segunda-feira, janeiro 17, 2005

A Propósito de Energia

Esclarecimento prévio: há semanas, escrevi um "post" sobre o Partido Ecologista Os Verdes (PEV) e defendi que, ao invés do PEV, não se conhecia uma única posição do Bloco de Esquerda (BE) relacionada com Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Dias depois, fui desafiado a assitir à I Conferência Nacional sobre Ambiente e Ecologia, organizada pelo BE a 15 de Janeiro. Aceite o desafio, escolhi o painel que mais me interessava (relacionado com o fim do paradigma do petróleo, o modelo de eficiência energética e a investigação em energias renováveis ) e assisti à conferência. Este "post" reúne algumas conclusões extraídas do evento. Fica o esclarecimento.

Começo pelo fim. O grau de desconhecimento e ignorância de uma sociedade civil perfila-se muitas vezes no tipo de perguntas colocadas a um painel de cientistas. No caso, depois das exposições de Manuel Collares Pereira (INETI) e Miguel Centeno Brito (FCUL), não imagina o leitor o leque de dispersão das várias intervenções. Os dois investigadores foram questionados sobre uma imensidão de temas - do nuclear à energia das ondas, das mini-hídricas às práticas sustentáveis de eficiência. Dir-se-ia que a assistência queria resolver o problema da energia em quinze minutos, de preferência antes do painel seguinte!
Este tipo de eventos tem a grande vantagem de contribuir para a divulgação e para a formação de consciência ecológica. Mas revela também um enorme nervosismo da população à medida que escuta perspectivas catastróficas como "o fim do petróleo barato" ou "a escassez de água dentro de 30 anos".
Primeira conclusão extraída da conferência: confunde-se (confundimos) muitas vezes energia com electricidade e associamos a eficiência do consumo da segunda com eficiência energética. A energia é bem mais ampla do que a electricidade. Mas aqui temos uma atenuante: praticamente todos os secretários de Estado da Energia que temos tido vêm da EDP e seguem para a EDP. É por isso natural que associemos energia à electricidade.
Segunda conclusão: com uma magnífica exposição de oportunidades e constrangimentos à expansão das energias renováveis, Manuel Collares Pereira retirou quaisquer dúvidas ao auditório - teremos o sector de energias renováveis (ER) que os próximos governos entenderem. Dispondo de instrumentos de incentivo fiscal (como a Espanha nos mostra há anos), de veículos de promoção publicitária capazes de encabeçar uma campanha em prol das ER (como sucedeu com as campanhas públicas da Grécia), de excelentes condições naturais para a exploração de energias renováveis (solar, eólica, marés, hídrica...) e de tecnologia e investigação premiada no sector, a expansão das ER dependerá do empurrão que a administração central quiser dar nos próximos anos.
Terceira conclusão: Quer Collares Pereira, quer Miguel Brito expressaram a sua convicção de que a era do petróleo barato terminou e que portanto estaríamos a viver o fim do paradigma da energia fóssil. Retive um dado exemplar: segundo Collares Pereira, por cada barril de crude hoje extraído, gastam-se quatro no esforço de prospecção. O modelo parece, pois, falido. À atenção do Ministério das Actividades Económicas e respectivo lobby.
Quatra conclusão: O programa E4 do último governo Guterres (em rigor, dos últimos seis meses do governo socialista) foi elogiado no auditório como um primeiro esforço de dinamização do sector e de inflexão da nossa histórica dependência energética. O remoque foi pertinente. Estamos a um mês da mais que provável eleição de um governo socialista. Que medidas para o sector implementará o PS? Estamos todos como São Tomé...
Quinta e última conclusão: Que me desculpem os organizadores da conferência, mas ainda há aspectos a limar. O moderador não deve começar a sua intervenção lembrando que não conseguiu comprar o livro de um dos palestrantes (!), as intervenções do público devem ser controladas e intercaladas com respostas dos oradores (sob risco de, no final, Manuel Collares Pereira e Miguel Centeno Brito terem pelo menos duas dezenas de questões para responder de chofre), os horários devem ser mesmo para cumprir e os suportes tecnológicos devem estar prontos à hora prevista. Às vezes, pequenos detalhes fazem grandes diferenças!

domingo, janeiro 16, 2005

sexta-feira, janeiro 14, 2005

Carvão para a Fornalha

Acabo de escutar o noticiário e ouvi pela enésima vez o comentário mais irritante da longa lista de lugares comuns que o "cidadão de rua" usa para descrever cenários políticos. Não foi o "isto nunca esteve tão mal". Nem sequer "o que os políticos querem é poleiro". Dizia um transeunte, identificado sumariamente no rodapé da estação televisiva como "cidadão", que a "culpa (na circunstância, era do Caso Casa Pia) é só dos jornalistas". Pergunto-me de onde vem esta hostilidade, esta desconfiança. Terá algum destes "cidadãos de rua" noção dos constrangimentos inerentes a um dia de trabalho numa redacção?
Carvão para a fornalha - é o que fazemos diariamente. Não me ocorre melhor metáfora do que esta: um maquinista num velho comboio a vapor, alimentando a fornalha às pazadas de carvão, com a noção de que depois desta, seguir-se-á outra, sempre outra. A fornalha nunca descansa. Exige sempre mais carvão. E o maquinista não pode falhar. Um jornal alimenta-se de notícias. Custam mais, custam menos. A fornalha tem de arder e, no dia seguinte, parte-se do zero outra vez. Não é possível deixá-la meio cheia para o dia seguinte. Ela exige carvão fresco, porque esta matéria-prima é rapidamente perecível.
Terá este cidadão (e outros) a noção dos constrangimentos produtivos de um jornal? Terá ele a ideia da dispersão temática a que um jornal obriga alguns dos seus repórteres? De segunda a domingo, começa-se com alhos e termina-se com bugalhos. Parte-se do zero a cada manhã. Meia dúzia de horas para apreender um tema complexo, que porventura entretém o mesmo investigador (no caso das histórias de ciência) há décadas, e três mil caracteres para simplificar o que, por vezes, não tem simplificação possível.
E os constrangimentos relacionados com o tempo? O tempo é sempre escasso. Qualquer jornalista tem noção, como um velho cábula de liceu, de que se tivesse tido mais um dia para estudar a matéria, a notícia teria sido mais completa, mais abrangente, mais justa. Mas a fornalha precisa de carvão. Um número certo de pazadas por dia. Melhor ou pior alimentado, um jornal tem de ser publicado regularmente.
E as fontes que, sobretudo nos fechos, parecem nunca estar disponíveis? E as bibliotecas que encerram a horas criminosas? E a pressão dos pares, que vigiam o trabalho com uma minúcia de Sherlock Holmes, espreitando falhas, analisando textos fragmentados com recurso a uma lupa que tudo aumenta e tudo distorce.
Num jantar ocorrido esta semana, um velho amigo, trapaceiro como poucos mas justo e com uma capacidade de trabalho invulgar, barafustava com a classe jornalística. Há anos que ele mudou de trincheira e é hoje assessor institucional. Julga o esforço jornalístico com uma balança algo injusta, própria de quem sabe o que o trabalho de um repórter custa, mas ao mesmo tempo de quem sente que caminhamos para conteúdos muito standardizados de jornal para jornal. "Ninguém investiga, ninguém procura nada fora do ordinário. Ficam à espera das pastinhas de imprensa. E ainda fazem perguntas cujas respostas encontrariam se tivessem lido a segunda página do documento. Que geralmente não lêem". O rol de queixumes prolongou-se. Nem por um segundo foram encontradas atenuantes nos constrangimentos inerentes ao trabalho dos ex-colegas. Ao mudar de equipa, foi-se também a memória do que custa alimentar este monstro ingrato e sempre faminto, que é um jornal.
Cometem-se erros diariamente? Sem dúvida. Há jornais nos escaparates que nos envergonham? Há, sim senhor (basta atentar na história da "Grande Reportagem" de amanhã, sábado, para nos indignarmos com a administração do jornal "O Diabo"). Há profissionais incompetentes? Naturalmente. Mas serão estas faltas suficientes para julgar toda uma classe e todo um esforço colectivo? Na minha opinião, não.
Sempre que tenho um "post" preparado sobre este ou aquele jornal, esta ou aquela falha, lembro-me da forte imagem do maquinista, suando, colocando pazadas numa fornalha que nunca dorme. E que exige diariamente mais carvão. Com boa ou má matéria-prima, ela tem de ser alimentada. Lembrem-se disso.

quinta-feira, janeiro 13, 2005

Fiscalizar a Cova do Marquês

Encafuada num discreto fundo de página, leio no "Jornal de Notícias" a boa nova sobre o túnel do Marquês de Pombal, em Lisboa. Na sequência de solicitação do PCP, o Tribunal de Contas fiscalizará a obra, uma vez que se produziram alterações não comunicadas no caderno de encargos. Esta é a boa notícia e saúdo a iniciativa dos comunistas, na esteira de algumas acções já desenvolvidas pela sociedade civil e encabeçadas pelo agora criticado advogado Sá Fernandes (ver post de 3 de Janeiro).
Não me interpretem mal: continuo a ter sérias dúvidas de que os sucessivos atrasos e discussões da obra venham a implicar o recuo do empreendimento. Nesta fase, preocupa-me sobretudo o exemplo que ficará para iniciativas idênticas em Lisboa e noutros pontos do país. Deseja-se, pelo menos, que os autarcas tomem nota das várias etapas que uma obra desta grandeza tem forçosamente de ultrapassar antes da construção. Melhor ou pior, esse será o legado do túnel do Marquês.
A má notícia é a lentidão que estes processos implicam. A queixa do PCP na Assembleia Municipal foi produzida a 3 de Fevereiro do ano passado. A decisão de fiscalização foi tomada onze meses depois. Sem a providência cautelar, a obra já estaria a ser alvo de acabamentos, e a fiscalização iria ser exercida sobre um facto consumado. Sou só eu que acho que estes processos legais demoram eternidades em Portugal?

