevereiro.
No entanto, porque os assuntos são sérios, porque em eleições, como em tudo na vida, não há vencedores e vencidos antecipados, e porque estamos em campanha eleitoral, seria interessante saber o que cada partido tem a dizer sobre estes temas.
Aceitam-se comentários.
segunda-feira, fevereiro 14, 2005
sábado, fevereiro 12, 2005
A Causa das Coisas
Estranho período eleitoral, este. Olhando para a campanha sob o prisma ambientalista, haveria bons motivos para aspirar que o Ambiente regressasse à agenda polítia com a força de outrora. Mesmo o mais empedernido ambientalista admite hoje tristemente que esta causa perdeu força, perdeu capacidade de motivação. Não entusiama as massas ergo... não capta a atenção dos políticos.
E todavia esta era uma oportunidade de ouro. José Sócrates, principal líder da oposição, tinha um currículo praticamente realizado na arena ambiental, como secretário de Estado e como ministro. Acidental ou propositadamente, esta também foi a primeira ocasião em que o PSD investiu recursos nesta área e aceitou uma coligação com o Movimento Partido da Terra, que valerá ao MPT provavelmente dois deputados na próxima legislatura. No outro lado do espectro, tínhamos ainda o Partido Ecologista os Verdes, com as suas décadas de historial e um nível interessante de participação nas duas últimas legislaturas.
Ora, com estes condimentos todos, a receita, mesmo assim, falhou. Assisti, com interesse, a praticamente todos os debates e entrevistas com os candidatos de partidos já com assento parlamentar. Lamentavelmente, o Ambiente - com todas as suas especificidades e prioridades - foi resumido à co-incineração (co-inceneração na versão de Nobre Guedes!). Nada mais interessou, nada mais logrou furar barreiras e merecer discussão. Com tantos pólos já sintonizados para a causa, mesmo assim, o Ambiente foi sinónimo exclusivo de co-incineração.
No início de 2005, a Quercus lançou um repto, traduzido na definição de sete prioridades para a próxima legislatura (ver comunicado aqui):
1) A definição de um Plano Nacional de Ambiente e Saúde
2) A discussão de Zonas Livres de Transgénicos (não partilho deste ponto de vista - algum dia escreverei sobre ele)
3) Reformulação por completo da estratégia de conservação da natureza e reavaliação da importância do ICN
4) Definição e defesa dos instrumentos de ordenamento do território, com a blindagem da REN e da RAN à cabeça. Criação de um Programa Nacional de Política de Ordenamento do Território e implementação dos Planos de Ordenamento da Orla Costeira
5) Discussão e apresentação de soluções para o tratamento de resíduos perigosos e urbanos
6) Publicação do há muito esperado Plano Nacional da Água e transposição imediata da directiva para a legislação portuguesa. Fundamentação dos Planos de Bacia Hidrográfica.
7) No campo das alterações climáticas, vigilância da aplicação do Plano Nacional de Alterações Climáticas, com especial relevo para a sua adaptação progressiva a um problema que ainda vai piorar, antes de melhorar.
Estes sete desafios (todos urgentes, todos essenciais) foram pulverizados pelo rolo compressor das campanhas eleitorais. Apenas o tratamento de resíduos da zona centro foi discutido e com pouca nobreza e sinceridade. Confundiram-se alhos com bugalhos e soluções prontas em tempo real com projectos ainda por desenvolver. Até ontem, repito, o Ambiente estava reduzido à dimensão que lhe dávamos nos anos 1960 em Portugal: sinónimo de luta contra a poluição. É pouco, muito pouco. Até ontem, porém, essa foi a sua única dimensão.
Ontem, acordámos com uma notícia partilhada, fenómeno moderno traduzido numa fonte muito altruista, que oferece a vários (quase todos) os meios de comunicação uma informação aparentemente exclusiva. E o que diziam as notícias? O governo socialista aprovara o projecto Freeport para Alcochete nos últimos dias do seu mandato, à revelia do estatuto de Zona de Protecção Especial de que grande parte da área gozava. Ou seja, depois de dois chumbos, o Conselho de Ministros (o último de todos presidido por Guterres!?!), excluiu a área do Freeport do perímetro da ZPE.O ministro do Ambiente, à data da polémica aprovação, era José Sócrates.
Não cederei à tentação de considerar apenas que a intervenção da Polícia Judiciária é suspeita nesta altura, a sete dias das eleições. É óbvio, porém, que esta coincidência temporal não deve ser esquecida.
Ontem à tarde, quer a Procuradoria Geral da República, quer a Polícia Judicária, comentaram o caso (que já levou à apreensão de documentos e material informático da CM Alcochete e da Reserva Natural do Estuário do Tejo) e afirmaram que José Sócrates, por ora, não é suspeito. Este por ora é diabólico. Permite todas as interpretações, todas as suspeitas. Mas é também um mecanismo de defesa das instituições.
O PS defende que esta questão se limita à escala autárquica, uma vez que foi a edilidade que aprovou o projecto. Mas o processo foi decidido em instâncias mais altas e, sobretudo, nos últimos dias de um governo. A suspeita é legítima e atinge Sócrates num ponto vulnerável: a sua imagem de ministro do Ambiente combativo e impoluto.
De repente, a martelo, entrou na arena mediática a discussão de mais um relevante tópico ambientalista: o ordenamento do território. Veremos o que a próxima semana nos revela. Seria irónico que um candidato que fez grande parte da sua carreira política na esfera ambiental fosse chamuscado precisamente por uma intervenção dúbia num processo conduzido nessa arena...
E todavia esta era uma oportunidade de ouro. José Sócrates, principal líder da oposição, tinha um currículo praticamente realizado na arena ambiental, como secretário de Estado e como ministro. Acidental ou propositadamente, esta também foi a primeira ocasião em que o PSD investiu recursos nesta área e aceitou uma coligação com o Movimento Partido da Terra, que valerá ao MPT provavelmente dois deputados na próxima legislatura. No outro lado do espectro, tínhamos ainda o Partido Ecologista os Verdes, com as suas décadas de historial e um nível interessante de participação nas duas últimas legislaturas.
Ora, com estes condimentos todos, a receita, mesmo assim, falhou. Assisti, com interesse, a praticamente todos os debates e entrevistas com os candidatos de partidos já com assento parlamentar. Lamentavelmente, o Ambiente - com todas as suas especificidades e prioridades - foi resumido à co-incineração (co-inceneração na versão de Nobre Guedes!). Nada mais interessou, nada mais logrou furar barreiras e merecer discussão. Com tantos pólos já sintonizados para a causa, mesmo assim, o Ambiente foi sinónimo exclusivo de co-incineração.
No início de 2005, a Quercus lançou um repto, traduzido na definição de sete prioridades para a próxima legislatura (ver comunicado aqui):
1) A definição de um Plano Nacional de Ambiente e Saúde
2) A discussão de Zonas Livres de Transgénicos (não partilho deste ponto de vista - algum dia escreverei sobre ele)
3) Reformulação por completo da estratégia de conservação da natureza e reavaliação da importância do ICN
4) Definição e defesa dos instrumentos de ordenamento do território, com a blindagem da REN e da RAN à cabeça. Criação de um Programa Nacional de Política de Ordenamento do Território e implementação dos Planos de Ordenamento da Orla Costeira
5) Discussão e apresentação de soluções para o tratamento de resíduos perigosos e urbanos
6) Publicação do há muito esperado Plano Nacional da Água e transposição imediata da directiva para a legislação portuguesa. Fundamentação dos Planos de Bacia Hidrográfica.
7) No campo das alterações climáticas, vigilância da aplicação do Plano Nacional de Alterações Climáticas, com especial relevo para a sua adaptação progressiva a um problema que ainda vai piorar, antes de melhorar.
Estes sete desafios (todos urgentes, todos essenciais) foram pulverizados pelo rolo compressor das campanhas eleitorais. Apenas o tratamento de resíduos da zona centro foi discutido e com pouca nobreza e sinceridade. Confundiram-se alhos com bugalhos e soluções prontas em tempo real com projectos ainda por desenvolver. Até ontem, repito, o Ambiente estava reduzido à dimensão que lhe dávamos nos anos 1960 em Portugal: sinónimo de luta contra a poluição. É pouco, muito pouco. Até ontem, porém, essa foi a sua única dimensão.
Ontem, acordámos com uma notícia partilhada, fenómeno moderno traduzido numa fonte muito altruista, que oferece a vários (quase todos) os meios de comunicação uma informação aparentemente exclusiva. E o que diziam as notícias? O governo socialista aprovara o projecto Freeport para Alcochete nos últimos dias do seu mandato, à revelia do estatuto de Zona de Protecção Especial de que grande parte da área gozava. Ou seja, depois de dois chumbos, o Conselho de Ministros (o último de todos presidido por Guterres!?!), excluiu a área do Freeport do perímetro da ZPE.O ministro do Ambiente, à data da polémica aprovação, era José Sócrates.
Não cederei à tentação de considerar apenas que a intervenção da Polícia Judiciária é suspeita nesta altura, a sete dias das eleições. É óbvio, porém, que esta coincidência temporal não deve ser esquecida.
