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quinta-feira, janeiro 05, 2017

Como Vasco Granja desvendou parcialmente um mistério de Blake e Mortimer

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
De férias nos Açores, destino turístico recém-descoberto pela burguesia europeia após os horrores da Segunda Guerra Mundial, o professor Mortimer faz uma descoberta espantosa: no Foro do Diabo, um pequeno golfo na zona das Sete Cidades (ilha de São Miguel), detecta um metal desconhecido com propriedades radioactivas invulgares. Convoca de imediato o seu amigo, o capitão Blake, e juntos, penetrando numa caverna vulcânica micaelense, desvendarão o segredo da civilização Atlântida, resguardada na tranquilidade dos Açores – desfecho, aliás, que uma legião de maluquinhos continua a tentar impingir-me semanalmente na revista onde trabalho.
A aventura açoriana está repleta de pormenores e descrições plausíveis, embora, aqui e acolá, a ficção ganhe terreno ao realismo. Mortimer aterra no aeroporto civil de Sant'ana, perto de Rabo de Peixe – um aeródromo militar muito útil durante a guerra de 1939-45, depois transformado em porta de entrada na ilha para a aviação civil, assim se mantendo até à construção do novo aeroporto, perto da Relva, em 1969. 
O aventureiro instala-se numa Quinta do Pico, propriedade apalaçada que só existiu na imaginação do autor. Concebido perto da Povoação, nunca tal edifício existiu na ilha, mas, em 1984, Claude le Gallo, um dos biógrafos da personagem da nossa história, descobriu que a inspiração fora colhida nas páginas da National Geographic (número de Abril de 1955): a Quinta do Pico é, afinal, uma cópia da Residência Mansfield, no estado de Ohio (EUA). 

Em cima, a fotografia publicada na edição de Abril de 1955 da National Geographic (Residência Mansfield).
Em baixo, vinheta da "Quinta do Pico", onde estava alojado Mortimer (Público/ASA). A primeira inspirou o autor.

O inexistente jornal A Mundial. (Público/ASA)

       O roubo perpetrado nessa propriedade é depois noticiado num periódico inexistente – A Mundial – e lido por dois cavalheiros numa unidade hoteleira igualmente desconhecida – o Hotel Central de Ponta Delgada. Há ainda um erro aborrecido, este resultante da lendária desconcentração dos ilustradores. Quando o Príncipe Ícaro explica aos exploradores a deriva geológica que justifica a sobrevivência da Atlântida, apresenta-lhes um mapa que, na edição original francófona, identificava a América do Sul no hemisfério norte! O erro foi corrigido nas edições subsequentes. 



O erro da edição original, com a indicação de "América do Sul" no canto superior esquerdo.
A versão corrigida na edição portuguesa (Público/ASA)
       Apesar das pequenas incongruências, a quarta aventura de Blake e Mortimer tem uma história para contar.
       O enredo, publicado em pranchas semanais na revista Tintin a partir de 19 de Outubro de 1955 (e reunido em álbum, O Enigma da Atlântida, em 1957), constitui um dos êxitos mais celebrados dos aventureiros Blake e Mortimer, criações de banda desenhada do belga Edgard Pierre Jacobs (1904-1987). Mas onde se inspirou Jacobs para um dos seus mais populares guiões?


Uma das vinhetas de O Enigma da Atlântida. A  lagoa das Sete Cidades.
(Público/ASA)
Em Outubro de 1972, o mais extraordinário divulgador de banda desenhada entre nós, Vasco Granja (1925-2009), entrevistou-o para a edição portuguesa da revista Tintin. Havia uma certa aura de reparação histórica nesta conversa – O Enigma da Atlântida, para muitos a melhor aventura de Jacobs, fora a única que não ocupara a capa da prestigiada edição internacional da revista de banda desenhada.
       De feitio reservado, refugiado na sua propriedade em Lasne en Brabant a que chamara Bois des Pauvres [O Bosque dos Pobres], Jacobs não concedia muitas entrevistas – menos ainda para os representantes de um país sem grande tradição no género e de que conhecia apenas (por admissão própria) o extinto Cavaleiro Andante e o desenhador Fernando Bento, que aliás elogiou: «Ficava-se com a ideia de que conhecia o vestuário de outras eras do povo português.» O elogio não era uma mera cortesia: Jacobs começara a carreira na ópera, desenhando trajes e penteados das personagens de cada produção e conseguia reconhecer facilmente o esforço do trabalho de documentação histórica que isso exigia.
Como bom repórter, Granja torturou o responsável de Relações Públicas da revista Tintin, Jean Paul Vander Elst, e obteve o exclusivo. Antes, já pedira também a intermediação de Hergé, velho mestre de quem Jacobs fora assistente em Bruxelas. Hergé considerava Jacobs um misto entre Mortimer e o seu capitão Haddock. Numa formulação célebre, dirá mais tarde do amigo: «Jacobs é Mortimer voando em auxílio de Blake.»
Há uma certa aura quando Jacobs entra na sala onde Granja já o espera, «dando a impressão de estar numa sala de espectáculos. (…) É uma autêntica encenação teatral (não esquecer que o grande desenhador teve uma brilhante carreira como intérprete lírico)». Repórter minucioso, Granja regista o aparato da entrada cénica, «como se aguardássemos as três pancadas de Molière».