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Em frente, caramba, em frente

"O vício do tabaco gera cem milhões de francos anuais para a economia. Proibo-o no dia em que me revelarem a virtude que trouxer os mesmos rendimentos." – Napoleão III

Em situações de constrangimento e de forte pressão da oposição, os governos dividem-se consoante a resposta que articulam: há governos que cortam a eito, propondo o que sentem ser correcto, alheios à maré de críticas e norteados pela determinação de legislar de acordo com um programa; outros executivos recuam e avançam, sentem cada crítica como uma ferroada de alcance inimaginável e, no momento da verdade, comprometem os diplomas a legislar, trocando a verticalidade por compromissos menos honrosos. Dispenso-me de qualificar os executivos que nos têm governado nas últimas décadas. Mas esta distinção não me sai da memória à medida que vamos conhecendo mais pormenores do diploma que o Ministério da Saúde prepara(ou) para combater os efeitos do tabagismo.
Para clarificação dos leitores, aviso desde já que sou movido por preconceitos nesta matéria. Sou verdadeiramente um taliban do fumo e desejo ver todo e qualquer espaço público vedado aos fumadores. Hospitais, escolas, gabinetes, escritórios, museus e estádios de futebol: tudo. Que uma imensa zona de interdição se abata sobre as cidades portuguesas, remetendo o fumador para a exclusão social! – é um dos meus desejos para o ano que ora começa.
Naturalmente, assumindo estes preconceitos, adivinharão a minha alegria quando escutei, em Novembro, os primeiros ecos de um diploma preparado no Ministério da Saúde e que equipararia a nossa legislação ao (bom) exemplo norueguês. À boa maneira nacional, o diploma foi para a frente e para trás, foi emendado e rasurado, copiado e exagerado. A Itália, um dos três países europeus com mais fumadores por quilómetro quadrado, já legislou entretanto e nós nada.
Hoje, porém, o "Diário de Notícias" antecipa o futuro diploma que, em primeiro lugar, não é… bem um diploma legal. É um conjunto de artigos propostos para acrescentar à lei 22/82, já que o governo de gestão está impedido de legislar de raiz. Recordo que na proposta antecipada em Novembro, ficavam mais explícitas algumas regulamentações já existentes: nomeadamente a proibição de fumar em todos os transportes públicos, a extensão da interdição aos estabelecimentos de restauração, mesmo os que possuam salas de dança (lá vão as discotecas!), e aos locais de trabalho fechado. Nos estabelecimentos de ensino e de saúde, as excepções acabariam e não haveria corredores ou salinhas escondidas que valessem aos fumadores inveterados. O fumo tornar-se-ia uma actividade de ar livre ou privada, reservada ao remanso do lar.
Dizia eu então que o DN antecipou (aliás num belíssimo trabalho jornalístico) o diploma que foi sendo cozinhado no Ministério. E chegaram as surpresas.
Primeiro balde de água fria: escudando-se na definição de governo de gestão, o executivo lamenta não poder ser mais incisivo. Mesmo assim, receia que o Presidente da República (PR) não promulgue a nova/velha lei e que argumente que se trata de política de fundo. Não acredito que o PR o fizesse, nem subscrevo a tese de que se trata de um diploma de pendor ideológico. É uma lei de saúde pública, que não choca com as diferentes interpretações partidárias para a área da saúde. Aliás, seria curioso verificar se algum partido político terá coragem de se mostrar publicamente contrário a esta ou qualquer outra lei anti-tabagista.
Segundo balde, este bem mais gelado: as tabaqueiras foram chamados ao processo e naturalmente colocaram reservas. Não deixa de ser irónico que sejam elas a invocar o direito inalienável do indivíduo à liberdade. Entendamo-nos: não estamos a falar de uma grave repressão dos direitos civis quando o Estado explica ao cidadão que não deve fumar em público porque o seu cigarro está a matar lentamente o vizinho. Tenham paciência!
As tabaqueiras propõem a separação de espaços, sobretudo nos locais de restauração: áreas para fumadores e áreas de não fumadores. Da minha parte, não teria especiais reservas com essa distinção se me garantissem que a divisão entre os sectores é estanque. Mas ela não é. Uma rede de pizzarias chega ao cúmulo de separar os fumadores dos não fumadores através de um estante de madeira, de 1 metro de altura! Como se o fumo chegasse àquela barreira e voltasse para trás.
Terceiro balde: afinal, a proposta ventilada em Novembro terá sido alterada. O governo deixa à consideração dos proprietários de restaurantes, discotecas e afins a interdição, ou não, dos cigarros. E se se confirmar este infeliz artigo, a lei perde grande parte do seu impacte. É certo que estipula (pelo menos, por enquanto. Daqui a quinze dias, se calhar nem isso!) que, nos locais de trabalho, as zonas de fumo só são autorizadas se forem hermeticamente fechadas. E o fumo fica interdito em locais de visita obrigatória (hospitais, repartições, escolas, transportes, prisões – neste último caso, confio, os leitores do Ecosfera não deverão ter nada a temer!).
Em Novembro, Morais Sarmento (citado no artigo do DN) já deixara um aviso: não é preciso saltar mais do que as pernas. Queria o ministro dizer que uma lei preventiva, mas não muito severa, já bastava. E esta, ao contrário da lei italiana, nem sequer prevê a vigilância, pelo que tudo indica que o panorama não se vai alterar por aí além.
Tenho para mim que a moralidade só pode ser apreciada na íntegra: uma coisa é moralmente errada ou não é. Não pode ser ligeiramente imoral. Se todos admitimos que o fumo passivo provoca mal-estar e provavelmente sequelas físicas, não estaria na altura de avançar em frente e em força?
Um último dado para o ministro Morais Sarmento em jeito de remoque à noção do salto e do tamanho das pernas: de Novembro a Janeiro, nestes dois meses em que o Ministério da Saúde analisou e debateu a lei, morreram mais 2500 portugueses com doenças relacionadas com o consumo do tabaco (dados da OMS, 2003). Para estes dois milhares e meio, o salto já foi curto…

domingo, janeiro 09, 2005

A Terceira Via

Desculpar-me-ão os leitores por esta focagem excessiva nos temas que envolvem a cidade de Lisboa. Tenho algumas ideias alinhavadas sobre a barragem do Sabor e o processo da ria Formosa, mas, por motivos de actualidade, acabo por relegá-las para outra oportunidade. Para que conste, não estão esquecidas...

Em período de pré-campanha, mandaria o bom senso que não tomássemos a sério as promessas eleitoralistas. Publicadas em alturas de total desresponsabilização, não são vinculativas nem permitem gizar opções de longo prazo. Uma delas, porém, merece alguma reflexão porque oferece uma solução para a deficiente cobertura da rede de transportes públicos da cidade. O seu anúncio gerou um debate salutar sobre o futuro do metropolitano, do autocarro e do comboio em Lisboa. Refiro-me, claro está, ao anúncio do ministro António Mexia relacionado com a expansão da rede do metropolitano até 2010 através da construção de duas dezenas de novas estações, de novas linhas, do prolongamento de linhas já existentes e, consequentemente, da expansão da rede para a margem ocidental da cidade. O projecto governamental está orçamentado em 1400 milhões de euros.
Folgo em saber que, apesar de alguns tiros nos pés, a aposta nos transportes públicos colectivos se mantém. Por tiros nos pés entendo, por exemplo, as opções calamitosas dos túneis rodoviários do Marquês de Pombal e da Av. Marechal Gomes da Costa, verdadeiros incentivos à circulação automóvel numa cidade que ameaça já a saturação; entendo também como gravosas algumas opções recentes no metropolitano de Lisboa, como os malfadados torniquetes, que ora estão fechados e colocam sérios riscos de segurança, ora estão totalmente abertos e impedem a empresa de controlar o pagamento dos ingressos.
Entendo também como incompetente a desarticulação entre os serviços prestados pela Carris e pelo Metropolitano de Lisboa: redundantes em alguns casos, omissos em muitos outros.
Mais grave ainda é a política de constante aumento das tarifas dos transportes públicos, eternamente justificados pelo preço do petróleo, mas que superam largamente o aumento percentual do crude desde 1975.
Isto são, repito, os erros de gestão que reconheço no sistema público de transportes, mas o plano Mexia, à primeira vista, tem um valor simbólico importante, pois consolida a aposta governamental na rede de transportes colectivos e promete uma maior cobertura geográfica da mesma. Quais são então as falhas do plano?
Um artigo de Rui Rodrigues, publicado no jornal "Público" de 3 de Janeiro, teve o condão de apresentar realidades comparadas e de demonstrar que a aposta nos transportes não tem necessariamente de passar apenas pelo metropolitano. Pelo seu interesse e pelas encruzilhadas relevantes que disseca, o artigo merece destaque. Em traços sumários, o autor argumenta:
a) assumindo que o custo médio por quilómetro de expansão da rede do metro é de 65 milhões de euros, é prudente discutir não só a oportunidade do plano, como também a opção económica que ele acarreta. Haverá outra opção com os mesmos custos (ou até inferiores)? Rui Rodrigues considera que sim.
b) Ele assume a opção por uma terceira travessia do Tejo, uma ponte exclusivamente ferroviária, e pela construção de uma estação central, que sirva de interface a todos os transportes colectivos e que a gare do Oriente, pela sua localização periférica, não consegue cumprir. A futura estação de Campolide (prevista no plano de expansão de uma linha já existente) poderia ser a chave, sobretudo se conseguisse assimilar ligações com os comboios da margem sul, de Cascais, da Azambuja e de Sintra.
c) Diz o autor também que o custo médio base da expansão da rede dispararia com a nova linha das Colinas, um projecto arrojado que partiria de Campo Ourique até à Cerca Moura. No contexto geológico destas zonas da cidade, o preço por quilómetro seria ainda mais elevado.
d) Outra questão pertinente é a oportunidade de mais um investimento gigantesco na rede. O autor diz (e eu não tenho dados que o permitam confirmar ou desmentir) que a expansão da rede para a Amadora e para Odivelas não compensou em termos de aumento de tráfego. Numa situação financeira delicada, será oportuno o metropolitano avançar para mais um mega empreendimento?
e) A terceira travessia teria, em primeira instância, a faculdade de permitir o acesso à cidade de comboios de bitola europeia, uma vez que as actuais linhas não estão preparadas para este sistema. Caso o metropolitano se aventurasse para a margem sul (uma vez que o metro também circula em bitola europeia), poder-se-ia justificar melhor a terceira ponte, pois ela destinar-se-ia a comboios suburbanos, intercidades e internacionais e ao metropolitano. Ao mesmo tempo, caso a travessia fosse projectada para os arredores de Pinhal Novo, poder-se-ia finalmente conectar a margem sul com o aeroporto da Portela, via Gare do Oriente.