Ontem à tarde, quer a Procuradoria Geral da República, quer a Polícia Judicária, comentaram o caso (que já levou à apreensão de documentos e material informático da CM Alcochete e da Reserva Natural do Estuário do Tejo) e afirmaram que José Sócrates, por ora, não é suspeito. Este por ora é diabólico. Permite todas as interpretações, todas as suspeitas. Mas é também um mecanismo de defesa das instituições.
O PS defende que esta questão se limita à escala autárquica, uma vez que foi a edilidade que aprovou o projecto. Mas o processo foi decidido em instâncias mais altas e, sobretudo, nos últimos dias de um governo. A suspeita é legítima e atinge Sócrates num ponto vulnerável: a sua imagem de ministro do Ambiente combativo e impoluto.
De repente, a martelo, entrou na arena mediática a discussão de mais um relevante tópico ambientalista: o ordenamento do território. Veremos o que a próxima semana nos revela. Seria irónico que um candidato que fez grande parte da sua carreira política na esfera ambiental fosse chamuscado precisamente por uma intervenção dúbia num processo conduzido nessa arena...
segunda-feira, fevereiro 07, 2005
Vamos a Eles
À distância e com um inevitável retardamento, escutei as propostas do ministro demissionário Nobre Guedes sobre José Sócrates, Coimbra e a co-incineração. Embora já com atraso, permitam-me que ilumine o vasto auditório com mais alguns detalhes do arrojado plano do ministro das Cidades, do Ordenamento do Território e do Ambiente.
O ministro da República propôs a uma rádio da zona centro uma intervenção mais proactiva da população de Coimbra, destinada a travar a entrada literal do secretário-geral do Partido Socialista na próxima ocasião em que este pretendesse deslocar-se à Lusa Atenas. Depois de ampla pesquisa, cabe-me fornecer mais pormenores deste ousado, repito, ousado plano estratégico do candidato do CDS/PP por Coimbra.
1) Pretende-se, em primeira instância, criar uma zona desmilitarizada, num perímetro de pelo menos cinco quilómetros em todas as direcções, criando assim uma malha impenetrável de acesso restrito. O modelo de Guedes seria obviamente a DMZ da Coreia.
2) Impõe-se, nesta fase, recrutar toda a população activa da cidade, nobre e temente a Deus, para o esforço de vigilância - não vá Sócrates pretender infiltrar-se disfarçado.
3) Até dia 20, todos os fornos da cidade devem ser mantidos em lume brando, de forma a permitir o aquecimento de óleo rapidamente. Se o secretário-geral ousar aproximar-se da muralha da cidade, deverão os militantes do "não à co-incineração" projectar caldeirões de óleo fervente na sua direcção.
4) Para garantir o respeito pela DMZ, é fundamental montar uma linha de catapultas, que permita arremessar contentores de resíduos domésticos urbanos, indigentes, Carlos Encarnação, funcionários empobrecidos do Instituto da Conservação da Natureza e ecopontos até uma distância de pelo menos vinte quilómetros. Será, desde logo, disponibilizado um fundo de contingência, caso uma das catapultas acerte involuntariamente na povoação de Taveiro ou outra vizinha.
5) Situações de guerra como esta exigem naturalmente estados de excepção. O recolher obrigatório garantirá que nenhum coimbrão conspirará contra a vontade colectiva do Grande Líder. Eventuais prevaricadores serão deportados para as minas de Canas de Senhorim, palco de uma inesquecível prestação política do ministro nesta legislatura.
6) Em locais estratégicos, como o Arco Almedina, a Sé Velha, o pátio das escolas e a Via Latina, montar-se-ão "check points" ao estilo de Berlim Oriental. Exigir-se-á a cada cidadão que apresente documentação reveladora do seu repúdio pela solução de Souselas. Cidadãos que apresentarem cartão de militante do PP ou autocolante afim receberão prémios-surpresa e cópias do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida (ainda por publicar).
7) Para aumentar o moral dos sitiados, promover-se-ão sessões de récita do documento "As 80 Medidas que Eu Tinha Para Cumprir", de Luís Nobre Guedes. Serão severamente punidos os cidadãos que soltarem gargalhadas durante a enunciação de intenção de destruir habitações ilegais no Parque Natural da Arrábida!?!
8)Pequenas sessões teatrais serão ensaiadas com o Grupo Dramaturgo de Biólogos e Técnicos do ICN, que representarão a comédia dramática "Sem Luz, Água ou Cêntimos: Conservação ao Relento"
9) Para financiar o movimento de contestação, é fundamental promover a venda de "merchandising". Lápis com a figura delgada do ministro, réplicas da cimenteira de Souselas e da refinaria da Galp e "kits" com cursos intensivos de ambientalismo serão as prendas mais procuradas da estação. Nas prateleiras, encontrar-se-ão também gramáticas editadas por Nobre Guedes e resumidas para abranger apenas os pronomes da primeira pessoa do singular: eu, meu, me e afins...
Com tudo isto, garanto-vos, Sócrates não ousará entrar em Coimbra. Esmagado pela força das convicções, o líder socialista recuará para lá do Mondego e deixará a cidade para as suas limpas cimenteiras, aterros e toneladas de resíduos acumulados.
(pausa)
Informam-me que o ministro alegou que não disse literalmente o que nós ouvimos na rádio. Queiram considerar sem efeito esta linha estratégica.
O ministro da República propôs a uma rádio da zona centro uma intervenção mais proactiva da população de Coimbra, destinada a travar a entrada literal do secretário-geral do Partido Socialista na próxima ocasião em que este pretendesse deslocar-se à Lusa Atenas. Depois de ampla pesquisa, cabe-me fornecer mais pormenores deste ousado, repito, ousado plano estratégico do candidato do CDS/PP por Coimbra.
1) Pretende-se, em primeira instância, criar uma zona desmilitarizada, num perímetro de pelo menos cinco quilómetros em todas as direcções, criando assim uma malha impenetrável de acesso restrito. O modelo de Guedes seria obviamente a DMZ da Coreia.
2) Impõe-se, nesta fase, recrutar toda a população activa da cidade, nobre e temente a Deus, para o esforço de vigilância - não vá Sócrates pretender infiltrar-se disfarçado.
3) Até dia 20, todos os fornos da cidade devem ser mantidos em lume brando, de forma a permitir o aquecimento de óleo rapidamente. Se o secretário-geral ousar aproximar-se da muralha da cidade, deverão os militantes do "não à co-incineração" projectar caldeirões de óleo fervente na sua direcção.
4) Para garantir o respeito pela DMZ, é fundamental montar uma linha de catapultas, que permita arremessar contentores de resíduos domésticos urbanos, indigentes, Carlos Encarnação, funcionários empobrecidos do Instituto da Conservação da Natureza e ecopontos até uma distância de pelo menos vinte quilómetros. Será, desde logo, disponibilizado um fundo de contingência, caso uma das catapultas acerte involuntariamente na povoação de Taveiro ou outra vizinha.
5) Situações de guerra como esta exigem naturalmente estados de excepção. O recolher obrigatório garantirá que nenhum coimbrão conspirará contra a vontade colectiva do Grande Líder. Eventuais prevaricadores serão deportados para as minas de Canas de Senhorim, palco de uma inesquecível prestação política do ministro nesta legislatura.
6) Em locais estratégicos, como o Arco Almedina, a Sé Velha, o pátio das escolas e a Via Latina, montar-se-ão "check points" ao estilo de Berlim Oriental. Exigir-se-á a cada cidadão que apresente documentação reveladora do seu repúdio pela solução de Souselas. Cidadãos que apresentarem cartão de militante do PP ou autocolante afim receberão prémios-surpresa e cópias do Plano de Ordenamento do Parque Natural da Arrábida (ainda por publicar).
7) Para aumentar o moral dos sitiados, promover-se-ão sessões de récita do documento "As 80 Medidas que Eu Tinha Para Cumprir", de Luís Nobre Guedes. Serão severamente punidos os cidadãos que soltarem gargalhadas durante a enunciação de intenção de destruir habitações ilegais no Parque Natural da Arrábida!?!
8)Pequenas sessões teatrais serão ensaiadas com o Grupo Dramaturgo de Biólogos e Técnicos do ICN, que representarão a comédia dramática "Sem Luz, Água ou Cêntimos: Conservação ao Relento"
9) Para financiar o movimento de contestação, é fundamental promover a venda de "merchandising". Lápis com a figura delgada do ministro, réplicas da cimenteira de Souselas e da refinaria da Galp e "kits" com cursos intensivos de ambientalismo serão as prendas mais procuradas da estação. Nas prateleiras, encontrar-se-ão também gramáticas editadas por Nobre Guedes e resumidas para abranger apenas os pronomes da primeira pessoa do singular: eu, meu, me e afins...
Com tudo isto, garanto-vos, Sócrates não ousará entrar em Coimbra. Esmagado pela força das convicções, o líder socialista recuará para lá do Mondego e deixará a cidade para as suas limpas cimenteiras, aterros e toneladas de resíduos acumulados.