Parte 7 da entrevista, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)

A entrevista, partida em sete capítulos (publicados entre a série XI e XII da revista), é um jogo de xadrez. Granja elogia Jacobs e quer extrair os segredos criativos deste homem que chega a trabalhar 11 horas consecutivas e se deita com a roupa do dia; Jacobs contra-interroga, numa espécie de exame de aptidão daquele homem peculiar, de óculos de aros largos, proveniente do país com «um povo corajoso», «pequenos mosaicos de cores diferentes [azulejos]», mas pouco mais. A certo momento, num jogo de espelhos peculiar, é o belga quem faz perguntas sobre o estilo de banda desenhada mais comum em Portugal, as dificuldades de adaptação de enredos e peripécias culturais francófonas ou até as preferências de Granja sobre o processo criativo e a hierarquização de funções entre desenhador e guionista.
O Enigma da Atlântida aflora à conversa. O guião inicialmente previsto para a aventura incluía discos voadores, mas outro ilustrador com colaboração prevista para o mesmo número da revista já os integrara na sua narrativa e Jacobs, cavalheirescamente, cedeu. O belga interessou-se então pela Atlântida, revisitando o mito que, desde o século XVIII, sugere que o arquipélago açoriano seria o destino final desta civilização perdida. O seu esforço de documentação tornara-se icónico de uma nova era na banda desenhada, simbolizada no lema de Raymond LeBlanc, o editor da Tintin: «Instruir e distrair.»
«Oh, sabe lá, tive tanta dificuldade em reunir documentação para essa história», contou Jacobs a Vasco Granja. «Hoje, teria sido mais fácil.» Jacobs gabava-se de um processo documental único entre os seus pares e a história nos Açores não fugiu à regra. Lera os clássicos gregos sobre Atlântida, como descreveu pormenorizadamente a um correspondente em 5 de Janeiro de 1969 (carta publicada em Le Monde de Edgar P. Jacobs, Lombard, 1984, pg. 75-80). Estudara as traduções dos cronistas portugueses de quinhentos e seiscentos (graças à ajuda que Vasco Bensaúde concedera ao historiador francês Paul Le Cour) e conhecia bem a alegação de Damião de Góis de que, à data da descoberta da ilha do Corvo, os primeiros exploradores tinham encontrado uma enigmática estátua de um guerreiro de tronco nu, à maneira árabe, apontando para ocidente. Numa frase, Jacobs convenceu-se mesmo de que a Atlântida estaria sob os Açores.
       São conhecidas várias rábulas sobre a obsessão do belga com os mais ínfimos pormenores que reproduzia depois nas pranchas. Nos Açores, ficou sempre a dúvida sobre se Edgar Jacobs efectivamente visitou o arquipélago, pois os seus blocos de notas e memórias são omissos relativamente a essa questão, mas as pranchas que decorrem à superfície das Sete Cidades são particularmente minuciosas.
Granja questionava. Jacobs desviava a conversa: «Posso oferecer-lhe alguma coisa para beber? Não tenho vinho do Porto, mas talvez aceite um uísque.»
Mais à frente, volta-se ao tema. Infelizmente, sem certezas.
Interpretando literalmente a resposta final de Edgard Jacobs, fica a ideia de que a visita do desenhador a São Miguel foi posterior à publicação do álbum. «Eu não tinha conseguido obter a indispensável documentação acerca dos Açores quando andava a preparar O Enigma da Atlântida. A cratera das Furnas [Jacobs referia-se às Sete Cidades] deixou-me uma profunda impressão. Na água do lago, pode[m] observar-se duas cores diferentes: uma azul e outra verde, o que é bastante espantoso.» E foi tudo!
       A Claude Le Gallo, um dos seus amigos e biógrafos, Jacobs confidenciará mais tarde que, se pudesse, rescreveria a aventura da Atlântida, pois o recente conhecimento geológico e arqueológico  modificara as premissas da aventura em que acreditara. Nunca o fez.
Vasco Granja em imagem do Gato Alfarrabista
O homem que se gabava de ter sido o primeiro na Bélgica «a tentar fazer em banda desenhada qualquer coisa de sólido em vez de imaginar cenários fantasistas como no teatro», não chegou a esclarecer como se documentou para reproduzir fielmente a Lagoa Azul e a Lagoa Verde.
     Vários biógrafos e fãs de Jacobs não acreditam que o belga tenha de facto visitado os Açores no início da década de 1950 para se documentar, mas, em São Miguel, a sua figura ainda é lembrada. O vulcanólogo Victor Hugo Forjaz conta que, nas memórias da ilha micaelense, ainda há quem se lembre do belga «numa descida juliovérnica que se realizou na Povoação e terminou numa caverna sem saída», seguida de uma visita às Sete Cidades. A imaginação do desenhador e guionista faria o resto, estabelecendo ligações subterrâneas entre o território – aliás, como os seus biógrafos documentam, os subterrâneos e as inclementes mudanças meteorológicas são duas das marcas de água das aventuras de Blake e Mortimer.
       Victor Hugo Forjaz não duvida de que O Enigma da Atlântida fervilhou depois de uma visita real de Jacobs a São Miguel. «Terá então sido guiado pelo jornalista, director de uma loja de turismo e radialista Silva Junior (1912-1995)», acrescenta o cientista, que homenageia este mês a aventura de Blake e Mortimer que percorreu mundo e celebrizou as Sete Cidades.