Pelo exposto, parece claro que há, pelo menos, alternativas concretas ao plano Mexia. Valerá a pena por isso ponderar o próximo passo. Socorrendo-me uma última vez do artigo de Rui Rodrigues, diria que o actual modelo se esgotou. É impensável que o metropolitano continue a expandir-se sem objectivos concretos, às apalpadelas, esperando que as linhas que se vão sucedendo estimulem novos munícipes a deixar o carro em casa. O triste caso do prolongamento da linha azul para a Estação de Santa Apolónia, uma obra caríssima e praticamente obsoleta antes ainda da inauguração (dada a quebra crescente de tráfego ferroviário nesta estação), vale como marco da falta de planeamento e de debate. Voltaremos a errar?

sexta-feira, janeiro 07, 2005

Lamentável

Lamentável, chocante, absurda ou vergonhosa. Escolha o leitor o adjectivo que preferir para qualificar a capa do jornal "24 Horas" de hoje (sexta-feira). Quando consideramos que o barco bateu finalmente no fundo, percebemos que há sempre mais uma camada de lodo para ultrapassar.
Para quem não viu, um resumo do highlight: Jorge Gabriel, naturalmente emocionado, foi fotografado no funeral da mãe. Dissecando a matéria, é esta a notícia que o "24 Horas" considerou mais relevante na noite de quinta para sexta. Fotos exclusivas, grandes planos, impressões de conhecidos e vizinhos, o show completo.

Do código deontológico dos Jornalistas:
(...)
2.O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo e considerar a acusação sem provas e o plágio como graves faltas profissionais.
4.O jornalista deve utilizar meios leais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja. A identificação como jornalista é a regra e outros processos só podem justificar-se por razões de incontestável interesse público.
5.(...) O jornalista deve também recusar actos que violentem a sua consciência.
7.(...) deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor.
9.O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos excepto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende. O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade e responsabilidade das pessoas envolvidas.

Quantos princípios éticos quebrou hoje o "24" numa só reportagem?

Todos os Nomes

A consulta das listas partidárias para as próximas eleições legislativas foi decerto acompanhada de muito nervosismo por esse país fora – afinal, a taluda tanto poderia acarretar o sonhado cargo como poderia implicar uma despromoção. Fizeram-se contas, balanços, mediram-se méritos e deméritos antes de se chegarem por fim às listas definitivas. Agora que a poeira dissipou vale a pena olhar para os nomes escolhidos, os eleitos da nação, aqueles a quem depositamos esperança de protagonizar uma legislatura mais serena. E confesso que estou surpreendido com algumas promoções e sobretudo com alguns castigos. Mantendo-me fiel ao espírito do blog, comentarei apenas alguns nomes que gravitaram na esfera do Ambiente
Comecemos pelo Partido Popular (PP). Uma só surpresa, mas de peso. Luís Nobre Guedes, ministro do Ambiente na última legislatura, será lançado às feras em Coimbra, concelho onde o PP tradicionalmente não elege deputados. Ambientalistas e autarcas, sobretudo os que se movimentam na zona centro, saudaram há semanas a posição inflexível de Nobre Guedes no processo da co-incineração prevista por José Sócrates para a região de Coimbra. Há momentos em que vale a pena morder os lábios e manter alguma contenção verbal. Alguns não o fizeram e talvez hoje se arrependam. Pergunta o comum dos mortais: não estaria Nobre Guedes já em campanha por Coimbra quando anunciou a sua oposição à solução socialista?
Percebeu bem, caro leitor. Um ministro em pleno exercício das funções anunciou então a sua oposição ao processo da co-incineração aparentemente por motivos eleitorais, porque já ponderava concorrer por Coimbra, onde o debate sobre o tema é tudo menos racional e tinha boas oportunidades de ser recebido como o messias do século XXI (designação, aliás, apropriada para a personagem). Escrevi na altura que Nobre Guedes não tinha fundamentos para criticar a solução socialista da co-incineração, a única que por enquanto é válida. Nunca imaginei, porém, que o ministro já estava a preparar o futuro.
No Partido Social Democrata (PSD), a surpresa foi provocada noutra trincheira. Já tinha antecipado algumas linhas de escrita sobre a omissão do actual secretário de Estado, Jorge Moreira da Silva. Estaria o PSD a renegar o seu principal estratega no campo da poluição e das alterações climáticas? Afinal, as listas foram entretanto emendadas ontem e Moreira da Silva aparece em lugar elegível por Lisboa. Excepto se uma hecatombe eleitoral modificar a aritmética. Talvez nunca venhamos a saber o que motivou a omissão e a posterior readmissão.
Assim, no PSD, a principal notícia ambiental é oriunda de outro quadrante. O Movimento Partido da Terra (MPT) coligou-se com os sociais-democratas e negociou a inclusão de potenciais deputados nas listas nacionais. Quer isto dizer que, em princípio, teremos na Assembleia representantes do movimento ecologista de esquerda e de direita. Mas o processo não foi pacífico. Basta espreitar o texto de opinião de um dos fundadores do MPT, inserido no blog "Ambio" (ver texto completo aqui), para perceber que a associação ao PSD foi crispada.
Ainda na esfera ecológica, não deixa de ser estranha a ausência de Isabel Castro da lista do Partido Ecologista Os Verdes (PEV). Deputada histórica do PEV, Isabel Castro ainda não se pronunciou sobre a lista do seu partido (eu, pelo menos, ainda nada li sobre o assunto. Penitencio-me se essa reacção já tiver sido publicada) para as eleições. Para o seu lugar entra Francisco Lopes, um advogado que dispôs de pouco tempo na Assembleia (escassos três meses) para mostrar o que vale.
No Partido Socialista (PS), os rumores proliferam por estes dias. Já escutei três nomes diferentes como potenciais ministeriáveis para a pasta do Ambiente… se de facto o PS vencer as próximas eleições. Não os divulgarei, mas até tenho o meu preferido! No campo ambiental, não detectei nomes imprevistos e já esperava as omissões. Poucas surpresas, portanto.
Aliás, o mesmo posso dizer do Bloco de Esquerda (BE) e do Partido Comunista Português. As respectivas listas não parecem apresentar surpresas nesta área.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