(pausa)
Informam-me que o ministro alegou que não disse literalmente o que nós ouvimos na rádio. Queiram considerar sem efeito esta linha estratégica.
domingo, fevereiro 06, 2005
Ao menos aqui há rumo

Caldeira Velha - São Miguel
(Açores) Suponho que quem vive no continente, como eu, sente frequentemente que o barco da conservação da natureza não leva ninguém ao leme. É um imenso "Holandês Voador" à deriva, sem rumo, guiado pelas correntes até chocar algures. Não se sabe quando, mas chocará.
Ora, acabo este périplo açoriano com a distinta sensação de que aqui, em pleno oceano Atlântico, as trapalhadas da República não perturbam tanto. É certo que ainda há um ministro da República para os Açores, espécie reciclada de governador manuelino e figura colonial muito invectivada. Mas talvez a distância geográfica tenha a vantagem de impermeabilizar os Açores. É longe, é remoto, o Ministério do Ambiente praticamente não mete o bedelho aqui e concede autonomia às secretarias regionais para gerir patrimónios naturais com parcimónia. Seguindo o mesmo raciocínio, as ONGS também aqui são mais engenhosas, contestam mas também propõem, refilam mas também agem. Dois exemplos:
1) Há três anos, estive na Caldeira Velha de São Miguel e fiquei desgostoso com o que então vi. Lixo acumulado em jeito de «bibelots» paisagísticos; caminhos sulcados pela chuva, que pareciam crateras lunares; uma imundice de bradar aos céus; e as estruturas de madeira, que marcavam os caminhos e delimitavam estruturas, há muito tinham sido predadas para a construção privada de galinheiros e obras afins. Em Agosto de 2004, as caldeiras foram classificadas como monumentos naturais, e todo o espaço de visita foi arranjado, limpo e barrado ao trânsito. Hoje, dá gosto ir ali. Já lá vão seis meses desde a inauguração e a estrutura permanece nobre e apetecível. Ora verifiquem da próxima vez que ali passarem.
2) Assisti praticamente ao nascimento de uma organização sem fins lucrativos - o Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores (OVGA). Desde 2001 até hoje é verdadeiramente notável a actividade do jovem OVGA e dos seus dirigentes. Edita livros (não percam o "Atlas Básico dos Açores", obra que embaraça a Madeira e faz o continente corar de vergonha ). Emite pareceres. Realiza investigação e torna-a acessível ao público (um milagre para quem se habituou a (des)esperar pelos relatórios do Instituto de Meteorologia). Mais importante ainda, construiu uma sede na Lagoa (São Miguel), espaço museológico sem bafio, obra moderna e pioneira, que se arrisca a fazer parte de todas a visitas turísticas à ilha.
Desde a réplica de um túnel lávico ao bar "Treme Treme", a sede do OVGA foi pensada para desmitificar os vulcões, para aproximar visitantes e populações locais do fenómeno que gerou o arquipélago e que continuará ciclicamente a fazer parte do quotidiano.
O conceito associado ao espaço é pioneiro. Imaginem um museu pensado para não aborrecer, pedagógico mas não exaustivo. E, clato, a paisagem também ajuda. De frente, a lava solidificada contextualiza a visita; por trás, dois cones vulcânicos recordam a génese da vulcanologia.
Por isso digo que há vantagens por estar longe de Lisboa. Há dias, um político reformado dizia-me, desapontado com a política centralista da capital, que nos territórios onde há calores de ananases, como Portugal continental, normalmente não se dá a civilização. Sendo assim, viva a neblina e a insularidade!
A Noite das Comadres
(Açores) Não conhecia a tradição e não fiquei com muita vontade de repetir a façanha. Na quinta-feira anterior ao Carnaval, os Açores vivem a noite das comadres. Meninas e senhoras de todas as idades engalanam-se e saem à rua para jantar sem os «homes».
Infelizmente, fui apanhado desprevenido pela efeméride, pelo que, quando dei por ela, já era tarde. Tudo - mas realmente tudo - estava lotado na ilha onde me encontrava. Restaurantes de luxo, restaurantes de hotel, «drives-in», tascas. Elas tomaram conta de tudo («Elas comem tudo e não deixam nada», diria a música de Sérgio Godinho). O ruído no interior de cada estabelecimento de restauração fez certamente disparar os sismógrafos da ilha.
Lá jantei, tarde obviamente, e com a desagradável sensação de estar a invadir o espaço que não era para mim e mirado de soslaio por quem sentia que aquele dia era só para comadres - descrição em que, naturalmente, não encaixo!
E o que pensam eles do fenómeno? Questão pertinente e muito séria. Pelo que pude apreciar, embora hesite em traçar conclusões sociológicas, eles... amuam. Ficam em casa a resmungar, a tratar dos filhos (se os há), a arrumar cozinhas (bem feito!) e a praguejar contra a libertinagem e a abertura de espíritos!
Diz um jornal local que desembarcaram numa das ilhas do grupo oriental 20 «strippers» masculinos para animar as comadres. Não vos conto o que ouvi de alguns pais, maridos e irmãos! Nenhum tinha imaginado que a igualdade de oportunidades pudesse ser levada até este extremo. E é ver, nestas ilhas que Mota Amaral quis "moralizar" e impor a santa e ímpia ética dos puros de espírito, comadres de todas as idades a gozar a liberdade recém-adquirida.
Da minha parte, digo-vos que, só por ver as carantonhas que eles fazem, incapazes de encontrar motivos racionais para justificar que elas não possam gozar os mesmos privilégios dos «homes», valeu a pena estar cá durante a noite das comadres. Mesmo jantando às dez da noite!
Infelizmente, fui apanhado desprevenido pela efeméride, pelo que, quando dei por ela, já era tarde. Tudo - mas realmente tudo - estava lotado na ilha onde me encontrava. Restaurantes de luxo, restaurantes de hotel, «drives-in», tascas. Elas tomaram conta de tudo («Elas comem tudo e não deixam nada», diria a música de Sérgio Godinho). O ruído no interior de cada estabelecimento de restauração fez certamente disparar os sismógrafos da ilha.
Lá jantei, tarde obviamente, e com a desagradável sensação de estar a invadir o espaço que não era para mim e mirado de soslaio por quem sentia que aquele dia era só para comadres - descrição em que, naturalmente, não encaixo!
E o que pensam eles do fenómeno? Questão pertinente e muito séria. Pelo que pude apreciar, embora hesite em traçar conclusões sociológicas, eles... amuam. Ficam em casa a resmungar, a tratar dos filhos (se os há), a arrumar cozinhas (bem feito!) e a praguejar contra a libertinagem e a abertura de espíritos!
Diz um jornal local que desembarcaram numa das ilhas do grupo oriental 20 «strippers» masculinos para animar as comadres. Não vos conto o que ouvi de alguns pais, maridos e irmãos! Nenhum tinha imaginado que a igualdade de oportunidades pudesse ser levada até este extremo. E é ver, nestas ilhas que Mota Amaral quis "moralizar" e impor a santa e ímpia ética dos puros de espírito, comadres de todas as idades a gozar a liberdade recém-adquirida.
Da minha parte, digo-vos que, só por ver as carantonhas que eles fazem, incapazes de encontrar motivos racionais para justificar que elas não possam gozar os mesmos privilégios dos «homes», valeu a pena estar cá durante a noite das comadres. Mesmo jantando às dez da noite!
sábado, fevereiro 05, 2005
Energia, Energia!
(Açores, 5 de Fevereiro) Lembram-se do «Estebes», personagem inolvidável de Herman José? De vez em quando, o bonacheirão locutor virava-se para o público, mexia os dedos e pedia «energia, energia»! A imagem não me sai da cabeça enquanto folheio a intensa e activa imprensa regional.
Apesar de as distâncias serem hoje mais curtas, é evidente que a insularidade será sempre uma limitação da economia açoriana. O custo acrescido de transporte e a dispersão populacional por nove ilhas trava economias de escala e encarece praticamente todos os produtos. Há, porém, excepções. O mercado energético merece alguma reflexão.
Em mais nenhum ponto do território nacional, é possível fornecer cerca de um terço do consumo eléctrico doméstico e industrial por vias renóváveis. Em São Miguel, a ousada geotermia consegue-o. É certo que o valor percentual já foi mais alto, até já rondou 35% do consumo eléctrico da ilha, mas os micaelenses, como todos os portugueses, consomem cada vez mais energia eléctrica e a percentagem é hoje mais baixa. Mesmo assim, o parâmetro enunciado continua verdadeiro: São Miguel é o melhor exemplo de aplicação de energias renováveis que temos para mostrar ao mundo!
Pasmo por isso com a anunciada segunda fase de privatização da Electricidade dos Açores (EDA). Não a consigo conceber nem justificar. Aqui está um bem estratégico, que deveria servir de ferramenta económica para repor a justiça competitiva entre empresas locais e concorrentes nacionais. Tudo é mais caro na cadeia comercial de cada empresa micaelense (ou açoriana) - a água, o gás, as matérias-primas. Ora, a electricidade é gerada localmente por fonte renovável e é precisamente esse capital simbólico que o governo da República vai continuar a alienar.
