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sábado, agosto 25, 2018

O Bairro dos Jornais, de Paulo Martins


Diz-se dos faróis que têm a tremenda capacidade de iluminar a escuridão, lançando um foco de luz em todas as direcções, menos numa –  a dos seus próprios alicerces. De alguma maneira, esse é também o crime acumulado dos trabalhos já produzidos sobre a história do jornalismo português: concentram-se nos constrangimentos e na memória, nos méritos e fraquezas da prática jornalística, mas, até à publicação de O Bairro dos Jornais, poucos tinham ainda colocado o território de implantação dos jornais lisboetas como objecto de análise. Paulo Martins demonstra em 429 páginas que esse caminho estava não só por trilhar, como abria horizontes promissores.
O Bairro Alto, lembra Appio Sottomayor num prefácio caloroso, será porventura o único aglomerado lisboeta que se pode gabar de possuir uma certidão de idade. Sabe-se com precisão que tem 505 anos – nem um a mais, nem um a menos. Por ali passaram escritores e políticos, marialvas e actores, personagens respeitáveis e gente indecorosa. É, de certa forma, uma pequena cidade dentro da cidade, com regras e códigos próprios. Durante cento e oitenta anos, entre a década de 1830 e a actualidade, ergueram-se ali catedrais de papel e tinta, jornais bem sucedidos ou fracassados, sonhos concretizados e pesadelos inesquecíveis.
Fruto de uma recolha rigorosa, Paulo Martins mapeou as ruas do Bairro Alto e do Chiado (concessão geográfica que se percebe dadas as fronteiras difusas entre ambos e também o facto de algumas redacções saltitarem de um para o outro) em busca dos jornais que ali se instalaram. A lista é exaustiva e o trabalho de reconstituição da arqueologia dos jornais de Lisboa é digno dos maiores elogios. Nunca tal levantamento se fizera. A obra de Mário Matos e Lemos (Jornais Diários Portugueses do Século XX, Ariadne, 2006) raspou a superfície e produziu um primeiro censo. Paulo Martins completou agora essa recolha, com uma impressionante base de dados de nascimentos e óbitos periodísticos.
O Bairro dos Jornais é uma história do jornalismo de Lisboa, sem pretensões a assumir a configuração de a história. Caminha rua a rua, tropeçando em fantasmas do passado. Percorre edifícios palacianos convertidos em redacções e tipografias e dialoga com nomes há muito esquecidos. À boleia do livro, quase escutamos os ardinas da Guarda Avançada, o primeiro jornal apregoado e vendido pelas ruas de Lisboa. Capítulo a capítulo, mergulhamos nas tipografias, forjas de reivindicações sociais e verdadeiro coração da era das rotativas. Tão depressa nos emocionamos com o drama dos suicídios dos antigos trabalhadores de O Século e da República, subitamente privados de salários e atirados para a pobreza extrema pelo fecho dos seus títulos, como sorrimos, imaginando Rodrigues Sampaio, batendo-se em duelo de pistola com Santana de Vasconcelos, comendo biscoitos com displicência e disparando a mastigar.
Em O Bairro dos Jornais, há um equilíbrio difícil de manter entre a historiografia clássica e a anedota que aligeira o tom, mas ajuda a transmitir a mensagem. Mais do que num gráfico de barras ou num relatório financeiro, Paulo Martins conta que o verdadeiro sintoma da doença de um jornal emergente era o momento em que os ardinas começavam a chamar-lhe manteiga. Era certo que já ninguém lhe tocava. Que jornais modernos mereceriam hoje tal tratamento?
Numa história com quase dois séculos, consumiram-se sonhos e ousadias de várias gerações de jornalistas. Sucederam-se regimes. Travaram-se pactos de amizade imorredoura e geraram-se inimizades viscerais. Censura e polícia política conviveram nas mesmas ruas das redacções. Paredes escondiam ouvidos indiscretos e forçavam cochichos. E as revoluções, claro, avançaram amiúde pelas portas de entrada dos periódicos, destruindo-os com a força criativa de uma erupção vulcânica. Quantos jornais republicanos e monárquicos destruídos pelas hordas cegas! Quantas balas disparadas à porta de O Século e de O Mundo!
Meticuloso e consultando uma variedade de arquivos que fortalecem os alicerces do trabalho agora publicado, Paulo Martins traz também à liça informações e documentos inéditos ou poucas vezes contados. Revela por exemplo o papel de A Imprensa da Manhã no incitamento da matança de Outubro de 1921, conspirando, corroendo, instigando. No centro da crise que tomará a vida de Machado dos Santos e António Granja, está Esculápio, o jornalista que a posteridade teima em reconhecer apenas pela boémia e gazetilhas. Nas páginas do livro, desvenda-se também que a proclamação do general Gomes da Costa no golpe militar de 1926 teve a impressão digital de um homem dos jornais, Manuel Múrias, que fará depois carreira nos jornais da Situação. É igualmente pela pena de Paulo Martins que se conhece pela primeira vez uma denúncia dirigida ao próprio Oliveira Salazar, informando-o que os novos proprietários do Diário Popular (em 1954/55) resolveram uma disputa entre accionistas de revólver em punho!
Permita o leitor uma última nota impertinente: nesta Lisboa em convulsão turística, repleta de visitantes cativados pelos cheiros e cores da velha capital, não haverá ninguém na Câmara Municipal de Lisboa que utilize a matéria-prima documental agora publicada e crie um roteiro, um verdadeiro roteiro, do que foram os jornais no bairro dos sonhos?