Os tolinhos da turma

Permitam-me que comece o ano com umas gotas de azedume. Nos últimos dias, recordei várias vezes a triste figura dos tolinhos da turma, os tontinhos que se calavam quando deviam falar e que só abriam a boca, em ruidosos protestos, quando a segurança dos números impedia que caíssem no ridículo. Todas as turmas de escola os tinham, mas seria de esperar que a idade adulta trouxesse alguma racionalidade. Infelizmente, não trouxe. E encontramo-los no quotidiano, nos escritórios, nas lojas, nos partidos, fascinados e exaltados se alguém os leva ao sério, calados que nem um rato quando a maré vai vazando.
O túnel rodoviário do marquês do Pombal é um bom exemplo - quase um laboratório social do fenómeno. Já escrevi sobre os motivos que, na minha opinião, não justificam a obra (ver "post" integral aqui). Mas pasmo agora com a notável eloquência dos comerciantes da zona, dos repórteres e analistas, dos leitores que remetem cartas ao director (ui, se falássemos disso!) e dos cidadãos escolhidos ao acaso nos inquéritos de rua de que os jornais tanto gostam e que não são mais do que um espelho fusco da nação inconstante. Com a voracidade de uma alcateia, a turba atira-se agora a Sá Fernandes, escudada que está nesse pedido de indemnização mentecapto que a Câmara Municipal de Lisboa resolveu interpor contra o autor da providência cautelar. Sá Fernandes tornou-se o saco de pancada dos lisboetas, como se tivesse sido ele que projectou o declive absurdo, o túnel que roça as galerias do metro, as obras que minam o centro há três anos. Mas o povo acha que sim. Acha que o estudo de impacte ambiental deu razão à edilidade (não deu). Acha que a providência cautelar foi inútil (não foi). Acha que o novo plano rodoviário vai permitir mais e melhores acessos da linha de Cascais ao centro de Lisboa (não vai). Acha que o trânsito não será agravado (veremos). E, se for preciso, o povo ainda opina com prognósticos para a bola no sábado, para as eleições legislativas de Fevereiro e sobre o destino da Casa da Música. O povo adora microfones e gosta de ser "sondado". Sobretudo, quando se pode queixar, apontar um culpado e escudar-se na segurança dos números. Os tolinhos da turma cresceram e continuam iguaizinhos.
Há muito que se fala do défice de participação cívica dos portugueses. Ele é real, é incontornável. E este caso foi, em todas as fases, um laboratório social. Vejamos:
I) A coligação que venceu as eleições autárquicas de 2001 prometeu o túnel e avançou para a obra. A população resmungou entre dentes. Mas ninguém estava ainda afectado. Poucos protestaram.
II) Quando as obras começaram e a escavação avançou, iniciou-se o pandemónio. Residentes e não residentes rosnaram de desagrado. Aqui d'el rei que estamos a ser prejudicados. Mas poucos se organizaram e utilizaram os mecanismos legais contra um empreendimento que queimou etapas e dispensou procedimentos para acelerar a marcha.
III) O advogado Sá Fernandes solicitou a interrupção das obras até à realização do indispensável estudo de impacte ambiental, que deveria ter sido feito de raiz, antes de se furar a Avenida Joaquim António de Aguiar. A obra parou, a turba achou graça, o caso seguiu para tribunal.
IV) À medida que o impacte do estaleiro ameaçou, mais ainda!, a sobrevivência das lojas da zona e afectou, mais ainda!, o trânsito do centro, a turba iniciou a intifada contra... Sá Fernandes. Não foi contra a edilidade ou contra o edil que partiu sem olhar para trás. A culpa "disto", envolvendo no "isto" tudo e mais alguma coisa desde a revolução liberal de 1820 até ao jejum de títulos do Benfica , é do advogado, "que só quer propaganda", "que é um mau lisboeta", "que não quer o desenvolvimento" e "que agora devia pagar as falências das lojas todas".
Ninguém quis saber do estudo de impacte ambiental e suspeito que a maioria dos críticos não o leu e nem faz tenções disso. Nem é preciso. Os tolinhos da turma falam a destempo, ignoram os factos e protegem-se na segurança dos números. Sempre foi assim.

sexta-feira, dezembro 31, 2004

Dos jornalistas e cientistas – parte 2

No último "Post", falei das dificuldades de acompanhamento do jargão científico e de alguma relutância dos cientistas para lidar com esse elemento invasor que é o jornalista. Hoje, creio que vale a pena abordar o outro pilar em que assenta a desconfiança científica: a triagem dos temas ou o agendamento.
Como se processa a escolha dos materiais a noticiar numa redacção? Tenho escutado dois tipos de críticas: por um lado, alegam os mais extremistas, o processo é aleatório; por outro, afiançam que a escolha de notícias é norteada pelas relações pessoais cultivadas entre jornalistas e cientistas.
Por estranho que possa parecer, estas duas leituras não estão totalmente incorrectas.
O processo de triagem noticiosa pode ser arbitrário, na medida em que o jornalista pode esbarrar com uma ideia ou com um projecto de forma totalmente acidental. Ou porque seguia uma pista que o levou para outro território; ou porque acidentalmente falou com um perito, que o colocou no trilho para outra história; ou ainda porque, se for diligente e fizer contactos exploratórios, esbarrou com um tema inédito e prometedor. Este fio de investigação é, admito, irritante para o observador científico. Tudo o que nele é ordem e método eriça-se com esta teoria da desordem e do caos. Mas algumas das melhores histórias nascem assim, sem qualquer indução propositada por parte de uma fonte. Não é comum, mas acontece.
Falemos de relações pessoais. É do senso comum que um jornalista voltará a falar com uma fonte que foi rápida, prestável e confiável. Mesmo que pretenda manter um leque amplo de contactos, o repórter tenderá a socorrer-se daqueles que lhe mereceram mais confiança no passado. E é naturalmente com eles que abordará as novidades do sector: quem publicou, quem se "estampou" no último projecto, o que se deve esperar da administração pública. Nas várias áreas em que a minha agenda de contactos se divide, tenho um número razoável de fontes em quem confio e que me fornecem informação oficiosa, mas razoavelmente segura. Muitas vezes, nascem notícias destas conversas oficiosas. É um processo normal e habitual em todas as secções de um jornal.
Terá um investigador desconhecido as mesmas hipóteses de acesso aos media do que um cientista que já seja conhecido do jornalista? Creio que não. Da mesma forma que nos restantes campos de actividade jornalística, há relações pessoais que abrem portas e que tornam mais provável o sucesso de comunicação de X e não de Y. Mas sublinho que isso não deve ser confundido com favoritismo ou clientelismo. O mero acesso ao repórter não garante publicação. Garante porventura a oportunidade de explicar a sua tese, mas não torna um projecto ou um investigador livre de qualquer escrutínio. Essa mensagem, creio, custa a passar. Para alguns investigadores, a cumplicidade entre alguns cientistas e a comunidade jornalística torna-os menos "sérios". «Dedicam tempo a mais à propaganda e tempo a menos à investigação», dizia-me há semanas um respeitável decano da investigação científica. Espero que gradualmente esta renitência em falar com e para leigos se esbata. Mas é certamente uma condicionante para quem opera nesta arena tão específica.
É inquestionável, porém, que o caudal principal de notícias científicas produzidas num jornal não tem origem nestes dois processos. É gerado, pelo contrário, pela torrente de eventos preparados, de relatórios publicados, de prémios atribuídos, de comunicados difundidos ou de obras anunciadas. Por outras palavras, abrimos as secções de ciência e grande parte das notícias resulta de informações pouco espontâneas e provavelmente partilhadas entre os vários órgãos de comunicação.
Um colóquio ou conferência gera inevitavelmente um fluxo de abordagens noticiosas comuns aos vários jornais; uma tomada de posição de uma fonte oficial ou não oficial (mas com razoável acesso ao campo mediático), se bem preparada pela legião de assessores que povoa hoje as instituições, tem boas probabilidades de ser noticiada uniformemente.
É preocupante que, nos tempos que correm, cada vez mais espaço noticioso é dedicado aos mesmos temas ou, por outras palavras, cada vez mais eventos são elaborados para os media. O processo rouba tempo e espaço à investigação jornalística. E priva os leitores de diversidade.
Para os repórteres, é cómodo dispor de estas ferramentas que tornam o trabalho mais simples e garantem, perante os editores, uma defesa. Cobri este tema, os meus rivais fizeram o mesmo. Pelo que este tema era forçosamente o mais importante da agenda do dia. Quod erat demonstrandum. A lógica é torcida, mas válida.
Em que ponto ficamos então nesta discussão já longa sobre jornalistas e cientistas? Teria razão o meu interlocutor da semana passada, que afiançava que os jornalistas são preguiçosos, parciais e imprevisíveis? Acredito que há um meio termo e que esta apreciação é injusta, até porque tende a colocar todos no mesmo saco. As secções de Ciência e Ambiente são relativamente jovens nos vários jornais generalistas. Lutam ainda por afirmação e raramente merecem honras de destaque. Acreditemos que, à medida que se ganhar espaço e notoriedade, ganhar-se-á também diversidade.
Votos de um bom 2005 aos leitores do Ecosfera.