Por aqui, dizem-me que o processo de venda nem sequer é muito preocupante. Na verdade, a electricidade nunca foi mais barata em São Miguel. Por um incrível e inexplicável processo de tabelação de tarifas, as centrais geotérmicas não cumprem a sua principal mais-valia: gerar electricidade mais barata para consumidores privados e comerciais.
Poderá o leitor argumentar que a geotermia tem custos de investigação e manutenção e que porventura a EDA terá as contas no "vermelho". O argumento é pertinente, mas é prontamente desmentido por notícias recentes. No "Açoriano Oriental" de anteontem, escreve-se que a EDA apresentou resultados líquidos de 7,4 milhões de euros, mais de 100% face à última demonstração de resultados. Caramba! Isto não são sinais de um negócio em regressão.
Neste cenário, vale a pena lembrar o «Estebes». Energia, pessoal, energia para alumiar os centros de decisão do Governo da República!
Apesar de as distâncias serem hoje mais curtas, é evidente que a insularidade será sempre uma limitação da economia açoriana. O custo acrescido de transporte e a dispersão populacional por nove ilhas trava economias de escala e encarece praticamente todos os produtos. Há, porém, excepções. O mercado energético merece alguma reflexão.
Em mais nenhum ponto do território nacional, é possível fornecer cerca de um terço do consumo eléctrico doméstico e industrial por vias renóváveis. Em São Miguel, a ousada geotermia consegue-o. É certo que o valor percentual já foi mais alto, até já rondou 35% do consumo eléctrico da ilha, mas os micaelenses, como todos os portugueses, consomem cada vez mais energia eléctrica e a percentagem é hoje mais baixa. Mesmo assim, o parâmetro enunciado continua verdadeiro: São Miguel é o melhor exemplo de aplicação de energias renováveis que temos para mostrar ao mundo!
Pasmo por isso com a anunciada segunda fase de privatização da Electricidade dos Açores (EDA). Não a consigo conceber nem justificar. Aqui está um bem estratégico, que deveria servir de ferramenta económica para repor a justiça competitiva entre empresas locais e concorrentes nacionais. Tudo é mais caro na cadeia comercial de cada empresa micaelense (ou açoriana) - a água, o gás, as matérias-primas. Ora, a electricidade é gerada localmente por fonte renovável e é precisamente esse capital simbólico que o governo da República vai continuar a alienar.
Por aqui, dizem-me que o processo de venda nem sequer é muito preocupante. Na verdade, a electricidade nunca foi mais barata em São Miguel. Por um incrível e inexplicável processo de tabelação de tarifas, as centrais geotérmicas não cumprem a sua principal mais-valia: gerar electricidade mais barata para consumidores privados e comerciais.
Poderá o leitor argumentar que a geotermia tem custos de investigação e manutenção e que porventura a EDA terá as contas no "vermelho". O argumento é pertinente, mas é prontamente desmentido por notícias recentes. No "Açoriano Oriental" de anteontem, escreve-se que a EDA apresentou resultados líquidos de 7,4 milhões de euros, mais de 100% face à última demonstração de resultados. Caramba! Isto não são sinais de um negócio em regressão.
Neste cenário, vale a pena lembrar o «Estebes». Energia, pessoal, energia para alumiar os centros de decisão do Governo da República!
Tanta Civilização Também Não!
(Açores, 4 de Fevereiro) Conto a história certo de que, com esta narrativa, fujo um pouco às premissas do blog, mas, afinal, como se queixava um colega na semana passada, neste empreendimento mediático, eu sou proprietário, editor e ditador vitalício. Faço a gestão do blog sem mandato, representatividade, contraditório ou sequer provedor dos leitores. Sou o Mobutu do Ecosfera!
Sexta-feira de manhã. Com reuniões agendadas apenas para o fim da manhã, lanço-me à estrada, na belíssima marginal de Ponta Delgada. Afinal, a meia maratona de Lisboa está à porta e exige preparação adicional. Pensei, orgulhoso, que ao trocar o sinuoso Estádio Universitário de Lisboa (onde evito buracos, lombas e troncos a cada passada e corro ao lado da poluída Segunda Circular de Lisboa) pela calma marginal micaelense melhoraria as condições de treino. Puro engano! Enquanto percorri cerca de seis quilómetros à beira-mar, devo ter inalado mais dióxido de carbono do que em Lisboa. A poluição sonora já faz parte também da tradição cultural da ilha e condutor que se preza buzina a velhinhas, escuteiros e carrinhos de bebé. Juntemos-lhes os ruidosos carros de campanha e a sua fanfarra interminável. Visualmente, fui agredido até à exaustão pelos cartazes repetidos de Santana, Sócrates e Mota Amaral!
Quanto à brisa marítima, narrada com tanta eloquência por Nemésio e Natália Correia, esteve... um pouco forte de mais. Desde a hora de almoço que espirro abundantemente graças à suave maresia. No meio de tudo isto, há uma atenuante (há sempre...): já tenho desculpa para justificar um eventual mau resultado na meia maratona de Março! Ainda não será desta que estilhaço o recorde da prova!
Sexta-feira de manhã. Com reuniões agendadas apenas para o fim da manhã, lanço-me à estrada, na belíssima marginal de Ponta Delgada. Afinal, a meia maratona de Lisboa está à porta e exige preparação adicional. Pensei, orgulhoso, que ao trocar o sinuoso Estádio Universitário de Lisboa (onde evito buracos, lombas e troncos a cada passada e corro ao lado da poluída Segunda Circular de Lisboa) pela calma marginal micaelense melhoraria as condições de treino. Puro engano! Enquanto percorri cerca de seis quilómetros à beira-mar, devo ter inalado mais dióxido de carbono do que em Lisboa. A poluição sonora já faz parte também da tradição cultural da ilha e condutor que se preza buzina a velhinhas, escuteiros e carrinhos de bebé. Juntemos-lhes os ruidosos carros de campanha e a sua fanfarra interminável. Visualmente, fui agredido até à exaustão pelos cartazes repetidos de Santana, Sócrates e Mota Amaral!
Quanto à brisa marítima, narrada com tanta eloquência por Nemésio e Natália Correia, esteve... um pouco forte de mais. Desde a hora de almoço que espirro abundantemente graças à suave maresia. No meio de tudo isto, há uma atenuante (há sempre...): já tenho desculpa para justificar um eventual mau resultado na meia maratona de Março! Ainda não será desta que estilhaço o recorde da prova!
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Quem Espera Sempre Alcança
(Açores, 3 de Fevereiro) O vulcanismo açoriano merece ser apreciado e estudado. Passada a fase do medo respeitoso e da superstição, urge integrar os vulcões do arquipélago na sua dimensão real, aceitando-os, desmitificando-os e, claro está, protegendo-os.
Ora, por solicitação do Governo Regional, datada já de 1998, um grupo de investigadores terminou há não muito tempo o trabalho hercúleo de inventariação das grutas açorianas. Ao longo de sete anos de trabalho, foram identificadas mais de duas centenas e meia de cavidades vulcânicas (metade das quais concentradas na fantástica ilha do Pico). Ironicamente, até Janeiro deste ano, apenas três estavam classificadas e protegidas regionalmente (juntamente com a pedreira do Campo, em Santa Maria)
- O algar do Carvão, na Terceira, é uma estrutura grandiosa, trabalhada e melhorada à mão e que impressiona o visitante, reduzindo-o a uma escala ínfima;
- A gruta das Torres, no Pico, é um prolongado túnel, quase lúgubre, que mantém o traçado original no seu estado quase prístino e que garante ao turista a sensação perturbadora de percorrer o mesmo caminho que a lava já trilhou em direcção ao mar. Sem interferências, nem efeitos cénicos;
- A furna do Enxofre, na Graciosa, única no mundo, apresenta o dramatismo próprio de uma estrutura que pode matar o visitante (devido às emanações gasosas), mas que vale muito mais do que o folclore dramático dessa raridade.
Até ao ano passado, repito, estas eram as grutas classificadas de um leque de duas centenas e meia. Durante anos, investigadores e ONG solicitaram a classificação da gruta do Carvão, em São Miguel, uma estrutura de três túneis lávicos, que viaja por baixo de Ponta Delgada (imaginem uma gruta subterrânea, com acesso urbano!) e que tem a particularidade de contar também parte da história da colonização.
Alguns trechos foram utilizados como adega; outros foram bloqueados por sedimentos, por desmoronamentos e por construções humanas. Sabe-se, pelas crónicas de Gaspar Frutuoso, no século XVI, que a gruta chegaria ao mar, pelo que se estimam que os 1.600m já identificados correspondam apenas a um terço da dimensão real.
Em meados de Janeiro deste ano, um dos três túneis foi finalmente classificado pela secretaria regional do Ambiente. Durante anos esquecida e vandalizada (o lixo acumulado numa das entradas é uma vergonha para a cidade e para o arquipélago), a gruta do Carvão foi agora classificada pela mão da nova secretária regional, Ana Paula Lopes (curiosamente, uma dirigente política com passado ambientalista). Há portanto mais um geomonumento regional nos Açores que merece uma visita, mas a lentidão do processo e os anticorpos que o travaram durante décadas merecem alguma reflexão.