Recensão publicada na revista Jornalismo e Jornalistas, 67, Julho/Setembro 2018, pp 64-65

domingo, março 25, 2018

A voz que sussurrava


Já me disseram que as recensões aqui vertidas são por vezes ríspidas. Há um fundo de verdade nisso sobretudo quando escrevo sobre obras que poderiam mostrar-se mais cuidadas e rigorosas. Façam-me a justiça de reconhecer, porém, que raramente há maldade.
1968-1969. A Voz de uma Geração. A Capital. Memórias de um Tempo (Âncora, 2018) é uma obra coordenada pela jornalista Edite Esteves sobre um biénio muito especial para uma geração de jornalistas e universitários. É, em primeiro lugar, um acto de amor e de saudade por um jornal já extinto (em 2005) e, como todos os actos póstumos de amor, tende a sobrevalorizar os instantes carinhosos da vida da pessoa/instituição amada, empurrando para o canto mais escuro os vícios e fraquezas. É da natureza humana.
Começo com uma historieta para sublinhar o meu ponto de vista, recurso inábil do cronista para desviar a atenção. Em Alexandra Alpha, romance notável de José Cardoso Pires (1987), conta-se a certo ponto a história de Waldir, amante carioca da personagem principal. Figura clandestina, com uma aura romântica de guerrilheiro, é certo dia abatido da pior forma: enquanto plana de asa delta sobre Ipanema, é confundido com uma ave de rapina. Não é morte digna de guerrilheiro e a imprensa que lhe é afecta imagina todo o tipo de versões para vestir com o apropriado dramatismo o que foi, na verdade, um acto fortuito do acaso. Perdoe-me a autora, mas foi essa a imagem que me guiou durante a leitura da obra sobre A Capital.


Constituída por um prefácio admirável de Luís Almeida Martins, algumas notas introdutórias e pela republicação do excelente trabalho que o jornal conduzira em 2003 durante as comemorações do 35.º aniversário da refundação do periódico, a obra é percorrida por uma ideia central. Edite Esteves e a maioria dos restantes autores procuram estabelecer uma relação directa entre o espírito da segunda série de A Capital e a geração que, no final da década de 1960, contesta a guerra colonial, manifesta-se contra a guerra do Vietname e a Primavera de Praga, vive o Maio de 1968 e integra as fileiras das greves universitárias de Coimbra e Lisboa de 1969.
A Capital, recorde-se, fora um produto da Primeira República, fundada por Manuel Guimarães em 1910 – figura injustamente esquecida nesta evocação que teima em sobrerepresentar o papel de Hermano Neves, grande repórter de facto, mas de forma alguma o motor do jornal. Extinta em 1926 por incapacidade de combate à ditadura militar, permanece no limbo até 1968. O título pertence à família Covões, que o mantém por quatro décadas, garantindo as exigências pedidas pela lei e, a partir de 1952, retoma o projecto como folheto de promoção das actividades do Coliseu. Em 1968 (ver documento do fundo do SNI sobre A Capital), aceita cedê-lo a Norberto Lopes e Mário Neves que formam uma nova sociedade editora (Cf. a este propósito também o processo do arquivo PIDE sobre Norberto Lopes).
Secretariado Nacional de Informação, 12 de Março de 1968
(Arquivo Nacional da Torre do Tombo)