segunda-feira, dezembro 27, 2004

Dos jornalistas e cientistas – Parte 1

Não é segredo para ninguém que os jornalistas não são especialmente apreciados nas universidades, nos institutos ou laboratórios de investigação, nos museus ou salas de exposição. Salvo excepções, o cientista não se sente à vontade quando é forçado a comunicar com leigos, sobretudo porque a prática jornalística dispensa a sua revisão técnica e prefere vulgarizar o seu discurso para o tornar acessível à generalidade da audiência.
Pela natureza do órgão de comunicação em que trabalho, contacto regularmente com investigadores. Muitos mostram desconfiança perante a intrusão do jornalista no seu espaço e, acredito, justificam-na precisamente porque no passado (recente ou não) tiveram más experiências no campo da divulgação. Invariavelmente, escuto as perguntas: quer que eu escreva o texto? Posso rever o seu manuscrito antes de publicação? As perguntas revelam uma genuína desconfiança perante as escolhas jornalísticas e colocam em causa uma das funções primordiais do jornalismo contemporâneo: a mediação entre a fonte e o público.
Na semana passada, um perito queixava-se abertamente da leitura que os meios de comunicação fizeram da conferência das Nações Unidas dedicada às alterações climáticas. Dizia ele que, apesar de todas as apresentações preparadas para Buenos Aires, todos os media analisaram a conferência como um falhanço político tendo em conta os objectivos do protocolo de Quioto. Dizia ele ainda que não entendia a unanimidade de todos os jornalistas na escolha deste ângulo. E queixava-se da repetida preguiça jornalística no que toca a ler relatórios extensos e a dominar pastas complexas. «Eu preparo-lhe um documento de 200 páginas e sei que você só lerá as duas páginas de conclusão. Delas fará um resumo abusivo e provavelmente exagerado. Destacará as excepções porque elas lhe parecerão curiosas ou pitorescas. Folheará o manuscrito e porventura parará num ou noutro destaque, que lhe pareça desconhecido para si e para o público. E talvez ainda escreva um texto de pendor alarmista. Por que motivo me aborreço eu com a divulgação?» – estas foram as suas palavras, reproduzidas aqui quase ipsis verbis.
Não nego a maioria destas acusações, embora também acredite que elas sejam hiperbolizadas por alguém que tem sido infeliz na sua relação com os jornalistas. Os jornalistas são inundados diariamente por torrentes de informação que não podem triar com rigor, sob risco de nada mais fazer do que ler documentos. Por excesso de trabalho, por pressões relacionadas com o fecho do jornal e com o espaço disponível, o jornalista tem de se socorrer de procedimentos técnicos que lhe permitam acabar um texto a tempo, mantendo o máximo de rigor possível. É por isso forçosamente que existem sumários das comunicações, resumos e algum enquadramento contextual na abertura ou no fecho de dossiers entregues aos media. É por isso também que o divulgador científico deve encarar a redacção dos mesmos com especial cuidado, pois esses serão os trechos mais lidos e utilizados como ponto de partida.
Naturalmente, o jornalista conscencioso não termina o seu trabalho com a leitura dos sumários. Usa-os como elemento de contexto, que colocam a pesquisa num determinado momento histórico de investigação (com tudo o que foi feito atrás e com o objectivo que se pretende alcançar com este e outros projectos de investigação). Se lê algo que desperta a atenção, procura o capítulo de desenvolvimento da ideia e recolhe mais dados. Fala então com o perito e procura confirmar a correcção da sua leitura, ao mesmo tempo que tenta colher pedaços de discurso directo. Se puder, fala ainda com alguém que também tenha trabalhado sobre o tema e tenta descobrir mais. Se o trabalho se insere numa corrente global; se é único e se essa unicidade o torna mais ou menos fiável; se a metodologia é partilhada por outros investigadores; enfim, faz uma avaliação às credenciais do perito contactado – por muito que isso aborreça a comunidade científica.
Quero eu dizer com isto que, seguindo esta linha de procedimentos, não cometemos erros? Lamentavelmente, não. Os erros são comuns, sobretudo porque se trata de uma área com múltiplos campos de especialização. Se eu domino razoavelmente a arqueologia e a sua terminologia, perco-me com facilidade quando falo com astrónomos. Falo abertamente com geólogos e tenho uma ideia muito razoável da evolução da disciplina em Portugal, mas tenho de pedir ao especialista em biotecnologia para falar devagar e soletrar termos que escuto pela primeira vez. E, como eu, julgo que a maioria dos jornalistas se defronta com a mesma dificuldade: há áreas científicas de que gostamos mais, que estudámos mais, que cultivámos mais e outras que consideramos mais inacessíveis. Lamentavelmente, na generalidade dos meios de comunicação, não é possível dividir os jornalistas por sub-áreas. Normalmente, há poucos repórteres para cobrir a área científica e estes abrangem por isso uma área inimaginável do conhecimento.
Esta limitação torna o jornalismo científico uma tarefa apenas para cientistas? Discordo parcialmente. No órgão de comunicação onde trabalho, não é invulgar socorrermo-nos dos peritos para redigir textos. Com essa circunstância, ganhamos rigor informativo e respeitabilidade. É sobre os ombros do investigador que recai o peso das afirmações e comparações publicadas. É a ele que pedirão satisfações. E o público inevitavelmente respeita mais o texto redigido por um especialista.
Mas esta abordagem tem necessariamente lacunas. Nem todos os cientistas sabem traduzir a realidade da sua área para a audiência. Nem todos sabem explicar ordens de grandeza. Nem todos dominam técnicas narrativas, que permitem manter o leitor interessado até ao fim. Por outro lado, o cientista terá tendência a abordar apenas o seu trabalho na área, esquecendo ou diminuindo o contributo de rivais.
É por isso que o jornalista científico se traduz como um meio termo entre a pedagogia e o exercício tradicional do jornalismo, como explica o investigador espanhol Carlos Elias, da Universidad de La Laguna. O jornalista científico é um mediador, um intérprete de uma mensagem complexa. Cabe-lhe conferir sentido, mesmo que essa tarefa implique a simplificação dos aspectos mais técnicos e metodológicos da investigação. Ao jornalista científico cabe o papel fundamental de fornecer informação ao público sobre esta área tão inacessível, com protocolos tão específicos e linguagens tão exclusivas, que é a ciência. Em simultâneo, tem de triar os temas verdadeiramente significativos para a sua audiência, o que o obriga por vezes a julgar o mérito dos vários projectos científicos à sua "disposição".
Jean Rostand, vencedor do prestigiado prémio Kalinga das Nações Unidas, enunciou na década de 1960 algumas das vantagens da popularização do conhecimento e da investigação científica. De acordo com o investigador, "a popularização aperfeiçoa e corrige as lacunas da educação escolar, desperta a vontade nos mais jovens de prosseguir a carreira da pesquisa, elucida e acalma o público quanto ao poder e eficácia da ciência criativa, cria elos de ligação entre os cientistas de distintas áreas que de outra forma não teriam acesso ao trabalho dos colegas e tenta os informar os decisores políticos com um estilo mais acessível do que o dos relatórios técnicos".
Terei eu convencido o meu interlocutor da semana passada? Duvido. Mas voltarei ao tema nos próximos dias.
(Continua)

quinta-feira, dezembro 23, 2004

À volta da co-incineração

José Sócrates é teimoso. Não é novidade. A teimosia já vem de longe e quem com ele contactou no período de gestão dos governos socialistas (primeiro como secretário de Estado e depois como ministro) sabe que o secretário-geral do Partido Socialista (PS) não muda facilmente de opinião.
Há quinze dias, analistas e rivais acusavam-no de ainda não ter proposto uma ideia que fosse para o governo da nação. Prepara-se para herdar o trono e, para tal, limitou-se a capitalizar com a derrocada santanista e a gerir silêncios. No sábado, porém, e graças a um artigo no "Diário de Notícias" que o acusava de abandonar o projecto de co-incineração que preoconizara para o tratamento de resíduos perigosos, o seu velho cavalo de batalha no Ministério do Ambiente, Sócrates passou ao ataque. Anunciou a recuperação do projecto em moldes semelhantes aos idealizados em 1998/1999, com as mesmas condicionantes. E no mesmo local. Gerou-se um pandemónio.
Sócrates é teimoso; Sócrates é casmurro; Sócrates não aprende. Com o frenesi próprio das campanhas, rivais e observadores responderam a quente. Muito se escreveu entretanto sobre a co-incineração. Carlos Encarnação, presidente da Câmara Municipal de Coimbra, prometeu manifestações e protestos vigorosos; Pedro Silva Pereira, o homem do Ambiente no actual PS, corrigiu as mentes mais apavoradas, recordando que a co-incineração não seria aplicada a todos os resíduos, mas sim a uma pequena percentagem para a qual, de momento, não há soluções de tratamento ou valorização; a população da lusa Atenas refilou; alguns ambientalistas prometeram luta cerrada contra o projecto. E entre os gritos de esfola e mata, Nobre Guedes, ministro demissionário do Ambiente, resolveu também entrar na dança. A meu ver, o ministro foi a jogo sem trunfos, fazendo "bluff" com cartas que não tinha. Veremos o desenlace da partida de póquer nas próximas semanas…
Há dias, Nobre Guedes tinha concedido uma entrevista ao "Público" em que alvitrava a barbaridade de ter feito mais e melhor em quatro meses do que Sócrates em seis anos no mesmo ministério. Pura bazófia. Quando Sócrates foi ministro do Ambiente, Guedes provavelmente ainda pensava que um aterro era… um local onde os helicópteros poisavam! Ou, com um toque de malícia, que se podiam construir terreiros no Parque Natural da Arrábida sem dar cavaco às autoridades. Nobre Guedes, dizia eu, jogou forte e usou cartas agradáveis aos olhos ambientalistas. Anunciou a solução dos centros integrados de recuperação, valorização e eliminação de resíduos perigosos (CIRVER) como solução moderna e obviamente mais eficaz.
Não discuto os méritos da co-incineração ou dos CIRVER, nem os pressupostos científicos em que ambos assentam. Verdade seja dita, nestes últimos dias, falou-se muito e bem de resíduos industriais, perigosos e menos perigosos. Creio que não restam grandes dúvidas de que os CIRVER oferecem uma solução mais completa, embora não abranjam todos os resíduos.
Todavia, neste intrincado jogo de propostas e contrapropostas, ainda há cartas por jogar. Nobre Guedes devia ter dito que os municípios que receberão os CIRVER anunciados (Marco de Canaveses e Chamusca) ainda não sabem que resíduos serão tratados nos seus concelhos. Mais: segundo o "Jornal de Notícias", a CM Marco de Canaveses só discutiu a proposta na semana passada. Só então se soube a localização da unidade. Recordo que o ministro acusou Sócrates de optar por uma solução tacanha e ultrapassada quando ele tinha uma nova solução em «fase avançada». Leu bem. Em fase avançada. Um projecto que foi debatido na CM Marco de Canaveses há oito dias já está em fase avançada. Na Chamusca, embora a edilidade conheça a intenção governamental há três anos, preparam-se ainda documentos e visitas técnicas e não se conhece o local de instalação do CIRVER. É este ponto que verdadeiramente me aborrece. Um plano pensado em cima do joelho é apresentado como se uma aposta de longo prazo se tratasse. Alguém acredita?
Agora que as populações dos dois municípios souberam que terão no concelho centros integrados para tratamento de resíduos perigosos imagino o alvoroço – despropositado, é óbvio, mas tão inevitável como o dia suceder à noite. As evocações de tragédias. As críticas. As manifestações. O caos.
Um velho sábio dizia-me há tempos que o atraso científico de um país se mede quando existem mais astrólogos do que astrónomos. Tal é o nosso nível de cientificidade!
Perante tudo isto, que valor tem a proposta de co-incineração do engenheiro José Sócrates? Não é obviamente a solução perfeita. É melhor do que o depósito em aterro. É pior do que o tratamento em CIRVER. Todavia, não vejo motivo real para opor a co-incineração aos CIRVER, quando ambos são complementares. E reafirmo que, perante as evidências, os centros integrados estão apenas numa fase embrionária. Nem sequer são um bebé na incubadora, diriam as más línguas.
Sócrates é teimoso? Definitivamente. É vaidoso? Pelo que conheço, diria que sim. A sua solução é despropositada? Sinceramente, não me parece.