Como o poeta Wallace Stevens escreveu, "Depois do 'não' final, vem sempre um 'sim'. E é desse 'sim' que o futuro do mundo depende!"
Uma lição para outras lutas ambientalistas: vale sempre a pena esperar pelo "sim" que pode ficar no fundo de uma longa lista de "nãos".
Ora, por solicitação do Governo Regional, datada já de 1998, um grupo de investigadores terminou há não muito tempo o trabalho hercúleo de inventariação das grutas açorianas. Ao longo de sete anos de trabalho, foram identificadas mais de duas centenas e meia de cavidades vulcânicas (metade das quais concentradas na fantástica ilha do Pico). Ironicamente, até Janeiro deste ano, apenas três estavam classificadas e protegidas regionalmente (juntamente com a pedreira do Campo, em Santa Maria)
- O algar do Carvão, na Terceira, é uma estrutura grandiosa, trabalhada e melhorada à mão e que impressiona o visitante, reduzindo-o a uma escala ínfima;
- A gruta das Torres, no Pico, é um prolongado túnel, quase lúgubre, que mantém o traçado original no seu estado quase prístino e que garante ao turista a sensação perturbadora de percorrer o mesmo caminho que a lava já trilhou em direcção ao mar. Sem interferências, nem efeitos cénicos;
- A furna do Enxofre, na Graciosa, única no mundo, apresenta o dramatismo próprio de uma estrutura que pode matar o visitante (devido às emanações gasosas), mas que vale muito mais do que o folclore dramático dessa raridade.
Até ao ano passado, repito, estas eram as grutas classificadas de um leque de duas centenas e meia. Durante anos, investigadores e ONG solicitaram a classificação da gruta do Carvão, em São Miguel, uma estrutura de três túneis lávicos, que viaja por baixo de Ponta Delgada (imaginem uma gruta subterrânea, com acesso urbano!) e que tem a particularidade de contar também parte da história da colonização.
Alguns trechos foram utilizados como adega; outros foram bloqueados por sedimentos, por desmoronamentos e por construções humanas. Sabe-se, pelas crónicas de Gaspar Frutuoso, no século XVI, que a gruta chegaria ao mar, pelo que se estimam que os 1.600m já identificados correspondam apenas a um terço da dimensão real.
Em meados de Janeiro deste ano, um dos três túneis foi finalmente classificado pela secretaria regional do Ambiente. Durante anos esquecida e vandalizada (o lixo acumulado numa das entradas é uma vergonha para a cidade e para o arquipélago), a gruta do Carvão foi agora classificada pela mão da nova secretária regional, Ana Paula Lopes (curiosamente, uma dirigente política com passado ambientalista). Há portanto mais um geomonumento regional nos Açores que merece uma visita, mas a lentidão do processo e os anticorpos que o travaram durante décadas merecem alguma reflexão.
Como o poeta Wallace Stevens escreveu, "Depois do 'não' final, vem sempre um 'sim'. E é desse 'sim' que o futuro do mundo depende!"
Uma lição para outras lutas ambientalistas: vale sempre a pena esperar pelo "sim" que pode ficar no fundo de uma longa lista de "nãos".
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
Património da Humanidade... porquê?
Ponta Delgada (2 de Fevereiro) - Admito que a premissa é polémica, mas creio que o fenómeno de classificação de património da humanidade se vulgarizou e, por isso, perdeu parcialmente o crédito. Em Portugal, há treze monumentos, locais ou regiões já classificados pela UNESCO. Todos os anos, há pontapé de meia noite entre autarcas, governo central, organizações não governamentais e outros grupos para decidir qual a nova candidatura nacional a este estauto. Isto porque países como o nosso, já beneficiados largamente pelos favores da UNESCO, já só podem apresentar uma candidatura anual.
Por motivos profissionais, acompanhei de perto o processo de candidatura da paisagem vinhateira da ilha do Pico e devo começar por dizer que nada me move contra este ícone picaroto. Admito que os maroiços são fantásticas estruturas de pedra, erigidas à custa de força de braços (e provavelmente de muita chicotada) e valem como testemunho da capacidade de domesticação da paisagem. Reconheço também que o responsável pelo «dossier», o arquitecto Nuno Lopes, é porventura a pessoa que melhor compreende em Portugal o funcionamento da UNESCO, as suas exigências, os seus parâmetros. Quando o Governo Regional o recrutou, Nuno Lopes tinha no peito as medalhas de honra recolhidas pela fantástica operação que foi a gestão e transformação do centro histórico de Évora, também ele património da Humanidade.
As minhas críticas dirigem-se muito mais para a utilidade e oportunidade da classificação. Há cerca de dois anos, em pleno centro de Madalena, escutei quase todos os transeuntes dizerem o mesmo: «A candidatura, se aprovada, vai prejudicar-nos. Não via trazer turismo, nem vai gerar apoio financeiro. Vai simplesmente classificar áreas e terrenos, nos quais não poderemos mexer mais!»
É irónico que seja este o pulsar popular. Sabe-se que a UNESCO não concede (e faz muito bem) apoio financeiro directo aos locais protegidos. Ao invés, a organização estabelece critérios, vistoria os locais e concede esta aparente mais-valia turística que é a classificação universal. Duvido seriamente queo Pico já tenha tido, ou venha a ter, impactes directos em virtude da classificação. Ela não é suficientemente apelativa para justificar as hordas de turistas. E, se me permitem uma opinião pessoal, também não é isso que salvaria a frágil economia do Pico, cada vez mais despovoado, cada vez mais envelhecido, cada vez mais esquecido.
Por outro lado, custa-me também a aceitar a oportunidade destas classificações. No ano passado, um congressista queniano queixava-se de que mais de 70% do património protegido se encontrava nos Estados Unidos, na Europa ocidental, na Oceânia e no Japão/Coreia. Que imoralidade é esta? Pela própria perversão do sistema de votação, os países mais «industrializados» acabam por aceitar as candidaturas dos parceiros e negam o apoio técnico - muito mais necessário - a África, a Ásia e à América do Sul.
Há alguns anos, a situação inverteu-se ao ponto de as votações actuais serem decididas de forma muito mais internacional (em oposição a europeísta). Em virtude disso, confesso que sempre vaticinei um futuro negro para a candidatura do Pico. Não estava sozinho nesse receio: um responsável português do gabinete local da UNESCO assegurou-me dias antes que o Pico perderia o processo (felizmente, não publiquei o aparente exclusivo!?!) Que mérito especial tinha a paisagem vinhateira sobre um pedaço de savana sul-africana ou uma floresta tropical gabonesa? Por que motivo a lista de locais classificados (quase 800) apresenta uma clara predominância de paisagens culturais (com traço humano) sobre as paisagens naturais? Atrevo-me a dizer que tal discrepância se deve apenas ao facto de as primeiras predominarem no «mundo civilizado», ao contrário do «mundo bárbaro»!
Com esta longa introdução, não quero deixar de mencionar que, à primeira vista, o Pico não mostra nada hoje que não tivesse há dez anos. A actividade turística divide-se hoje entre as escaladas e caminhadas e o famoso «whale watching». Ao que me dizem, a gruta das Torres, impressionante cavidade vulcânica que já visitei, estará também aberta ao público durante 2005. Estas, sim, são as oportunidaes turísticas da ilha do Pico. O resto, desculpem que o diga, é... paisagem!
Por motivos profissionais, acompanhei de perto o processo de candidatura da paisagem vinhateira da ilha do Pico e devo começar por dizer que nada me move contra este ícone picaroto. Admito que os maroiços são fantásticas estruturas de pedra, erigidas à custa de força de braços (e provavelmente de muita chicotada) e valem como testemunho da capacidade de domesticação da paisagem. Reconheço também que o responsável pelo «dossier», o arquitecto Nuno Lopes, é porventura a pessoa que melhor compreende em Portugal o funcionamento da UNESCO, as suas exigências, os seus parâmetros. Quando o Governo Regional o recrutou, Nuno Lopes tinha no peito as medalhas de honra recolhidas pela fantástica operação que foi a gestão e transformação do centro histórico de Évora, também ele património da Humanidade.
As minhas críticas dirigem-se muito mais para a utilidade e oportunidade da classificação. Há cerca de dois anos, em pleno centro de Madalena, escutei quase todos os transeuntes dizerem o mesmo: «A candidatura, se aprovada, vai prejudicar-nos. Não via trazer turismo, nem vai gerar apoio financeiro. Vai simplesmente classificar áreas e terrenos, nos quais não poderemos mexer mais!»
É irónico que seja este o pulsar popular. Sabe-se que a UNESCO não concede (e faz muito bem) apoio financeiro directo aos locais protegidos. Ao invés, a organização estabelece critérios, vistoria os locais e concede esta aparente mais-valia turística que é a classificação universal. Duvido seriamente queo Pico já tenha tido, ou venha a ter, impactes directos em virtude da classificação. Ela não é suficientemente apelativa para justificar as hordas de turistas. E, se me permitem uma opinião pessoal, também não é isso que salvaria a frágil economia do Pico, cada vez mais despovoado, cada vez mais envelhecido, cada vez mais esquecido.