Note-se, no entanto, que nem Norberto Lopes, nem Mário Neves (nem Carlos Ferrão, nem Maurício de Oliveira, nem Fernando Soromenho…) refundam o vespertino sob a bandeira trémula dos ventos da liberdade. Carlos Ferrão assinará até, entre Maio e Junho de 1968, comentários mais reaccionários sobre o Maio de 1968 em França do que os colunistas do Diário de Notícias ou de O Século. Como o planador Waldir imaginado por Cardoso Pires, a verdade parece mais crua e arbitrária – os demissionários do Diário de Lisboa saem no final de 1967 por desavenças com Ruella Ramos e Lopes Souto relativamente ao rumo do jornal e à decisão de o imprimir em offset. Do arrufo, sai uma cisão. A cisão alimentará novo título, criado em primeiro lugar para derrotar o Lisboa. São assim os homens e histórias idênticas percorrem o século XX (os demissionários de O Século fundam O Diário; demissionários do Diário de Notícias estão na génese do Diário Popular; antigos jornalistas do Expresso passam para as fileiras do Público e sai igualmente do Expresso a faúlha fundadora do Sol).
Não se nega, de forma alguma, o carácter inovador dos jornalistas que constituíram a redacção de A Capital. De Rodolfo Iriarte a Manuel Beça Múrias, de Daniel Ricardo a Edite Esteves e a António Valdemar, passaram pelo periódico jornalistas de aço inoxidável (expressão de Valdemar), gente de fibra e consciência social. Gente que, com honrosas excepções, passara pelos bancos da faculdade e ganhara bagagem intelectual, como nota Luís Almeida Martins no prefácio, sobretudo em comparação com os outros, os alienados. Mas contesta-se veementemente que tenha sido caso único. O mesmo processo foi documentado por Fernando Correia e Carla Baptista (Jornalistas, do Ofício à Profissão, 2007), no Diário Popular, no Diário de Lisboa, na Flama, no próprio República. O holofote de A Capital foi ligado em Fevereiro de 1968, mas integrou-se numa linha costeira de faróis que, a custo, já projectava a luz possível. E que, por cruel que possa parecer, vista à distância, não seria mais do que um borrão de luz num regime que duraria mais seis longos anos.
O prefácio de Luís Almeida Martins é um documento precioso. Testemunho digno, humano e quente, permite-nos entrar no velho edifício do jornal como num documentário, escrutinando vozes e diálogos. Pelas janelas, entra frio. Das portas fechadas, escutam-se gritos. E nomes há muito esquecidos ganham cor e textura, recuperam vida e complexidade.
Com Appio Sottomayor, recolhemos algumas anedotas imprecisas (já lá iremos…), mas testemunhas de um ritmo e fraternidade próprios numa equipa que vestia a camisola do jornal. António Valdemar conta, no seu jeito característico, a saga das três noticias que teve de escrever sobre a morte de Salazar, lembrando que já Raul Brandão, em Húmus, recomendava que se matasse segunda vez os mortos para garantir o desfecho final. António Borges Coelho, numa entrevista imperdível, recupera o espanto dos guardas do Forte de Peniche, onde estivera detido, quando o avistam ao lado de Américo Tomaz em serviço para A Capital. São essas as histórias que humanizam os maços bolorentos das colecções dos jornais depois do último suspiro. É esse o espírito encapsulado do jornal. A nota final de Edite Esteves, publicada originalmente na última edição do jornal em 2005, é um documento comovente e a prova de que, embora feitos de papel e tinta, os jornais têm, como as guitarras de Carlos Paredes, «gente lá dentro».
Pequenos erros de edição não retiram mérito ao projecto. Não é Roby de Andrade na página 48 (é Roby de Amorim), nem Armando Neves na pg. 143 (é Hermano Neves). O jornal no qual Fialho de Oliveira foi integrado em 1979 não foi A Tarde de Nuno Rocha (pg. 179) – foi O Tempo. Appio conta que a notícia adulterada sobre a refeição de Salazar no Hospital da Cruz Vermelha foi publicada com escândalo no jornal (pg. 69-70) – não foi, como me contou Daniel Ricardo e as colecções do jornais certificam. Foi apanhada à boca da máquina na tipografia antes da impressão (Cf. Parem as Máquinas!, Lisboa, Parsifal, 2015).
Não subscrevo igualmente a ideia de Alberto Martins de que a entrada em campo da equipa da Associação Académica de Coimbra (AAC) na final da Taça de Portugal em 1969 «foi a primeira manifestação política em Portugal num estádio» (pg. 96). Vale a pena lembrar por exemplo que, 32 anos antes, num Portugal-Espanha, os jogadores Amaro, Simões e Quaresma não fizeram a saudação fascista e foram por isso punidos. Quanto à entrevista que José Carlos Vasconcelos fez a Alberto Martins, então presidente da Associação de Estudantes da AAC, para o Diário de Lisboa parece-me que há um certo exagero retórico. Conta o livro que a entrevista encriptada sobre futebol dava, na verdade, para ser lida como um comentário sobre a situação dos estudantes em Coimbra. Bom... A peça em causa foi publicada no dia 21 de Junho de 1969 e tem três perguntas. As respostas são, de facto, sobre futebol [ver recorte em baixo].
 