Dedicatória de Edgard Jacobs a Vasco Granja, Revista Tintin
(a partir de arquivo da Bedeteca, Lisboa)
Nunca mergulhei na Lagoa das Sete Cidades, objecto do excelente Vulcão das Sete Cidades – Um Guia, obra agora publicada nos Açores com coordenação de Victor Hugo Forjaz e do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores e apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada.
Porém, ontem, em conversa amena com este amigo, sábio da vulcanologia, memória viva dos Açores e… testemunha bem humorada de erupções reais, fictícias e imaginadas-para-ministro-ver, veio à baila esta saga de Blake e Mortimer passada em São Miguel. Rimo-nos com a recordação do final da aventura de Jacobs. Na banda desenhada, Jacobs abre a Lagoa para deixar passar foguetões em direcção ao espaço, antes de a voltar a selar com a configuração de sempre, como se nada tivesse acontecido.

Na impossibilidade (para já) de comprovar que Edgard Jacobs visitou de facto os Açores antes de desenhar O Enigma da Atlântida, resta-me sugerir a leitura deste novo guia sobre um dos monumentos naturais mais espantosos de São Miguel. Com menos ficção e mais ciência, com menos atlantes e mais açorianos, é uma obra fascinante e há muito necessária.

Nota final: este artigo é devedor da sabedoria e partilha de informação do blogue Nerdenthal, que compilou uma valiosa lista de textos de Vasco Granja sobre banda desenhada, o amor da sua vida.

segunda-feira, dezembro 19, 2016

Manuela de Azevedo na JJ


«A jornalista respira fundo ao entrar na cozinha. O nome do cozinheiro foi o seu cavalo de Tróia, o estratagema para obter acesso até à intimidade do homem que, durante um mês, fora rei em Itália e se vira obrigado ao exílio depois de um referendo ter dado vitória esmagadora à solução republicana. Enquanto troca palavras confusas com o cozinheiro, procurando congeminar um plano que justifique a sua presença na Quinta da Piedade, aproxima-se o rei, recém-chegado dos seus passeios higiénicos pela serra. Olha-a com curiosidade, de bengalinha na mão, e avança. Manuela de Azevedo poderia ter confessado logo ali o seu propósito: queria entrevistar o soberano que recusara os esforços de toda a imprensa europeia desde que chegara a Portugal uma semana antes. Queria mostrar aos camaradas do Diário de Lisboa que era tão destemida como eles. Num ápice, porém, o rei avançou e a oportunidade esfumou-se.»