quarta-feira, dezembro 22, 2004

O decreto maroto

Algumas notícias merecem reflexão e não devem ser comentadas a quente, sob risco de se cometerem apreciações injustas. Tive essa precaução a propósito de uma investigação do jornal "Público", assinada por Ricardo Garcia e publicada em meados da semana passada. Agora, passados que estão mais de sete dias e depois de verificar que a "lebre" foi levantada e rapidamente varrida para debaixo do tapete, é legítimo concluir que o assunto está terminado e podem, por isso, ser feitos juízos de valor. E, garanto-vos, o caso não é para menos.
A história conta-se em poucas palavras. O texto do decreto-lei 233/2004 sofreu alterações não autorizadas e não assumidas, produzidas depois de os Ministérios do Ambiente e da Economia chegarem a acordo quanto à versão final. E o que é o decreto-lei 233?
É a transposição para a legislação portuguesa da directiva comunitária que institui o comércio de emissões no nosso país. Lamentavelmente, a versão emendada e publicada modifica as penalizações acordadas para as indústrias que desrespeitem os limites de emissões de dióxido de carbono.
Escreve Ricardo Garcia: «O decreto-lei (…) traz não só um valor errado – 99 euros, ao invés de 100 – como fixa um limite máximo para estas multas: 14.400 euros até 2008 e 35.640 euros a partir de então. Na prática, as empresas que não cumpram os limites pagariam multas apenas por 360 toneladas de dióxido de carbono em excesso – um valor irrisório, se comparado com a dimensão do mercado de emissões. A térmica de Sines, por exemplo, emite por ano, em média, cerca de oito milhões de toneladas de dióxido de carbono.» Quer isto dizer que a mão anónima que modificou valores e disposições legais pretendia beneficiar largamente as indústrias poluidoras, desrespeitando o espírito da directiva comunitária.
O problema foi entretanto resolvido com uma nova decisão do Conselho de Ministros. Não é isso que me preocupa. Duas perguntas assaltam-me a mente desde o texto publicado no jornal: se não tivesse existido a investigação de Ricardo Garcia e a consequente exposição pública, alguém detectaria o erro publicado no "Diário da República" e agiria em conformidade? Mais grave do que isso: quem alterou as disposições legais?
É naturalmente possível que, na redacção do "Diário da República" tenham sido digitados erradamente os valores. Mas não é provável. Inclino-me, eu e a maioria das pessoas lúcidas, para um erro voluntário, uma manipulação grosseira, digna do chico-espertismo nacional, que tentou distorcer o espírito da lei como um miúdo que emenda a nota do teste antes de o levar ao encarregado de educação. A identidade do autor da emenda fica naturalmente ao sabor da imaginação de cada um. Eu tenho o meu suspeito.

sábado, dezembro 18, 2004

Activismo e jornalismo

Há dias, um leitor comentou, a propósito da nota que escrevi sobre o equívoco do Ministério do Amiente de não se deslocar a Buenos Aires, que o jornalismo tendia cada vez mais para o activismo. Ou, por outras palavras, que o exercício do jornalismo era incompatível com a adesão a movimentos cívicos, partidos políticos ou correntes ideológicas.
Tenho sobre o tema uma opinião muito particular e estou relativamente livre de constrangimentos para dissecar a problemática. Não sou membro de nenhuma ONG associada ao Ambiente, não sou filiado em nenhum partido e não tenho participado recentemente em plataformas de defesa do Sabor, de ataque ao túnel do Marquês ou de contestação às centrais de co-incineração.
Juridicamente, a questão nem se coloca. Nenhum constrangimento profissional pode sobrepor-se ao exercício de cidadania, pelo que, antes de ser jornalista, um indivíduo é um cidadão que dispõe do direito livre à associação. Um direito que pode ser gozado sem reservas e que só pode ser condicionado pela consciência do próprio - não por imposição deontológica ou social.
Resta a esfera da deontologia. Será a objectividade jornalística compatível com a militância? Como se garante a imparcialidade nestas circunstâncias? A resposta a estas velhas questões encontra-se, a meu ver, na esfera individual, na percepção que cada um tem da profissão jornalística e das suas obrigações.
Frequentemente, os jornalistas de ronda (os beat reporters) assumem traços da área que cobrem com regularidade. É por isso normal que o jornalista que noticia a actividade criminosa adquira o jargão das suas fontes, os códigos de vestuário, os procedimentos metodológicos e até a sua própria forma de interpretação do mundo. O mesmo sucede com o jornalista que escreve sobre desporto ou com o repórter que se debruça sobre artes e espectáculos. O jornalista que se dedica diariamente à actividade do Parlamento partilha com as suas fontes a percepção de que a sua área deve ocupar o primeiro lugar na hierarquia temática do jornal. Paradoxalmente, o mesmo sucede com o repórter que se movimenta nos círculos económicos ou nas instâncias jurídicas. Criam-se campos opostos, dentro da própria estrutura do jornal, que reflectem as divisões da sociedade.
Todos estes jornalistas especializados são, por assim dizer, reflexos da área de actividade em que operam e das fontes com que contactam. O Ambiente não é naturalmente a execpção.
Julgo que podemos todos assumir que a maioria dos jornalistas que escolheram esta área de especialização defendem a prioridade da conservação da natureza, as soluções energéticas sustentáveis, a forte acção da sociedade civil nas discussões ambientais ou a concessão de maiores fatias do orçamento de Estado para o sector. Partilham assim muitas marcas ideológicas em comum com as forças que dominam o "lobby".
Naturalmente (e este é o verdadeiro equilíbrio instável), importa que a predisposição activista não tolde o julgamento, nem o razoável objectivo de equidistância colocado diariamente em prática sempre que lidamos com factos noticiosos.
No caso em questão, não creio, nem por um momento, que a minha leitura da ausência ministerial na conferência das Nações Unidas dedicada às alterações climáticas tenha sido moldada pela percepção ambientalista das ONG que comentaram o assunto. O ministro e/ou o secretário de Estado decidiram ficar em Lisboa agarrados a uma interpretação tacanha da noção de governo de gestão. Ficaram orgulhosamente sós. Foi pena...

Torres de Alcântara – Um estudo de caso

Os romanos diziam Ex digito, gigans – que é como quem diz pelo dedo se conhece o gigante. Tomando essa máxima à letra, os autarcas que gerem os destinos da cidade de Lisboa desde Dezembro de 2001 têm tentado afincadamente que a sua passagem pelo município se traduza em grandes obras, expressão tão oca como simbólica, traduzida pelo afã de construção civil e pelas inaugurações apressadas de novos símbolos de betão ou cimento.
Nas cidades pequenas, por escassez do erário público, os autarcas construem rotundas, muitas rotundas. Em Lisboa, onde o orçamento camarário é muitas vezes superior, chamam-se arquitectos de reputação invejável e projectam-se obras de estalo. A escala é diferente – o estilo é o mesmo.
Já escrevi atempadamente sobre o túnel do marquês de Pombal (ver "post" integral aqui)e sobre aquilo que me parece ser uma inutilidade para a cidade e para esta zona concreta do centro. Todavia, ainda não me tinha debruçado sobre as torres de Alcântara. Contextualizemos o leitor menos identificado com o projecto.
Em meados de 2002, Santana Lopes desvendou um projecto que rapidamente se tornou conhecido pelo nome popular de "torres do Siza". Concebido por Siza Vieira, o empreendimento inclui torres de 105 metros de altura nos terrenos da antiga fábrica de açúcar da Sidul e assenta na peregrina ideia de que o desrespeito pela volumetria da zona se justifica com construção em altura. Se se erguerem duas torres de 30 andares, com uma altura estimada superior à do tabuleiro da ponte 25 de Abril, dispensa-se a construção de muitos blocos de prédios de oito andares, que densificariam Alcântara e tornariam irrespirável a vida na freguesia! Argumento absurdo! Passámos portanto para um modelo civilizacional urbano, que defende a construção em altura para ganhar espaço para as zonas verdes.
De facto, o projecto contempla a criação de uma alameda perpendicular ao rio, dois hectares de espaços verdes e 2.250 lugares de estacionamento. Que diabo! O sacrifício de ter dois palitos gigantes junto ao rio até justifica que não se cumpra o Plano Director Municipal em Alcântara. Santana Lopes, então edil da cidade, considerou mesmo que ele enriquecia culturalmente a cidade. O autarca não esclareceu, porém, de que forma enigmática o projecto se tornaria uma mais valia cultural. Afinal de contas, fora da sua autoria o cartaz cretino afixado na zona no mês anterior ao anúncio do projecto: você nem sabe o que vai aqui acontecer! Ninguém imaginava, de facto.
Nos próximos meses, a cidadania dos lisboetas será colocada a teste. Os movimentos cívicos em torno da contestação ao túnel do Marquês conseguiram que o projecto fosse amplamente discutido nos media e salvaguardaram algumas garantias. Não se travou o empreendimento, mas, pelo menos, não se queimaram etapas fundamentais, como o estudo de impacte ambiental. No caso de Alcântara (e também no arranha-céus de Santos, também da autoria de uma celebridade, o inglês Norman Foster), a visibilidade do tema foi-se extinguindo de 2002 para cá. Sem grande convicção, foi avançando a ideia de um referendo, mas o actual presidente da Câmara Municipal de Lisboa já fez saber que será impensável pedir a opinião dos lisboetas antes de Julho, uma vez que um referendo tem forçosamente de se afastar das votações eleitorais para a Assembleia da República (Fevereiro) e para as autarquias (Outubro). E resta saber se ele será vinculativa ou meramente uma figura de consulta.
Entretanto, vagarosamente, o processo foi sendo aprovado nas várias instâncias. Não está ainda num ponto de não retorno, como o túnel do Marquês já estava à data da primeira providência cautelar de Sá Fernandes. Mas preocupa-me bastante que o Partido Socialista lisboeta não tenha ainda contestado a obra. Este mutismo poderá querer dizer que o vencedor das próximas autárquicas, qualquer que ele seja, dará luz verde a esta nova interpretação das violações aos PDM: são portanto um mal menor, que visa evitar os prédios de menores volumetrias e aumentar espaços verdes. O argumento seria a defesa do estatuto de excepção para um projecto urbanístico de interesse social e económico para a freguesia de implantação. Se o argumento colher, será um fartar vilanagem por esse país fora.
Há alguns anos, o município de Almada esteve perto de aprovar a chamada Manhattan de Cacilhas. Os cidadãos indignaram-se, os turistas apavoraram com a ideia de um gigantesco intruso à beira-rio, os jornalistas criticaram. Temerosos, os empreendedores recuaram. Livrámo-nos então dessa ideia peregrina. Mas algures na região de Lisboa a concepção fermentou e foi reciclada. Apresentadas por um nome respeitável da arquitectura, sob o manto da modernidade e da inovação, as torres de Alcântara serão, estou certo, um caso de estudo para Lisboa e outras cidades do país: a mobilização de cada um, a discussão pública, a capacidade de apresentar outras propostas e de rebater este modelo moldarão a beira-rio para o próximo século. A submissão às torres do Siza agora entreabre a porta para as torres que se seguirão.