Diário de Lisboa, 21 de Junho de 1969
(a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)
É precisa alguma imaginação para ver ali mais do que o conteúdo explícito, com excepção talvez do título. Não há qualquer paralelismo com outro texto críptico famoso, esse sim, passível de leituras adicionais – a crónica de um Sporting-FC Porto no República de 18 de Março de 1974, logo após o fracasso do golpe das Caldas, disfarçado como um apelo à calma por parte dos futuros revoltosos.

Queixo-me com frequência que não há tradição memorialística entre os vultos das artes e letras portugueses. 1968-1969. A Voz de uma Geração. A Capital. Memórias de um Tempo é um passo nesse sentido – uma carta de amor a um jornal perdido, uma mensagem numa garrafa lançada no oceano dos títulos fechados. É bem verdade que os jornais são como os entes queridos: permanecem na memória e nas fotografias das estantes até ao último suspiro do derradeiro familiar que os viu vivos.

sexta-feira, setembro 08, 2017

Notas soltas sobre a biografia do ano


Declaração de interesses: dá-se o caso de conhecer biógrafo e biografado da obra que pretendo recensear. A ambos devo algumas gentilezas. Dá-se ainda o caso de a obra sair com a mesma chancela que editou o meu último livro, tendo sido trabalhada por gente de quem muito gosto. Há portanto aqui um gigantesco conflito de interesses, à portuguesa. Mas cá vão, mesmo assim, as minhas impressões, sujeitas ao escrutínio de quem me lê.