Por outro lado, custa-me também a aceitar a oportunidade destas classificações. No ano passado, um congressista queniano queixava-se de que mais de 70% do património protegido se encontrava nos Estados Unidos, na Europa ocidental, na Oceânia e no Japão/Coreia. Que imoralidade é esta? Pela própria perversão do sistema de votação, os países mais «industrializados» acabam por aceitar as candidaturas dos parceiros e negam o apoio técnico - muito mais necessário - a África, a Ásia e à América do Sul.
Há alguns anos, a situação inverteu-se ao ponto de as votações actuais serem decididas de forma muito mais internacional (em oposição a europeísta). Em virtude disso, confesso que sempre vaticinei um futuro negro para a candidatura do Pico. Não estava sozinho nesse receio: um responsável português do gabinete local da UNESCO assegurou-me dias antes que o Pico perderia o processo (felizmente, não publiquei o aparente exclusivo!?!) Que mérito especial tinha a paisagem vinhateira sobre um pedaço de savana sul-africana ou uma floresta tropical gabonesa? Por que motivo a lista de locais classificados (quase 800) apresenta uma clara predominância de paisagens culturais (com traço humano) sobre as paisagens naturais? Atrevo-me a dizer que tal discrepância se deve apenas ao facto de as primeiras predominarem no «mundo civilizado», ao contrário do «mundo bárbaro»!
Com esta longa introdução, não quero deixar de mencionar que, à primeira vista, o Pico não mostra nada hoje que não tivesse há dez anos. A actividade turística divide-se hoje entre as escaladas e caminhadas e o famoso «whale watching». Ao que me dizem, a gruta das Torres, impressionante cavidade vulcânica que já visitei, estará também aberta ao público durante 2005. Estas, sim, são as oportunidaes turísticas da ilha do Pico. O resto, desculpem que o diga, é... paisagem!
Do Continente aos Açores

Até sexta-feira, estarei nos Açores, pelo que a actualização do blog não está garantida. Se encontrar rede para ligar o computador, escreverei "posts" como... enviado-especial do Ecosfera. Caso contrário, os meus estimados e muito pacientes leitores terão de esperar mais alguns dias. As minhas desculpas.
Em jeito de apresentação de telenovela, não percam as cenas dos próximos capítulos!
domingo, janeiro 30, 2005
O costume

Imagem recolhida hoje de manhã, no Lumiar, no limite ocidental da Quinta das Conchas.
Pela calada, as retro-escavadoras voltaram a aparecer na Quinta das Conchas, no Lumiar, a segunda maior superfície florestal de Lisboa (logo a seguir ao Parque de Monsanto). Há alguns meses, o pretexto tinha sido a delimitação de um novo muro, que roubou alguns metros ao parque e obrigou ao abate de árvores centenárias. Agora, desconhece-se o objectivo, mas constata-se com facilidade que uma área de pelo menos hectare e meio foi totalmente limpa. Pela calada. Discreta, mas seguramente.
Há meses, foi a intervenção de grupos de moradores e de uma pequena plataforma de ONGA que zelou pelo espaço e impediu danos maiores. Quem sabe? Talvez a Câmara Municipal de Lisboa (CML) tenha implementado uma nova figura de cidadania - a do morador vigitante, que não pode tomar as suas zonas verdes como perenes e tem de vigiar com olhos de lince cada metro quadrado. Se é a CML que tem a missão de preservar e vigiar as zonas verdes, apetece perguntar como o poeta romano Juvenal: Quem guarda os guardas? Quem vigia os vigilantes?
sábado, janeiro 29, 2005
Ciclo Vicioso
Em viagem recente, visitei algumas localidades que vivem à beira de um rio beirão. Para aqueles que, como eu, consideram que é possível encontrar soluções que privilegiem o desenvolvimento sustentável em realidades rurais, estruturadas por séculos de culturas desregradas e de práticas que nos arrepiam o pêlo, o passeio foi uma lição. Na verdade, quando se vai ao terreno e se passa de uma esfera abstracta para uma realidade concreta, as leis absolutas tornam-se relativas. Expliquemos melhor.
Num dia infeliz, uma deslocação ao longo de alguns quilómetros do rio pode tornar-se um suplício. Os tons laranja da água não sugerem nada de bom. Mais acima, o lençol fluvial borbulha e produz espuma. Ninguém, no seu devido juízo, mergulharia nestas águas e duvido que alguém aqui lave roupa ou utilize a água para consumo. Neste troço do rio que então descubro, há também peixes mortos à superfície (poucos, é certo). O cheiro, garanto, é algo que impregna as roupas e permanece na memória olfactiva durante alguns dias.
Curioso, dirijo-me à povoação mais próxima. Nos cafés, o caso não indigna, nem surpreende. Todos os dedos (todos mesmo, sem excepção) apontam para a fábrica de curtumes da região, que usa o rio como depósito de resíduos sem problemas de consciência. À tarde, conheci o autarca local - político jovem, ambicioso, mas bem conhecedor (pelo menos aparentemente) das pastas da região. Também ele identificou há muito o culpado. Mas o que me disse depois intrigou-me. Mais palavra, menos palavra, a sua mensagem evidenciava o seguinte:
«Tem noção de que o desemprego deste município é três vezes superior ao da média nacional? Sabe que aquela fábrica emprega 80% dos homens activos da região e quase metade das mulheres? Conheço bem o proprietário da unidade fabril. Não pense que é um "troglodita" do interior, que polui o rio por gosto e quer poupar alguns milhares de euros. A unidade fabril está pelas ruas da amargura. Perdeu quase todo o seu sector de mercado. Hoje em dia, não tem capacidade para montar um sistema de tratamento de resíduos.
Sabe o que aconteceria se a responsabilidade deste atentado ambiental fosse atribuída à fábrica e a respectiva coima lhe fosse apresentada? A fábrica fecharia as portas no dia seguinte. E o desemprego na região agravaria para níveis ainda mais incomportáveis. Por isso, somos obrigados a entrar nesta charada. Multamo-los em 500 euros e fechamos os olhos. Porque os munícípes da região não se podem dar ao luxo, ao luxo - repito -, de exigir demasiadas responsabilidades ambientais ao único empregador que ainda aqui está!»
Do rio, do seu ecossistema degradado e até do eventual risco para a saúde pública, o autarca não falou. Porém, o caso é paradigmático do país real e dos problemas reais. Há tanto ainda por fazer...
Num dia infeliz, uma deslocação ao longo de alguns quilómetros do rio pode tornar-se um suplício. Os tons laranja da água não sugerem nada de bom. Mais acima, o lençol fluvial borbulha e produz espuma. Ninguém, no seu devido juízo, mergulharia nestas águas e duvido que alguém aqui lave roupa ou utilize a água para consumo. Neste troço do rio que então descubro, há também peixes mortos à superfície (poucos, é certo). O cheiro, garanto, é algo que impregna as roupas e permanece na memória olfactiva durante alguns dias.
Curioso, dirijo-me à povoação mais próxima. Nos cafés, o caso não indigna, nem surpreende. Todos os dedos (todos mesmo, sem excepção) apontam para a fábrica de curtumes da região, que usa o rio como depósito de resíduos sem problemas de consciência. À tarde, conheci o autarca local - político jovem, ambicioso, mas bem conhecedor (pelo menos aparentemente) das pastas da região. Também ele identificou há muito o culpado. Mas o que me disse depois intrigou-me. Mais palavra, menos palavra, a sua mensagem evidenciava o seguinte:
«Tem noção de que o desemprego deste município é três vezes superior ao da média nacional? Sabe que aquela fábrica emprega 80% dos homens activos da região e quase metade das mulheres? Conheço bem o proprietário da unidade fabril. Não pense que é um "troglodita" do interior, que polui o rio por gosto e quer poupar alguns milhares de euros. A unidade fabril está pelas ruas da amargura. Perdeu quase todo o seu sector de mercado. Hoje em dia, não tem capacidade para montar um sistema de tratamento de resíduos.
Sabe o que aconteceria se a responsabilidade deste atentado ambiental fosse atribuída à fábrica e a respectiva coima lhe fosse apresentada? A fábrica fecharia as portas no dia seguinte. E o desemprego na região agravaria para níveis ainda mais incomportáveis. Por isso, somos obrigados a entrar nesta charada. Multamo-los em 500 euros e fechamos os olhos. Porque os munícípes da região não se podem dar ao luxo, ao luxo - repito -, de exigir demasiadas responsabilidades ambientais ao único empregador que ainda aqui está!»
Do rio, do seu ecossistema degradado e até do eventual risco para a saúde pública, o autarca não falou. Porém, o caso é paradigmático do país real e dos problemas reais. Há tanto ainda por fazer...
A não perder...
sábado, janeiro 22, 2005
Blog a Meio Gás
segunda-feira, janeiro 17, 2005
Começa Hoje a Conferência da ONU Sobre Desastres Naturais

Vulcão dos Capelinhos, Faial. Fotografia manipulada digitalmente.