quarta-feira, dezembro 15, 2004

Pegada grande de mais

Há minutos, visitei a página de Internet do Plano Municipal de Ambiente Almada 21. Em meros 30 segundos, é proposto ao visitante que teste o comprimento da sua pegada ecológica em quatro indicadores - alimentação, mobilidade e transportes, habitação, bens de consumo e serviços. Pretende-se ali estimar a quantidade de recursos necessária para produzir os bens e serviços que cada indivíduo consome, de forma a calcular a área natural necessária para alimentar esses hábitos de consumo.
Através de perguntas simples sobre hábitos quotidianos, o indivíduo bem intencionado (neste caso, eu) é chamado a discriminar como viaja para o emprego, que tipo de alimento consome, em que tipo de casa vive, que quantidade de resíduos produz e por aí adiante. Tenho-me como um cidadão razoavelmente informado e consciente. E, no entanto, depois de responder honestamente a quinze perguntas, o malfadado teste assegura que o valor total da minha pegada é superior ao da média portuguesa: 6,3 hectares globais por pessoa (a média nacional cifra-se em 4,5). Quer isto dizer que seriam necessários mais de seis campos de futebol de área produtiva apenas para suprir o meu consumo regular de bens e serviços. Ou, usando as palavras utilizadas pelo servidor almadense (parceiro local da Redefining Progress e da Earth Day Network), seriam necessários 3,5 planetas Terra para dar conta de uma população mundial que vivesse com o meu estilo de vida.
A iniciativa da pegada ecológica é um dos mais bem sucedidos programas pedagógicos de sensibilização ambiental. Visa alertar a sociedade civil para os limites da sustentabilidade e encontrar, ao nível dos comportamentos individuais, uma maior racionalização de consumos e hábitos. Assenta na noção de que a racionalização deve começar à escala individual, tendo em conta que cada indivíduo provoca impactes mensuráveis. Cada escolha tem custos. Se viajamos a pé ou de carro para o trabalho. Se vivemos numa casa grande ou pequena de mais para o agregado familiar. Como procedemos ao seu aquecimento? Que lixo produzimos? Com que frequência reciclamos? Diferentes abordagens a estas perguntas geram forçosamente níveis diferentes.
Tenho curiosidade por isso em perceber se foi apenas a minha pegada ecológica que transbordou ou se os meus hábitos de consumo estão alinhados com os da maioria da população urbana portuguesa (assumindo, como é natural, que o blog não chega, nem de perto nem de longe, a uma amostra representativa). Consulte a página portuguesa da iniciativa e, se assim o entender, partilhe o seu resultado nos comentários.
Siga para aqui.

Ainda o Euro'2004

Na semana passada, escrevi uma nota sobre a possibilidade de Lisboa se candidatar à organização de uma edição dos Jogos Olímpicos. Fui crítico - e ainda sou - da opção por considerá-la despesista, supérflua, oportunista e inadequada. Apresentei uma lista de argumentos, que ainda defendo, contrários a esta iniciativa. Entre eles, escrevi que seria absurdo lançarmo-nos numa empresa gigantesca antes de conhecermos o impacte real do Euro'2004 na economia portuguesa (Ver o "post" integral aqui).
Ontem, a sociedade Portugal 2004 SA apresentou o último relatório de contas relacionado com a organização da competição futebolística. Revelou que a prova custou 964,5 milhões de euros e o Estado pagou apenas 205 milhões. Quase todas as regiões que acolheram jogos registaram valores positivos de recuperação do investimento, através das receitas turísticas e do crescimento económico local. Foram mantidos 39 mil empregos. A produção aumentou. O Euro gerou 57 milhões de euros de impostos, e o rendimento salarial atingiu os 370 milhões de euros (socorro-me do "Diário de Notícias" para conferir os números apresentados).
Perante estes números reveladores, cabe-me naturalmente admitir que a organização da prova gerou de facto o crescimento económico prometido. Touché. Mantenho, porém, todos os outros argumentos contra a organização dos Jogos. Nem vejo como poderão ser rebatidos ou modificados durante a próxima década.

terça-feira, dezembro 14, 2004

Governo ou Estado - a confusão do costume

«Tempos há para usar de coruja.
E outros há para usar de falcão
" - D. João II

A Conferência das Nações Unidas dedicada às alterações climáticas estava programada há largos meses. Era a data mais importante do calendário internacional de política ambiental. Mais de sete dezenas de ministros do Ambiente encontraram tempo nas suas agendas e deslocaram-se a Buenos Aires (Argentina) para debater o problema e encontrar respostas globais, vinculativas e suprapartidárias. Portugal, infelizmente, renunciou à última hora.
Naturalmente, a primeira semana, dedicada à apresentação de projectos e de diagnósticos locais e aberta à participação de organizações não governamentais, foi concorrida e contou com representantes portugueses. A delegação nacional oficiosa interveio e mostrou trabalho, como aliás tem sucedido regularmente. Mas o prato forte do menu era o segmento ministerial que hoje começou e que se prolongará até sexta-feira. A presença ministerial portuguesa permitiria impor o tema nos jornais, rádios e televisões. Motivaria discussões e debates. Levaria ao conhecimento dos números oficiais e a eventuais correcções de previsões oficiosas. De vez em quando faz bem ao país discutir um pouco mais do que os golos anulados, as vedetas da Quinta das Celebridades e a passerelle do tribunal de Monsanto. Debalde. Sem os pesos-pesados governamentais em Buenos Aires, o tema será agora, estou certo, varrido para a obscuridade nos media nacionais.
Permitam-me alguma malícia: a ausência do ministro e/ou do secretário de Estado dever-se-á à recente demissão governamental ou terá ela sido um pretexto bem-vindo para evitar a participação num forum potencialmente inflamado e perigoso para o governo português? No fim de semana, a Quercus provocou o Ministério e lançou uma acusação muito concreta: Portugal já atingiu mais 50% de emissões de gases com efeito de estufa do que o valor registado em 1990 (o ano-charneira utilizado no Protocolo de Quioto para estipular crescimentos máximos de 27% até 2012). Desconheço o rigor da previsão, mas sei que ela não está alinhada com os números que a delegação oficial (agora dirigida pelo presidente do Instituto do Ambiente) vai mostrar em Buenos Aires.
Repito por isso a pergunta: esta demissão, tão pateta como inútil, do governo da nação foi um motivo ou foi um pretexto para a ausência de Nobre Guedes e Moreira da Silva? Leio os fundamentos que passam a reger o governo de gestão e não compreendo: o governo de gestão deve assegurar a manutenção dos compromissos entretanto assumidos. Deve por isso participar em reuniões de trabalho, que permitam traçar diagnósticos futuros e compatíveis com o trabalho realizado nos países vizinhos.
Ninguém pedia à delegação portuguesa que anunciasse em Buenos Aires a extensão do plano nacional de combate às alterações climáticas. Pedia-se, sim, a apresentação da posição portuguesa, das limitações e das conquistas entretanto vividas, uma vez que estamos sensivelmente a meio do prazo concedido pelo Protocolo. Pedia-se o alinhamento das restrições às emissões industriais com as normas europeias. Pedia-se a ampliação do quadro de incentivos às energias renováveis. E pedia-se o início, sempre adiado, da cooperação com a Comunidade de Países de Língua Portuguesa no âmbito das alterações climáticas - uma responsabilidade social que deve ser abraçada pelos próximos governos e que poderia ter sido abordada informalmente no quadro desta conferência sectorial.
Infelizmente, a leitura política foi outra. Nem coruja, nem falcão: os tempos que se seguirão (até às eleições de 20 de Fevereiro, certamente) serão marcados pelo comportamento pouco digno da hiena. É pena!