Uma biografia não autorizada retira sobre o autor o espartilho que o biografado certamente gostaria de colocar sobre a obra da sua vida. Mesmo um jornalista liberal como Francisco Pinto Balsemão tem compreensíveis reservas sobre as áreas da sua vida que deveriam ser preservadas e seguramente que o patrão da Impresa não subscreve todas as páginas de Francisco Pinto Balsemão (Planeta, 2017), o livro que Joaquim Vieira agora publicou.
É inegável, porém, que o biografado colaborou parcial ou integralmente na obra, fornecendo acesso a arquivos restritos e fotografias. Os processos PIDE em seu nome na Torre do Tombo foram consultados com autorização do visado – confirmei-o no próprio ANTT. A troca de SMS em Agosto de 2015 entre Balsemão e Nuno Vasconcellos, nos quais o patrão da Ongoing se desculpa perante o tio afectivo (pg. 549) só podem ter partido de uma pessoa. Deixemos portanto cair a postura de virgem ofendida e avaliemos o livro pelo padrão pelo qual ele deve ser julgado – a biografia tolerada da personagem mais complexa do jornalismo português de 1963 ao ano da graça de 2017.
Não quer isto dizer que os capítulos mais íntimos não provoquem estranheza, para não dizer repulsa ocasional. A biografia entra a fundo, de catana na mão, nos amores e desamores do biografado, explorando com minúcia a vida de terceiros, expondo, remexendo feridas velhas até elas soltarem pus. Nas suas primeiras memórias (Confissões de um Director de Jornal, Dom Quixote, 2003, pg. 159), José António Saraiva diz de Joaquim Vieira que se trata de «um enigma. Não é um homem frontal – mas, ao mesmo tempo, é capaz de dizer as coisas mais terríveis a uma pessoa e fazer as perguntas mais embaraçosas como se perguntasse: ‘Toma café?’.» Esta biografia comprova que Vieira retira também um certo gozo disso e algumas passagens (como o trecho sobre os meles no sofá do Expresso ou a opinião em segunda mão sobre a devoção do patrão às pernas das senhoras (pg. 41)) são supérfluas, para não dizer grosseiras.
A biografia, porém, não se encerra nisso, como a recensão apressada (e triste) de Rosa Pedroso Lima parece sugerir. Aliás, percebe-se na segunda metade da obra que as zonas nevrálgicas dos divórcios e do processo de paternidade jogarão um papel importante em decisões políticas futuras de Balsemão, que terá até receado o uso destes processos contra si caso avançasse para uma candidatura presidencial. Só por isso estão justificadas. Como Saraiva também escreveu: «Vieira assume-se como um missionário da informação. Nunca recusou qualquer serviço, mesmo arriscado» (opus cit, ibidem)
Vieira escavou até às profundezas da Terra para obter informação. Explorou arquivos menosprezados e decantou-os como um alquimista veterano, embora lhe falte algum critério na selecção da pertinência da informação. Não é particularmente útil apurar se o aluno de liceu Balsemão poliu o seu registo académico para efeitos propagandísticos, mas Vieira explora  o tema com deleite.
Fiel ao legado da sua carreira, falou com toda a gente (todos mesmo, repito, com as excepções ruidosas de Marcelo e Cavaco). Articula os depoimentos com mestria, cruzando-os com documentos e outros textos de época. Explora contradições, obtém panorâmicas detalhadas. A par de Cunhal e Soares, Balsemão torna-se, com esta obra, uma das personalidades políticas do século XX em Portugal mais bem estudadas e isso não é um elogio menor.
Os episódios de fundação da AD em 1974, da criação do Expresso um ano antes ou os meses de governo pós-Camarate são reconstituídos até ao mais ínfimo pormenor e constituem versões inatacáveis desses momentos históricos, até porque reúnem, pela primeira vez, os contributos de quase todos os agentes políticos envolvidos. O livro, terá a Rosa paciência, torna-se a fonte de referência do futuro sobre a história do Expresso, da AD até 1983 e do governo português de 1980 a 1983 – curiosamente, a fundação da SIC, embora narrada com o mesmo ritmo e profusão de fontes, dá saltos temporais pouco compreensíveis.
Há testemunhos irrepetíveis como os de Miguel Veiga e Baptista-Bastos (entretanto falecidos) ou de Ramalho Eanes (que quase nunca abre excepções para comentar o seu percurso) e conversas francas (mesmo francas) com Freitas, Mota Amaral, Santana Lopes ou José Alfaia.