Na mesma semana em que tem início a conferência de Kobe (Japão), destinada a prevenir e reduzir o impacte das catástrofes naturais, os Açores fazem notícia pelo incrível facto de existir um plano de emergência face a calamidades, mas o mesmo não ter sido ainda aprovado pela administração central. Isso quer dizer que, no caso de uma catástrofe, a cadeia de comando seria incerta. É precisamente isso que se pretende numa catástrofe: incerteza!
Fica, desde já, encontro marcado para o final da semana, mal a conferência termine, para discutirmos as principais comunicações e implicações deste evento.
A Propósito de Energia
Esclarecimento prévio: há semanas, escrevi um "post" sobre o Partido Ecologista Os Verdes (PEV) e defendi que, ao invés do PEV, não se conhecia uma única posição do Bloco de Esquerda (BE) relacionada com Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Dias depois, fui desafiado a assitir à I Conferência Nacional sobre Ambiente e Ecologia, organizada pelo BE a 15 de Janeiro. Aceite o desafio, escolhi o painel que mais me interessava (relacionado com o fim do paradigma do petróleo, o modelo de eficiência energética e a investigação em energias renováveis ) e assisti à conferência. Este "post" reúne algumas conclusões extraídas do evento. Fica o esclarecimento.
Começo pelo fim. O grau de desconhecimento e ignorância de uma sociedade civil perfila-se muitas vezes no tipo de perguntas colocadas a um painel de cientistas. No caso, depois das exposições de Manuel Collares Pereira (INETI) e Miguel Centeno Brito (FCUL), não imagina o leitor o leque de dispersão das várias intervenções. Os dois investigadores foram questionados sobre uma imensidão de temas - do nuclear à energia das ondas, das mini-hídricas às práticas sustentáveis de eficiência. Dir-se-ia que a assistência queria resolver o problema da energia em quinze minutos, de preferência antes do painel seguinte!
Este tipo de eventos tem a grande vantagem de contribuir para a divulgação e para a formação de consciência ecológica. Mas revela também um enorme nervosismo da população à medida que escuta perspectivas catastróficas como "o fim do petróleo barato" ou "a escassez de água dentro de 30 anos".
Primeira conclusão extraída da conferência: confunde-se (confundimos) muitas vezes energia com electricidade e associamos a eficiência do consumo da segunda com eficiência energética. A energia é bem mais ampla do que a electricidade. Mas aqui temos uma atenuante: praticamente todos os secretários de Estado da Energia que temos tido vêm da EDP e seguem para a EDP. É por isso natural que associemos energia à electricidade.
Segunda conclusão: com uma magnífica exposição de oportunidades e constrangimentos à expansão das energias renováveis, Manuel Collares Pereira retirou quaisquer dúvidas ao auditório - teremos o sector de energias renováveis (ER) que os próximos governos entenderem. Dispondo de instrumentos de incentivo fiscal (como a Espanha nos mostra há anos), de veículos de promoção publicitária capazes de encabeçar uma campanha em prol das ER (como sucedeu com as campanhas públicas da Grécia), de excelentes condições naturais para a exploração de energias renováveis (solar, eólica, marés, hídrica...) e de tecnologia e investigação premiada no sector, a expansão das ER dependerá do empurrão que a administração central quiser dar nos próximos anos.
Terceira conclusão: Quer Collares Pereira, quer Miguel Brito expressaram a sua convicção de que a era do petróleo barato terminou e que portanto estaríamos a viver o fim do paradigma da energia fóssil. Retive um dado exemplar: segundo Collares Pereira, por cada barril de crude hoje extraído, gastam-se quatro no esforço de prospecção. O modelo parece, pois, falido. À atenção do Ministério das Actividades Económicas e respectivo lobby.
Quatra conclusão: O programa E4 do último governo Guterres (em rigor, dos últimos seis meses do governo socialista) foi elogiado no auditório como um primeiro esforço de dinamização do sector e de inflexão da nossa histórica dependência energética. O remoque foi pertinente. Estamos a um mês da mais que provável eleição de um governo socialista. Que medidas para o sector implementará o PS? Estamos todos como São Tomé...
Quinta e última conclusão: Que me desculpem os organizadores da conferência, mas ainda há aspectos a limar. O moderador não deve começar a sua intervenção lembrando que não conseguiu comprar o livro de um dos palestrantes (!), as intervenções do público devem ser controladas e intercaladas com respostas dos oradores (sob risco de, no final, Manuel Collares Pereira e Miguel Centeno Brito terem pelo menos duas dezenas de questões para responder de chofre), os horários devem ser mesmo para cumprir e os suportes tecnológicos devem estar prontos à hora prevista. Às vezes, pequenos detalhes fazem grandes diferenças!
Começo pelo fim. O grau de desconhecimento e ignorância de uma sociedade civil perfila-se muitas vezes no tipo de perguntas colocadas a um painel de cientistas. No caso, depois das exposições de Manuel Collares Pereira (INETI) e Miguel Centeno Brito (FCUL), não imagina o leitor o leque de dispersão das várias intervenções. Os dois investigadores foram questionados sobre uma imensidão de temas - do nuclear à energia das ondas, das mini-hídricas às práticas sustentáveis de eficiência. Dir-se-ia que a assistência queria resolver o problema da energia em quinze minutos, de preferência antes do painel seguinte!
Este tipo de eventos tem a grande vantagem de contribuir para a divulgação e para a formação de consciência ecológica. Mas revela também um enorme nervosismo da população à medida que escuta perspectivas catastróficas como "o fim do petróleo barato" ou "a escassez de água dentro de 30 anos".
Primeira conclusão extraída da conferência: confunde-se (confundimos) muitas vezes energia com electricidade e associamos a eficiência do consumo da segunda com eficiência energética. A energia é bem mais ampla do que a electricidade. Mas aqui temos uma atenuante: praticamente todos os secretários de Estado da Energia que temos tido vêm da EDP e seguem para a EDP. É por isso natural que associemos energia à electricidade.
Segunda conclusão: com uma magnífica exposição de oportunidades e constrangimentos à expansão das energias renováveis, Manuel Collares Pereira retirou quaisquer dúvidas ao auditório - teremos o sector de energias renováveis (ER) que os próximos governos entenderem. Dispondo de instrumentos de incentivo fiscal (como a Espanha nos mostra há anos), de veículos de promoção publicitária capazes de encabeçar uma campanha em prol das ER (como sucedeu com as campanhas públicas da Grécia), de excelentes condições naturais para a exploração de energias renováveis (solar, eólica, marés, hídrica...) e de tecnologia e investigação premiada no sector, a expansão das ER dependerá do empurrão que a administração central quiser dar nos próximos anos.
Terceira conclusão: Quer Collares Pereira, quer Miguel Brito expressaram a sua convicção de que a era do petróleo barato terminou e que portanto estaríamos a viver o fim do paradigma da energia fóssil. Retive um dado exemplar: segundo Collares Pereira, por cada barril de crude hoje extraído, gastam-se quatro no esforço de prospecção. O modelo parece, pois, falido. À atenção do Ministério das Actividades Económicas e respectivo lobby.
Quatra conclusão: O programa E4 do último governo Guterres (em rigor, dos últimos seis meses do governo socialista) foi elogiado no auditório como um primeiro esforço de dinamização do sector e de inflexão da nossa histórica dependência energética. O remoque foi pertinente. Estamos a um mês da mais que provável eleição de um governo socialista. Que medidas para o sector implementará o PS? Estamos todos como São Tomé...
Quinta e última conclusão: Que me desculpem os organizadores da conferência, mas ainda há aspectos a limar. O moderador não deve começar a sua intervenção lembrando que não conseguiu comprar o livro de um dos palestrantes (!), as intervenções do público devem ser controladas e intercaladas com respostas dos oradores (sob risco de, no final, Manuel Collares Pereira e Miguel Centeno Brito terem pelo menos duas dezenas de questões para responder de chofre), os horários devem ser mesmo para cumprir e os suportes tecnológicos devem estar prontos à hora prevista. Às vezes, pequenos detalhes fazem grandes diferenças!
domingo, janeiro 16, 2005
sexta-feira, janeiro 14, 2005
Carvão para a Fornalha
Acabo de escutar o noticiário e ouvi pela enésima vez o comentário mais irritante da longa lista de lugares comuns que o "cidadão de rua" usa para descrever cenários políticos. Não foi o "isto nunca esteve tão mal". Nem sequer "o que os políticos querem é poleiro". Dizia um transeunte, identificado sumariamente no rodapé da estação televisiva como "cidadão", que a "culpa (na circunstância, era do Caso Casa Pia) é só dos jornalistas". Pergunto-me de onde vem esta hostilidade, esta desconfiança. Terá algum destes "cidadãos de rua" noção dos constrangimentos inerentes a um dia de trabalho numa redacção?
Carvão para a fornalha - é o que fazemos diariamente. Não me ocorre melhor metáfora do que esta: um maquinista num velho comboio a vapor, alimentando a fornalha às pazadas de carvão, com a noção de que depois desta, seguir-se-á outra, sempre outra. A fornalha nunca descansa. Exige sempre mais carvão. E o maquinista não pode falhar. Um jornal alimenta-se de notícias. Custam mais, custam menos. A fornalha tem de arder e, no dia seguinte, parte-se do zero outra vez. Não é possível deixá-la meio cheia para o dia seguinte. Ela exige carvão fresco, porque esta matéria-prima é rapidamente perecível.