Excerto do artigo que publico na "Jornalista e Jornalistas" deste mês, disponível aqui.

Ilustrações de Draftmen.

segunda-feira, junho 13, 2016

A dinastia dos verrumas e o rei Dom Carlos no corpo de um general francês


Verruma.
Na cidade de Lisboa, neste feriado, dia 8 de Dezembro de 1886, a palavra parece circular na boca de todos. Nunca se falou tanto deste instrumento de ferro com a ponta em espiral, usado para abrir furos na madeira. Ferramenta de carpinteiro e de assaltante, a verruma tem hoje a sua consagração na cultura popular.
Cai uma chuva miúda, quase cacimba, quando os sinos das igrejas do Chiado assinalam as duas horas da tarde. Eduardo Schwalbach, 26 anos, redactor do Jornal do Comércio, passeia por Lisboa quase esquecido da partida que pregou dois dias antes no seu jornal.  «Alegre e despreocupado, ao virar da Rua Nova da Trindade para o Largo da Abegoaria [hoje Largo Rafael Bordalo Pinheiro], uma crespa ondulação de vozes mete-se-me nos ouvidos», contou nas suas memórias (À Lareira do Passado, 1944). «E ao pôr os pés no Largo surpreende-me um mar de cabeças ao alto, braços erguidos e goelas escancaradas que, do Chiado, extravasava para a Rua Serpa Pinto. A algazarra era ensurdecedora. ‘Verruma para aqui! Verruma para ali!’, em gritos que pareciam uivos, com palmas a estalarem, assobios a silvarem, garotos a imitarem foguetes, gaitinhas, um inferno», acrescentou.
Schwalbach começa a temer que a algazarra seja resultado da sua partida. Na madrugada do dia 6, a verruma parecera-lhe uma graça inofensiva, uma blague. Agora, assusta-se com as consequências. «Tenho medo de mim próprio. Como um assassino irresistivelmente atraído para junto do cadáver da sua vítima, meto ombros por entre a onda do povo e, açodado, ofegante, vou ter à Igreja dos Mártires. Um coupé de gala estava parado à porta. Pregada na traseira, uma enorme folha de papel branco com uma também enorme verruma pintada a preto.» Está desfeito o mistério.
Eduardo Schwalbach em 1944
(arquivo do autor)
O sisudo Jornal do Comércio, jornal de um banqueiro – o Conde de Burnay –, composto, respeitoso e respeitável, «com um aspecto de gravidade inerente ao Deve e ao Haver», participara numa farsa. É provável que tenha sido o mais divertido empastelamento da história da imprensa portuguesa. Melhor ainda: ao contrário dos outros, foi propositado!