Como seria de esperar, há testemunhos de personalidades reconciliadas com a vida – o fair-play de Saraiva, depois de tantos livros de alfinetadas, fica-lhe bem, tal como é muito curioso ouvir agora Ângelo Correia ou Freitas do Amaral admitirem as repercussões duradouras das medidas tomadas pelo governo de Balsemão. Em contrapartida, há gente que faz pouco esforço para esconder afrontas (reais ou imaginadas) com 30 anos.
Confesso que esperava o registo ressentido de Vicente Jorge Silva, mas não estava à espera de tanto fel (v. pg. 84, 245-247, 307-398). Não fica bem, não se engole nem bate certo com o que se sabe da biografia de ambos. Mais do que Marcelo, Vicente parece obcecado em matar o pai que lhe deu a mão no Diário Popular quando o Comércio do Funchal foi travado.
Mesmo com a pesquisa exaustiva de Vieira, há falhas e problemas insolúveis no trabalho. Ao abordar fases em que foi igualmente actor (como director-adjunto do Expresso, como possível director da informação da SIC ou no peculiar episódio que levou à sua saída do Expresso), o historiador tem dificuldade em emergir e separar-se do actor. Um dos diálogos com Saraiva deixa até transparecer o desconforto de colocar frente a frente o director que sugeriu à administração a demissão do adjunto («tu depois tiveste aquela coisa de acrescentar», diz-lhe Saraiva com notório desconforto, na pg. 465). E nós, leitores, assistimos.
Em episódios pontuais, Vieira (escrupulosamente meticuloso na referência das fontes) deixa igualmente no ar insinuações incomportáveis, como no depoimento de Alexandre Patrício Gouveia sobre Camarate, que faz um ataque virulento ao patrão da Impresa («a hipótese teórica é que o Balsemão, no dia do atentado, já sabia que estava em preparação a operação da CIA», pg. 460). Na crise da Impresa de 2008 a 2012 e no choque com a Ongoing em 2014 e 2015, abundam fontes anónimas – compreensíveis, naturalmente, mas que dificultam o apuramento da validade de cada afirmação.
Embora poucos, há erros factuais na biografia, sobretudo no capítulo sobre o Diário Popular, porventura o menos bem sucedido. Ignora-se o processo de fundação do jornal em 1942, fortemente apoiado por Caetano apesar das reticências de Salazar (ver a esse propósito Salazar-Caetano, Cartas Secretas 1932-1968, 1993, pg. 145, 154-159, 187, 219, 280-282), bem como a tentativa de assimilação pelo Diário de Notícias uma década depois, que levará um membro da nova administração a entrar nas instalações do jornal de pistola na mão. E, para minha tristeza, subestima-se o papel de Brás Medeiros, um dos dois pilares da evolução que levará o jornal aos píncaros no final da década de sessenta e ao recorde mítico de tiragens na imprensa portuguesa.
A participação de Balsemão no jornal não foi vendida na «Primavera de 1971» (pg. 121), mas sim em 2 de Fevereiro e noticiada dois dias depois. Aliás, no dia em que a notícia dos novos corpos sociais da Sociedade Industrial de Imprensa vê a luz, Balsemão já partira em viagem para Macau para desanuviar a mente.
Não é igualmente verdade (e aí o erro parte do testemunho de Maria Antónia Palla, pg. 79) que Palla, Margarida Silva Dias e Maria Armanda Passos tenham sido directamente admitidas no âmbito do concurso organizado em Abril e Maio de 1966 pelo administrador para contratar jornalistas. Como escreveram Fernando Correia e Carla Baptista em obra negligenciada pelo autor (Jornalistas: Do Ofício à Profissão, 2006, pg. 411-415), o concurso levou à admissão dos quatro primeiros classificados — Botelho Tomé, José Manuel Teixeira, Silas de Oliveira e Fernando Correia – prevendo-se que, mais tarde «os seguintes melhores classificados pudessem também, eventualmente, vir a ser convidados.» Como sucederia nos anos seguintes.
Por fim, não é igualmente verdade que Mário Bento Soares tenha sido o primeiro chefe civil da censura (pg. 189). José Fernando Quesado Pastor, Eduardo Homem, Guilherme Lourenço Pinheiro, António Neves Martinha e Rui Alvim precederam-no, como Joaquim Cardoso Gomes (Os Censores do 25 de Abril: o Pessoal Político da Censura à Imprensa, Jornalismo e Jornalistas, 57, pg. 21) já documentou.