Terá este cidadão (e outros) a noção dos constrangimentos produtivos de um jornal? Terá ele a ideia da dispersão temática a que um jornal obriga alguns dos seus repórteres? De segunda a domingo, começa-se com alhos e termina-se com bugalhos. Parte-se do zero a cada manhã. Meia dúzia de horas para apreender um tema complexo, que porventura entretém o mesmo investigador (no caso das histórias de ciência) há décadas, e três mil caracteres para simplificar o que, por vezes, não tem simplificação possível.
E os constrangimentos relacionados com o tempo? O tempo é sempre escasso. Qualquer jornalista tem noção, como um velho cábula de liceu, de que se tivesse tido mais um dia para estudar a matéria, a notícia teria sido mais completa, mais abrangente, mais justa. Mas a fornalha precisa de carvão. Um número certo de pazadas por dia. Melhor ou pior alimentado, um jornal tem de ser publicado regularmente.
E as fontes que, sobretudo nos fechos, parecem nunca estar disponíveis? E as bibliotecas que encerram a horas criminosas? E a pressão dos pares, que vigiam o trabalho com uma minúcia de Sherlock Holmes, espreitando falhas, analisando textos fragmentados com recurso a uma lupa que tudo aumenta e tudo distorce.
Num jantar ocorrido esta semana, um velho amigo, trapaceiro como poucos mas justo e com uma capacidade de trabalho invulgar, barafustava com a classe jornalística. Há anos que ele mudou de trincheira e é hoje assessor institucional. Julga o esforço jornalístico com uma balança algo injusta, própria de quem sabe o que o trabalho de um repórter custa, mas ao mesmo tempo de quem sente que caminhamos para conteúdos muito standardizados de jornal para jornal. "Ninguém investiga, ninguém procura nada fora do ordinário. Ficam à espera das pastinhas de imprensa. E ainda fazem perguntas cujas respostas encontrariam se tivessem lido a segunda página do documento. Que geralmente não lêem". O rol de queixumes prolongou-se. Nem por um segundo foram encontradas atenuantes nos constrangimentos inerentes ao trabalho dos ex-colegas. Ao mudar de equipa, foi-se também a memória do que custa alimentar este monstro ingrato e sempre faminto, que é um jornal.
Cometem-se erros diariamente? Sem dúvida. Há jornais nos escaparates que nos envergonham? Há, sim senhor (basta atentar na história da "Grande Reportagem" de amanhã, sábado, para nos indignarmos com a administração do jornal "O Diabo"). Há profissionais incompetentes? Naturalmente. Mas serão estas faltas suficientes para julgar toda uma classe e todo um esforço colectivo? Na minha opinião, não.
Sempre que tenho um "post" preparado sobre este ou aquele jornal, esta ou aquela falha, lembro-me da forte imagem do maquinista, suando, colocando pazadas numa fornalha que nunca dorme. E que exige diariamente mais carvão. Com boa ou má matéria-prima, ela tem de ser alimentada. Lembrem-se disso.
Carvão para a fornalha - é o que fazemos diariamente. Não me ocorre melhor metáfora do que esta: um maquinista num velho comboio a vapor, alimentando a fornalha às pazadas de carvão, com a noção de que depois desta, seguir-se-á outra, sempre outra. A fornalha nunca descansa. Exige sempre mais carvão. E o maquinista não pode falhar. Um jornal alimenta-se de notícias. Custam mais, custam menos. A fornalha tem de arder e, no dia seguinte, parte-se do zero outra vez. Não é possível deixá-la meio cheia para o dia seguinte. Ela exige carvão fresco, porque esta matéria-prima é rapidamente perecível.
Terá este cidadão (e outros) a noção dos constrangimentos produtivos de um jornal? Terá ele a ideia da dispersão temática a que um jornal obriga alguns dos seus repórteres? De segunda a domingo, começa-se com alhos e termina-se com bugalhos. Parte-se do zero a cada manhã. Meia dúzia de horas para apreender um tema complexo, que porventura entretém o mesmo investigador (no caso das histórias de ciência) há décadas, e três mil caracteres para simplificar o que, por vezes, não tem simplificação possível.
E os constrangimentos relacionados com o tempo? O tempo é sempre escasso. Qualquer jornalista tem noção, como um velho cábula de liceu, de que se tivesse tido mais um dia para estudar a matéria, a notícia teria sido mais completa, mais abrangente, mais justa. Mas a fornalha precisa de carvão. Um número certo de pazadas por dia. Melhor ou pior alimentado, um jornal tem de ser publicado regularmente.
E as fontes que, sobretudo nos fechos, parecem nunca estar disponíveis? E as bibliotecas que encerram a horas criminosas? E a pressão dos pares, que vigiam o trabalho com uma minúcia de Sherlock Holmes, espreitando falhas, analisando textos fragmentados com recurso a uma lupa que tudo aumenta e tudo distorce.
Num jantar ocorrido esta semana, um velho amigo, trapaceiro como poucos mas justo e com uma capacidade de trabalho invulgar, barafustava com a classe jornalística. Há anos que ele mudou de trincheira e é hoje assessor institucional. Julga o esforço jornalístico com uma balança algo injusta, própria de quem sabe o que o trabalho de um repórter custa, mas ao mesmo tempo de quem sente que caminhamos para conteúdos muito standardizados de jornal para jornal. "Ninguém investiga, ninguém procura nada fora do ordinário. Ficam à espera das pastinhas de imprensa. E ainda fazem perguntas cujas respostas encontrariam se tivessem lido a segunda página do documento. Que geralmente não lêem". O rol de queixumes prolongou-se. Nem por um segundo foram encontradas atenuantes nos constrangimentos inerentes ao trabalho dos ex-colegas. Ao mudar de equipa, foi-se também a memória do que custa alimentar este monstro ingrato e sempre faminto, que é um jornal.
Cometem-se erros diariamente? Sem dúvida. Há jornais nos escaparates que nos envergonham? Há, sim senhor (basta atentar na história da "Grande Reportagem" de amanhã, sábado, para nos indignarmos com a administração do jornal "O Diabo"). Há profissionais incompetentes? Naturalmente. Mas serão estas faltas suficientes para julgar toda uma classe e todo um esforço colectivo? Na minha opinião, não.
Sempre que tenho um "post" preparado sobre este ou aquele jornal, esta ou aquela falha, lembro-me da forte imagem do maquinista, suando, colocando pazadas numa fornalha que nunca dorme. E que exige diariamente mais carvão. Com boa ou má matéria-prima, ela tem de ser alimentada. Lembrem-se disso.
quinta-feira, janeiro 13, 2005
Fiscalizar a Cova do Marquês
Encafuada num discreto fundo de página, leio no "Jornal de Notícias" a boa nova sobre o túnel do Marquês de Pombal, em Lisboa. Na sequência de solicitação do PCP, o Tribunal de Contas fiscalizará a obra, uma vez que se produziram alterações não comunicadas no caderno de encargos. Esta é a boa notícia e saúdo a iniciativa dos comunistas, na esteira de algumas acções já desenvolvidas pela sociedade civil e encabeçadas pelo agora criticado advogado Sá Fernandes (ver post de 3 de Janeiro).
Não me interpretem mal: continuo a ter sérias dúvidas de que os sucessivos atrasos e discussões da obra venham a implicar o recuo do empreendimento. Nesta fase, preocupa-me sobretudo o exemplo que ficará para iniciativas idênticas em Lisboa e noutros pontos do país. Deseja-se, pelo menos, que os autarcas tomem nota das várias etapas que uma obra desta grandeza tem forçosamente de ultrapassar antes da construção. Melhor ou pior, esse será o legado do túnel do Marquês.
A má notícia é a lentidão que estes processos implicam. A queixa do PCP na Assembleia Municipal foi produzida a 3 de Fevereiro do ano passado. A decisão de fiscalização foi tomada onze meses depois. Sem a providência cautelar, a obra já estaria a ser alvo de acabamentos, e a fiscalização iria ser exercida sobre um facto consumado. Sou só eu que acho que estes processos legais demoram eternidades em Portugal?
Não me interpretem mal: continuo a ter sérias dúvidas de que os sucessivos atrasos e discussões da obra venham a implicar o recuo do empreendimento. Nesta fase, preocupa-me sobretudo o exemplo que ficará para iniciativas idênticas em Lisboa e noutros pontos do país. Deseja-se, pelo menos, que os autarcas tomem nota das várias etapas que uma obra desta grandeza tem forçosamente de ultrapassar antes da construção. Melhor ou pior, esse será o legado do túnel do Marquês.
A má notícia é a lentidão que estes processos implicam. A queixa do PCP na Assembleia Municipal foi produzida a 3 de Fevereiro do ano passado. A decisão de fiscalização foi tomada onze meses depois. Sem a providência cautelar, a obra já estaria a ser alvo de acabamentos, e a fiscalização iria ser exercida sobre um facto consumado. Sou só eu que acho que estes processos legais demoram eternidades em Portugal?
Subscrever:
Mensagens (Atom)