EMPASTELAMENTO DO GRANEL
O empastelamento era o pesadelo do redactor-paginador, o jornalista que, nos velhos tempos da composição a chumbo, tinha a missão de desenhar a configuração das notícias em cada página do jornal, calculando espaços e condensando tipos para arrumar os materiais. Por vezes, as linhas do granel misturavam-se, produzindo como resultado indesejado trechos de texto sem sentido, pois as notícias aglomeravam inadvertidamente fragmentos de outras peças.
Durante muito tempo, na tipografia do Diário de Notícias, esteve afixado um dos exemplos mais divertidos de empastelamento da imprensa lusófona, produzido em 1908 num jornal regional do Brasil, a Gazeta de São João Baptista. Noticiava-se a partida para o Rio de Janeiro de um médico muito estimado em Goiás. A notícia seguinte no alinhamento do jornal dava conta de uma feira de suinicultura e de um porco de dimensões generosas. Por lapso, houve empastelamento e o texto impresso ficou:
«Parte hoje para o Rio de Janeiro, onde demorar-se-á alguns meses, o nosso querido amigo, dr. José da Silva Mattos.
É um dos melhores exemplos de suínos que temos visto, attingindo o seu peso, caso entre nós nunca visto, a 168 kilogrammos.
Os seus numerosos amigos, querendo demonstrar quão sensível lhes será a ausência do estimado clínico que vae remetido para a Exposição Nacional onde certamente ganhará um dos prémios destinados a animais do ceva, demonstrando os cuidados que dispensava com sua carinhosa presença aos seus enfermos, attendendo a qualquer hora do dia ou da noite os chamados por maior que enche de orgulho os criadores goyanos certos de que esse representante da zootechina do município na Capital attestará o adiantamento de operoso clínico que deixa fundas saudades entre nós com sua retirada, felizmente não longa.
Teremos a maior satisfação e prazer em vê-lo esquartejado, vendido a peso o seu toucinho, dando razoável e compensador lucro a todos os seus amigos.»
Arquivo da Biblioteca Nacional do Brasil
Deixemos Fernando Pires, um dos jornalistas mais experientes nesta tarefa, explicar a arte da composição a chumbo (em O Nosso DN. Memória do Tempo, 2014) e o risco do granel. No espaço actual da redacção do jornal na Avenida da Liberdade [pelo menos, até à próxima mudança de sede], funcionava a velha e gigantesca tipografia, com a Linotype, «uma estrutura de ferro, alta, que tinha no topo uma caixa com as matrizes de todos os caracteres e em baixo um teclado. A máquina substituíra o penoso processo manual de composição de que Alexandre Vieira, pioneiro do movimento operário português, fala admiravelmente em Em Volta da Minha Profissão (1950). A Linotype impôs-se nas tipografias dos jornais de Lisboa e do Porto a partir da segunda década do século XX. Vieira, velho tipógrafo, nota que, «como todas as maquinarias que anulam o trabalho de muitos braços – em proveito do industrial, claro – foram, por isso mesmo, recebidas ferozmente pela nossa gente, apesar de as maganas serem bem sedutoras».
        Avançamos novamente à boleia de Fernando Pires. O linotipista colocava o texto diante de si, numa gancheta que prendia o original, dactilografava-o, as matrizes correspondentes caíam e eram recolhidas por um braço metálico, onde ficavam suspensas. O linotipista confirmava, na face exterior da matriz, pelos caracteres gravados, se tudo estava correcto, ajustava a linha, se necessário, preenchendo eventual espaço com matrizes brancas, isto é, sem qualquer caractere e accionava uma alavanca que conduzia o braço com as matrizes para uma caldeira de chumbo ao lado, incorporada na máquina».
A caldeira fundia o chumbo e ejectava uma linha de chumbo com os caracteres em relevo para um tabuleiro. A operação repetia-se incessantemente. Quando o texto estava por fim composto, formava-se o granel, «atado com um cordel […] e levado ao prelo para obter uma prova», depois revista. A cada sessão de emendas, o linotipista compunha novas linhas que o redactor-paginador colocava no sítio certo da página.
Esse granel, por vezes, na confusão do fecho de cada edição e no frenesi da composição a chumbo, sofria adulterações. O exemplo do jornal brasileiro é um caso clássico de adulteração involuntária. Mas voltemos à nossa história.