Francisco Pinto Balsemão é um livro que, em reflexão e passada a fúria, o patrão da Impresa talvez subscreva. Faz-lhe justiça e humaniza-o. Sem coroas de louros ou auréolas santas. Só como um homem.

sexta-feira, agosto 25, 2017

domingo, agosto 13, 2017

A filha do fundador do Diário de Notícias


Pela mão do António José Massano, velho amigo e sumo pontífice da revisão literária, chegou-me este livrinho de Manuela Gonzaga que me passara despercebido. Foi editado em 2009 pela Bertrand e corresponde à investigação da autora sobre um caso que agitou a sociedade portuguesa entre 1918 e 1921 – a fuga de casa de Maria Adelaide Coelho da Cunha, filha de Eduardo Coelho e afilhada do Conde de São Marçal, fundadores do Diário de Notícias.
A história de fundo é relativamente conhecida. Num dia de Novembro de 1918, Maria Adelaide saiu do Palácio de São Vicente, na Graça, apanhou um comboio e desapareceu da vida do marido e do filho. O marido era Alfredo da Cunha, director e co-proprietário (com a mulher) do DN. Demorou pouco a saber-se no palácio residencial que a senhora fugira com Manuel Claro, motorista despedido pouco antes, numa ruptura violenta dos costumes da época.
A investigação de Manuela Gonzaga procura o rasto de Maria Adelaide desde a sua fuga para Santa Comba Dão à perseguição movida pelo marido, que a mandou prender sob acusação de demência. Durante oito meses, com uma fuga pelo meio, Maria Adelaide esteve internada no Hospital Conde Ferreira, no Porto, destino infeliz para alienados e sãos sem que qualquer sentença judicial fosse emitida em muitos casos. No caso de Maria Adelaide, bastou apenas o testemunho – comprado – de três eminências judiciais da época, Júlio de Matos, Egas Moniz e Sobral Cid.
Doida Não e Não! é um livro delicioso sobre a percepção da doença mental em Portugal e a facilidade com que as senhoras de boas famílias poderiam ser internadas sempre que existisse consenso na família sobre a natureza da sua loucura, muitas vezes traduzida apenas em amores implausíveis.
Gonzaga dispôs de acesso sem precedentes ao arquivo epistolar do Palácio de São Vicente e, com esse espólio, reconstruiu toda a argumentação judicial de Alfredo da Cunha e a campanha que este moveria a favor da sua causa nos meios disponíveis na época.
Na década de 1990, foi argumentado por Teresa Rebelo que a acusação de demência foi formulada sob um pano de fundo mais vasto, no qual Alfredo da Cunha tentava vender (e conseguiu) o jornal da família da mulher à Companhia de Moagem, apesar da oposição de Maria Adelaide. Rebelo argumentou igualmente que o jornal era desde 1904 um caldeirão de fervores revolucionários, que preocupava Alfredo da Cunha, o director que – sem favores – salvara o jornal da ruína após a morte de Eduardo Coelho. Sobre esses temas, o livro de Manuela Gonzaga adianta pouco, embora sirva para rebater claramente o livro tonto que Agustina Bessa Luís publicou em 2005, romanceando o caso, inventando homossexualidades à medida das conveniências. Mas é pela reconstituição completa de eventos, personalidades e actos que este livro dever ser julgado.
Por motivos óbvios, interessaram-me sobremaneira as passagens sobre a ajuda que os jornalistas Acúrcio Pereira e Augusto de Castro no «novo DN» prestaram ao anterior proprietário, ajudando a condicionar a opinião pública em seu favor. E, como qualquer outro leitor, fiquei abismado quando li que Maria Adelaide só obteve o levantamento da interdição que pendia sobre si em 1944, já após a morte do ex-marido e por especial consentimento do filho. Era então septuagenária e vivera quase quarenta anos com o motorista que um dia a ajudou a fugir do Palácio de São Vicente.
Haverá sempre questões por responder nesta história escandalosa – por que motivo A Capital, que se disponibilizou em 1920 para publicar as cartas da esposa foragida, subitamente interrompeu o apoio à sua causa? Estariam mesmo Júlio de Matos, Sobral Cid e Egas Moniz convencidos de que a menopausa provoca com frequência a demência nas senhoras ou foram simplesmente pagos pelo poderoso Alfredo da Cunha? E mais interessante ainda: quando esteve detida no Conde Ferreira, Maria Adelaide encontrou forma de comunicar com Manuel Claro através de anúncios encriptados de O Primeiro de Janeiro, tal como Álvaro Cunhal fará em 1949. Aparecerão um dia as provas dessa correspondência?


Gonzaga, Manuela. Maria Adelaide Coelho da Cunha: Doida Não e Não! Lisboa, Bertrand: 2009.