domingo, dezembro 12, 2004

O senhor que se segue

Na voragem que consumiu quatro ministros do Ambiente em dois anos de executivo da coligação PSD/PPD-CDS/PP e que ontem terminou com a demissão do governo, não foi fácil acompanhar pessoas e ideias, projectos e estratégias dos quatro homens que tutelaram a área. Consultando agora apontamentos e recortes destes dois anos, é possível traçar um comentário à acção dos quatro governantes. E quem diria? Dos quatro ministros que conhecemos, Luís Nobre Guedes, advogado, representante de interesses instalados em áreas protegidas, perfeito ignorante da temática ambiental e membro de um partido que dedica meia dúzia de linhas ao Ambiente no seu último programa, foi o mais capaz. Ou, por outras palavras, foi o menos mau.
Não foi claramente um daqueles ministros que deixa marcas na área que tutela (como Sócrates deixou) ou que fica ligado a reformas estruturais do sector (como Carlos Pimenta enquanto secretário de Estado). Mas, devo admiti-lo, defendeu a sua dama e travou ataques nestes quatro meses que poderiam ter tido consequências terríveis.
A fasquia, é preciso dizê-lo, não era alta. Isaltino de Morais tratou sempre o Ambiente como o indivíduo da anedota que fica amargurado porque, depois de herdar o património que ambicionava (as cidades e o ordenamento do território), herda também a obrigatoriedade de viver com a sogra (o Ambiente). Foi claramente a fava do bolo e nem sequer houve tempo para perceber como o ex-autarca de Oeiras iria descalçar a bota. A inesperada conta bancária suíça do sobrinho, que Isaltino desconhecia e depois conhecia, fez precocemente tombar o ministro. Porventura, ainda hoje Isaltino não sabe, nem suspeita, que planos queria cumprir na área do Ambiente. Há males que vêm por bem - sobretudo quando se revestem de chorudos 400 mil euros.
Seguiu-se Amílcar Theias. Deu sempre ideia de estar para o governo como a idosa da séria "Allô allô" estava para o planeamento da resistência francesa. Ou seja, estava a leste e com uma vaga ideia de que algures, lá fora, se travava uma guerra. Mesmo assim, admito que foi um sério concorrente ao prémio de melhor "gaffe" do executivo, quando alvitrou que os ex-combatentes da guerra colonial, que tinham granadas de mão em casa, estavam na lista dos possíveis pirómanos de Verão! Em abono de verdade, reconheça-se que tomou uma posição de força no caso da possível extinção do Instituto da Conservação da Natureza (ICN), em Outubro de 2003. Ganhou a batalha, mas perdeu o cargo.
Arlindo Cunha tomou então o lugar de Theias. Cunha deve ser um dos políticos mais amargurados de 2004. Trocou um lugar europeu por um cargo que não estava nos seus planos, não desejava, nem tinha especial vocação para ele. Semanas depois da sua tomada de posse, Durão Barroso aceitou o lugar europeu e partiu para a Bélgica com bilhete só de ida. Conta-se que no jantar em que Durão Barroso terá auscultado o seu elenco (mas que, na verdade, serviu apenas para comunicar a decisão já tomada), havia dois rostos com expressões impagáveis: o de Arlindo Cunha, petrificado com o que lhe acontecera; e o da esposa do PM, que se sentou ao lado dele e lhe foi perguntando onde podia comer em Bruxelas, o que devia visitar e o que devia levar vestido!
Entrou então Luís Nobre Guedes, já com Santana Lopes ao leme.
Ao contrário do que muitos disseram, considero que a sua intervenção na divulgação do relatório sobre o incêndio na refinaria da Galp não foi absurda. Nobre Guedes, à data, não sabia ainda que em política os relatórios só se divulgam quando não têm consequências nefastas para o executivo. Caso contrário, toma-se a decisão democrática de o remeter para o fundo da pilha de despachos! O ministro foi ingénuo, mas paradoxalmente tomou a decisão certa.
Na discussão do PN Arrábida e das construções ilegais, chegou a temer-se que o ministro fosse lançado borda fora. A sua própria casa no local foi avaliada e tornou-se difícil perceber por que motivo algumas residências seriam demolidas - e a do ministro não. A Arrábida terá sido o principal espinho nestes quatro meses de actividade.
Discretamente, mas com resultados positivos, o Ministério do Ambiente prosseguiu também a negociação relacionada com o comércio de emissões. O alinhamento com a média europeia neste capítulo e a pressão colocada sobre a indústria (que deverá manter-se nos próximos executivos) foram passos positivos. O apadrinhamento do plano nacional de alterações climáticas e a sua ampla divulgação na imprensa transmitiram sinais de que, finalmente, havia um plano de acção no Ministério.
Destaco por fim o empenho em travar a revisão da REN e da RAN, que as colocaria debaixo da alçada autárquica. No caos em que vivemos no último mês, a modificação jurídica das duas reservas teria passado em claro. Temo, porém, que o processo venha a ser reabilitado nos próximos tempos, tamanho é o apetite dos autarcas.
Houve, claro, passos em falso. As polémicas com Barreto não enobreceram Guedes. As áreas protegidas sem planos de ordenamento ainda são maioritárias. O ICN viu o orçamento entretanto reduzido (pela terceira vez consecutiva) e foi humilhado com a divulgação de problemas graves de tesouraria. A nomeação da actual direcção foi mesmo ensombrada por uma recusa de última hora, mal explicada e mau augúrio para a casa. Apesar disso, Guedes superou o exame. Com dez valores, mas superou.
Em Fevereiro, haverá portanto eleições e teremos novo ministro. Se me é permitido expressar um desejo: que o senhor que se segue consiga governar durante toda a legislatura. Já não seria mau.

sábado, dezembro 11, 2004

Já reparou que cada vez mais carros são engolidos pelo solo em Lisboa?

Poderia ser o conteúdo de um daqueles cartazes irritantes que, durante dois anos, foram impressos em Lisboa pelo autarca promovido a primeiro-ministro. Desconfio, porém, que este não será mostrado. Apesar disso, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) está de facto a acompanhar a gravidade da situação e a dotar-se de instrumentos de análise. É um bom sinal. Mesmo sem cartazes.
A principal (se calhar, a única) vantagem de ter um reputado engenheiro hidráulico como presidente substituto da Câmara Municipal de Lisboa parece ser, de facto, a campanha entretanto desenvolvida para a elaboração do primeiro plano geral de drenagem da cidade.
Ao abrigo desta iniciativa, a CML instalou quatro medidores do caudal do sistema de saneamento da baixa. Inovadores, apresentam em tempo real flutuações significativas e permitem gerir melhor o sistema de saneamento da cidade. Vão monitorizar diariamente o nível dos esgotos e das águas pluviais desta zona histórica , fornecendo dados que permitam antecipar as intervenções de recuperação. Até aqui, na baixa lisboeta, os serviços municipais têm actuado como bombeiros, apagando os fogos que entretanto vão deflagrando, mas sem capacidade de prever onde surgirá o próximo.
A iniciativa é louvável, mas trata-se apenas de um primeiro passo na tentativa de compreender a natureza e evolução do subsolo dos bairros lisboetas mais próximos do rio Tejo.
Desde as primeiras crateras (na baixa e fora dela) que os lisboetas mostraram preocupação com a Lisboa subterrânea, com os desabamentos regulares na baixa pombalina, com as fissuras nas casas velhas, com os buracos gigantes que engolem veículos. À boca cheia, peritos e leigos comentam que as caves de betão entretanto construídas na baixa pombalina, os parques de estacionamento subterrâneo, até mesmo o túnel de metro do Rossio interferiram com o caudal das ribeiras subterrâneas da zona nobre da cidade. Verdadeiramente, ninguém sabe se estas preocupações têm motivos fundamentados. Mas quem vive ou trabalha na baixa sente o receio nos comerciantes e nos residentes.
Há cerca de um ano, quando uma cratera engoliu positivamente um autocarro no espaço de vinte minutos em Campolide, o arquitecto Gonçalo Ribeiro Telles, homem suficientemente apolítico para não ser tomado como parcial, alertou para o risco motivado pelo encanamento de águas pluviais e para os deficientes canais de escoamento que a Lisboa ribeirinha, cada vez mais assente em betão, proporciona. As construções entretanto autorizadas (indistintamente pelos partidos de esquerda e direita que governaram a câmara de Lisboa nos últimos vinte anos) afectaram também a ciculação de águas subterrâneas, provocando abatimentos e modificando irremediavelmente os sistemas de drenagem naturais.
Enquanto a cidade se prepara para marcar os 250 anos do terramoto de 1755 e se fala de uma possível candidatura a património mundial da UNESCO, seria positivo que Carmona Rodrigues disponibilizasse estes primeiros dados sobre a flutação de caudais subterrâneos. Desconheço se a CML pretende divulgá-los diariamente (como o faz por exemplo o Instituto do Ambiente com os dados da qualidade do ar), mas seria uma forma (a única, talvez) de começarmos a saber o que se passa por baixo dos nossos pés.