O CASAMENTO E A VERRUMA
Schwalbach progredira rapidamente na carreira. Começara no Diário Ilustrado, acumulando funções no Correio da Manhã de Pinheiro de Chagas. Em 1886, zangado com Pedro Correia, director do Ilustrado, saiu abruptamente do jornal, mas não ficou inactivo por muito tempo. Cristóvão Aires, nome grande do jornalismo do século XIX, convenceu-o a aceitar um cargo no Jornal do Comércio. Para um boémio com pretensões literatas, era um aburguesamento. «O diabo fez-se ermitão», admitiu nas suas memórias. «Substituí o chapéu e a máscara de Arlequim pelo barrete de seda e os óculos de escriturário e segurei-me nos rails para não descarrilar.»
Na noite de 5 de Dezembro de 1886, cerca das onze horas da noite, entrou na redacção «uma das mais típicas e apregoadas figuras de Lisboa por seus ridículos e desplantes – o senhor Marcos Maria Fernandes». Glosado por Eça e Ramalho em As Farpas, Fernandes era o novo-rico típico da sociedade lisboeta. Proprietário de um atelier de modas na Travessa de Santa Justa, a Maison de France, vivia obcecado com a promoção social.
Anunciava todos os seus actos sociais nos jornais da época, com particular destaque para as personalidades políticas e teatrais que o acompanhavam. A filha, dona Cecília Fernandes, tornara-se a «bandeira das suas paspalhices». Cada exame escolar, cada ritual baptismal eram motivos para retratos e propaganda na imprensa diária. «Com o seu regador de vaidades, ia refrescando o canteiro em que haviam de florescer os seus descendentes: julgando criar-lhes uma luminosa auréola, talhava-lhes uma carapuça com guizos. Em todos os seus actos charlatanescos, provocava o riso que descia ao escárnio», conta Schwalbach.
Nessa noite, Marcos Maria Fernandes vem participar ao director do Jornal do Comércio o futuro casamento da sua filha. Traz a notícia pronta, com a tradicional lista de personalidades convidadas para a boda e distinguidas como padrinhos. Há ministros na lista de celebridades. O texto, como não poderia deixar de ser, era um exagero lírico, mas Cristóvão Aires recebe-o da mão do pai babado. A redacção, entretanto, vai-se esvaziando, à medida que os tipógrafos compõem a primeira prova da notícia. «À formiga, já tinham saído os mais: ficámos sós, eu e o Cristóvão.» O contínuo do jornal traz entretanto as provas dos últimos textos em falta – a participação do casamento e a informação de um assalto frustrado.
O texto do comendador Fernandes desperta gargalhadas nos dois jornalistas e o apelido do ministro Henrique de Macedo, padrinho da moça, desperta o génio do mal na mente de Eduardo Schwalbach. Afinal, o assaltante que entrara numa residência utilizando uma verruma também se chamava Macedo.
«Chassez le naturel, il revient au galop!», pensou o repórter.
- Ó Cristóvão, e se forjássemos uma troca de granéis!
O director hesita. Sorri, mas recusa. Nunca tal sucedera num jornal português.
- Mas diz-me: não podia dar-se isto na paginação?
- Lá isso, podia. Mas não, não. No Jornal do Comércio, não.
Face à persuasão continuada do repórter, o director acaba por transigir. Sai a rir da redacção enquanto adverte como Pilatos:
-       Faz o quiseres. O que fica entendido é isto: não sei de nada!
Com a alegria de uma criança, Eduardo Schwalbach forja o inadvertido empastelamento. Mistura as duas notícias, a ponto de, na 28.ª linha, «o ministro da Marinha, Henrique de Macedo, munido de uma verruma, lhe queria arrombar a porta. Apareceu a polícia que o prendeu e que refere, à parte do ocorrido, que esse sujeito tinha ideia de agredir com a verruma a pobre». Com toda a inocência, a notícia retoma depois o teor original.
Jornal do Comércio, 6 de Dezembro de 1886
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
No dia seguinte, véspera da boda, o bairro dos jornais entretém-se com a graça. A imprensa séria finge-se chocada com o engano, a verruma entra nas conversas do quotidiano. O comendador Marcos Maria Fernandes protesta veementemente e exige a cabeça do responsável. Encorajado pelo seu próprio êxito, o Jornal do Comércio publica uma errata, lamentando «o nosso paginador [que] fez-nos hoje coisas do arco da velha». Mais à frente, Schwalbach não resiste a mais uma alfinetada, associando novamente o enlace a um caso de polícia. A errata regista que «um colega da noite noticia que, para fazer o serviço da polícia no templo dos Mártires, foram requisitados 1 chefe de esquadra, 2 cabos e 10 guardas de polícia, além de 10 guardas para o serviço externo».
No semanário Pontos nos I, Bordalo Pinheiro pinta a manta e cria várias vinhetas com a nubente fugindo de verrumas.
Pontos nos I(a partir de arquivo da Hemeroteca Digital)
Eis-nos chegados então à Igreja dos Mártires no dia 8 de Dezembro e ao cortejo nupcial que parece travestido de marcha carnavalesca. Crianças em cabriolas acompanham o coupé dos noivos apontando para desenhos de verrumas e soltando gritos de sátira. O comendador Marcos Maria Fernandes não levará certamente o relato deste casamento aos jornais da cidade. Schwalbach cai em si: «Com o coração em chaga e o cérebro em fogo pelo mal que causara àquela pobre menina, pálida como um cadáver (…), entre soluços, arrependido, enxaguei as lágrimas que me escaldavam as faces.»
Schwalbach aprendera que, mesmo um empastelamento propositado, tinha consequências. No seu caso, «sob a opressão de uma profunda mágoa, irreflectidamente fundei a dinastia dos Verrumas» – o único caso que conheço de um granel trocado de propósito num jornal.

O REI NO CORPO DE UM FRANCÊS
Passaram três anos. Schwalbach já saiu do Jornal do Comércio. José Luciano de Castro levou-o para o Correio da Noite, de onde saiu com estrondo após uma controvérsia com o prior da Lapa. Fundou em 22 de Abril de 1889, com Urbano de Castro, o jornal A Tarde, com o capital de dois mil e quatrocentos reis na algibeira. Desde o primeiro número, a dupla inova no jornal: «Prometemos ao público dar gravura do acontecimento, sempre que este seja de vulto. Para isso, fora as nossas gravuras em madeira, chamámos em nosso auxílio Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro, cuja reputação artística não carece do nosso reclame (…) Outros desenhadores notáveis nos ajudarão nesta tarefa», promete-se logo na primeira edição.
A morte de Eduardo Coelho, fundador do Diário de Notícias (em Maio), serve de ensaio para a nova aposta em gravuras, mas o verdadeiro teste virá depois. Em 15 de Novembro, um tenebroso incêndio no Chiado marca a inovação de A Tarde. Manuel Gustavo Bordallo Pinheiro corre para a janela do consultório médico do seu tio, na Rua Ivens. Dali, desenha incessantemente. O gravurista espanhol Francisco Pastor transforma o croquis num instantâneo da tragédia. É um êxito em Lisboa. A tiragem chega a 20 mil exemplares e assusta O Século, que propõe a junção dos dois títulos, rapidamente recusada.
Exemplo das gravuras/croquis de A Tarde, 11 de Novembro de 1889
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Semanas antes, aquando da morte do rei Dom Luís em Outubro, A Tarde conseguira também organizar um suplemento com gravuras do rei moribundo. Francisco Pastor não demora mais de três horas a transformar os croquis em gravuras. «A gravura do acontecimento, rápida e precisa, inaugura-a A Tarde e com ela conquista toda a aura popular», gaba-se Schwalbach.
O jornal vende-se bem e coloca novos desafios aos seus mentores. Em Dezembro de 1889, Dom Carlos será coroado e o jornal quer fazer novo brilharete. «Eu barafustava, arrepelava a imaginação a pensar na forma de arranjar outro suplemento com um grande retrato, de todo desconhecido, do novo monarca», conta.
A meditação leva o jornalista a passear pelas ruas da cidade. Vê numa tabacaria um exemplar da Illustration Française, revista de culto no século XIX graças à profusão de imagens e tratamento gráfico cuidado. Na primeira página, a publicação francesa traz um aparatoso retrato do general Boulanger a cavalo. «Lampeja-me no cérebro uma ideia maravilhosa», conta Schwalbach. «Compro a Ilustração, mando chamar o Pastor e digo-lhe ‘O meu amigo substitui neste retrato do Boulanger a cabeça dele pela cabeça de Dom Carlos, põe-lhe um capacete e veste-lhe uma farda nossa, de generalíssimo. E aqui temos um retrato de Dom Carlos a cavalo, que ele nunca tirou!’»
              A foto original – sabêmo-lo pelo olisipógrafo Mário Costa, autor de O Chiado Pitoresco e Elegante –,  fora captada pelo fotógrafo João Francisco Camacho, natural do Funchal, onde exercera a profissão de encadernador. Na Madeira, cedo aprendeu a arte da fotografia e rumou a Lisboa para se especializar. Em Paris, fora mesmo «discípulo do mestre Disderic» e, regressado a Portugal, foi naturalmente procurado por fidalgos e burgueses. A própria família real posara para ele e Dom Carlos acedeu igualmente ao seu pedido. João Camacho faleceria em 1998, oito anos depois do episódio que aqui se narra.
Pastor, o gravurista espanhol, demonstra toda a sua competência na empreitada. Inverte a posição do cavalo para dificultar o reconhecimento da figura. Monta a face do novo rei no boneco. A 27 de Dezembro, o jornal anuncia para o dia seguinte «a gravura de 0,32 de altura por 0,30 de largura, representando El-Rei Dom Carlos fardado de generalíssimo, a cavalo, soberbo trabalho saído da casa Pastor». No dia 28, publica a imagem.
Boulanger (original) e Dom Carlos (montagem)
Arquivos do autor e da Illustration Française
«O suplemento vendeu-se como canela», conta Schwalbach. «Depois soube que o próprio rei Dom Carlos, ao vê-lo, admiradíssimo perguntou: ‘Mas como é que arranjaram um retrato meu que não tirei?’»
Terá sido a primeira manipulação de imagem da imprensa diária portuguesa envolvendo figuras de Estado.

EPÍLOGOS
A Tarde não sobreviveu muito tempo. No Ultimato de 1890, Urbano de Castro e Eduardo Schwalbach aceitaram um pedido do ministro Lopo Vaz e não atacaram os termos do pacto de Inglaterra com Portugal, termos esses que forçavam o reino português a pedir autorização da coroa inglesa antes de alienar qualquer colónia. No furacão popular que varreu a sociedade portuguesa com raiva e recriminações, A Tarde foi quase destruída. «Os seus exemplares foram arrancados das mãos dos vendedores e, com eles em pedaços, fizeram-se fogueiras no Rossio e na Praça de Camões», conta Schwalbach. Dois anos depois, em 1892, o jornal fundiu-se com a Gazeta de Portugal.
Schwalbach abraçaria então uma carreira teatral com muito sucesso. Várias peças da sua autoria foram encenadas no Teatro Nacional Dona Maria durante a monarquia e a República encontrou-o já como professor do Conservatório. Voltou ao jornalismo em 1924, como director do Diário de Notícias, após a nomeação de Augusto de Castro para um cargo diplomático no estrangeiro. Deveria ter sido uma nomeação temporária, mas Schwalbach manteve-se no cargo até 1939 e cumpriria ainda novo mandato entre Janeiro de 1945 e a data da sua morte. Apresentou-se sempre como um director a prazo, mas a verdade é que esse prazo dilatou-se extraordinariamente.
O fundador da dinastia dos Verrumas faleceu em 1946, aos 86 anos, em Lisboa. Quis o destino – e uma certa propensão para as grandes cenas teatrais – que falecesse no dia 8 de Dezembro, o mesmo dia em que, 60 anos antes, o casamento na Igreja dos Mártires em Lisboa decorrera sob o signo das verrumas por sua exclusiva responsabilidade.

sábado, junho 04, 2016

Vinganças

Conta Eduardo Schwalbach nas suas Memórias que Dom Luís I e Mariano de Carvalho, director do Diário Popular, odiavam-se discretamente. O Popular era o jornal que mais atacava o monarca.
Um dia de 1886, já perto do final da vida, o rei teve de engolir o sapo e «confiar ao seu terrível detractor a pasta da Fazenda».
Vingou-se. Ao findar uma assinatura real a que assistia o novo ministro, o rei puxou-o de parte e perguntou-lhe se gostava de música.

— Sim, meu Senhor – respondeu Mariano.
— Então venha cá!

Durante noventa minutos implacáveis, Dom Luís torturou Mariano de Carvalho, «arrepiando os ouvidos da sua vítima com uma violoncelada quase seguida». O monarca tocava realmente mal o instrumento.


«Encantado por fora e como um urso por dentro», Mariano saiu daquela tormenta quase a espumar. «Sua Majestade voltou-se para o seu camarista e disse-lhe, esfregando as mãos de contente: — Estou vingado!»

quarta-feira, março 23, 2016

Braz Burity


Por acidente, descobri uma peça adicional para uma história que em tempos contei no meu blogue e foi depois publicada em Parem as Máquinas! (Parsifal, 2015). Na farsa que ludibriou o jornal O Mundo em 1914, levando-o a publicar a notícia de que fora eleito um papa português, o principal mentor da rábula foi, por admissão própria, Joaquim Madureira, que assinava as suas sátiras como Braz Burity. Não lhe conhecia as feições. Descobri-as num exemplar da revista satírica Sempre Fixe. Num texto emocionado, Gilvaz de Santana escreve ali sobre Madureira: «Foi decerto exagerado, como caricaturista que era, tanto nas taponas que dava a uns, como nos ditirambas que dispensava a outros, mais afortunados (…), mas tinha talento e tinha pilhas de graça.»
Eis então Joaquim Madureira, o homem que enganou O Mundo.
 
Sempre Fixe, 29 de Setembro de 1954
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)