terça-feira, agosto 06, 2019

Nicomedes Vieira, um pseudónimo só para o Comércio do Porto



Um indivíduo ainda novo caminha pela Rua de Santo Ildefonso, no Porto. Usa um pequeno bigode preto e veste um fato de flanela azul, com um chapéu de coco à inglesa. Com discrição, leva na mão um maço de papéis (que mais tarde se apurará serem panfletos revolucionários). Olha para todos os lados antes de entrar num edifício modesto de dois pisos, forrado a azulejo. Na loja do rés-do-chão, funciona um bengaleiro. Na recepção, o homem indica o andar que lhe interessa: «Rua de Santo Ildefonso, 2.º.» Recebe a contra-senha combinada: «César.»
Tudo parece correr como previsto, mas, nesse instante, desabam sobre este homem vários agentes das forças policiais da cidade. Júlio de Vasconcellos começa por alegar que o seu nome é António de Moura Soares, mas percebe que caiu numa cilada. Foi capturado e identificado. Tudo perdido. É provável que tenha ponderado se «César», no apartamento lá de cima, já estaria a ferros. Mais: como teria o comissário Adriano Morais de Carvalho descoberto o paradeiro do foragido mais procurado do país?
Recuemos algumas horas.
Estamos na última semana do Verão de 1892. Os focos republicanos de revolta desencadeados pelo Ultimato Inglês e pela intentona de 31 de Janeiro de 1891 foram esmagados. Os principais líderes da oposição já se encontram encarcerados ou estão prestes a ser julgados. Resta João Chagas, o jornalista nascido no Rio de Janeiro, o «César» desta aventura.
Semanas antes da revolta de 1891, Chagas foi detido por crime de insulto contra a figura real. À data da intentona, está no cárcere, mas nem essa limitação de movimentos impede a polícia de o considerar cabecilha da revolta. A pena é agravada pelo Tribunal de Matosinhos. Chagas é condenado a quatro anos de prisão ou seis de degredo em África. Em Moçâmedes, porém, escapa-se. Foge para Espanha e depois para Paris. Torna-se um mito, a bandeira da república. Correm boatos hiperbólicos sobre o resistente – que vem a Portugal quando assim deseja; que viaja de norte a sul erguendo novas células de combate; que visita o Porto, a sua cidade de acolhimento, com frequência. O comissário Morais de Carvalho, que lidera as forças policiais do Porto desde 1876 e que se tornou famoso depois da condenação do célebre médico Urbino de Freitas, promete colocar um ponto final na aventura, apesar de Chagas ter sido seu amigo. Mas não tem pistas.
No dia 15 de Setembro de 1892, a polícia recebe por fim uma denúncia. Num dos seus volumes de memórias, Chagas sugere que terá identificado o bufo, mas nunca publicitou o seu nome, porventura por resistirem dúvidas no seu íntimo. É identificado o prédio onde Chagas está alojado há quatro dias e relatado o santo-e-senha. Resta estender a rede para concretizar a captura.
Pelas três horas e meia da tarde, a polícia entra no edifício. Num perímetro de segurança entre a rua em causa, a Travessa do Campinho e a Rua de Entreparedes, são posicionados mais guardas. Até no telhado do tribunal auxiliar é colocado um atirador. Sem escadaria de segurança, Chagas estará encurralado... caso de facto lá se encontre.
Os agentes passam o edifício a pente fino. Sobem por fim ao segundo andar e irrompem pelo quarto. Chagas dorme com um jornal no rosto. Cortou a barba que lhe era típica. Está mais anafado do que antes do exílio. Acordado, o líder republicano pergunta ao amigo: «O que há?»
«Bem deve perceber do que se trata», responde o outro com secura.
«Está bem. Estou pronto a acompanhá-lo. Eu já esperava isto.»
O quarto é revistado. Todos os documentos são apreendidos, incluindo os pequenos fragmentos de telegramas já expedidos pelo detido. A polícia do Porto mostra agora uma minúcia pouco coerente com a investigação produzida até então. Chagas ostenta um sorriso gozão perante os inspectores de pacotilha que examinam cuidadosamente a sua roupa suja. De madrugada, já fez sair do quarto uma carta à nação que será publicada nos jornais afectos ao republicanismo. Porventura esperaria a captura a qualquer instante.
Terá sido neste instante que germinou no espírito de Morais Carvalho a ideia de usar a imprensa para publicitar os méritos da sua investigação, desfazendo qualquer preconceito de que a captura se devera ao acaso. No dia seguinte, o Comércio do Porto (e, logo de seguida, toda a imprensa nacional) veicula a tese extravagante de que Chagas entrara em Portugal pela fronteira de Barca de Alva, oriundo de Salamanca. Como estavam em vigor os controlos sanitários por força do surto de cólera que varria então o Norte da Europa, Chagas teria sido interceptado no comboio, mas não identificado. Teria dado um nome falso, o nome que conduziria à sua captura.
De acordo com a tese policial, Chagas dera o nome que, de acordo com as leis de quarentena, teria de ser confirmado nos hotéis e hospedarias do Porto. Quando horas depois se verificou que ninguém na cidade acolhera esse caixeiro-viajante, a polícia teria percebido que se trataria de João Chagas, apertando o cerco. Repartindo o “mérito” pelos seus homens, Morais Carvalho atribuiria ao capitão Arriscado, comissário da 3.ª Divisão Policial, o estratagema de se disfarçar de marinheiro para melhor cirandar pelas ruas da cidade em busca de alguém com os sinais do passageiro. O guarda civil n.º 141, esse, ter-se-ia disfarçado de mendigo.
A esta tese extravagante, juntou-se um elemento que entrou de imediato para o anedotário republicano: segundo a polícia, João Chagas teria respondido pelo nome de… Nicomedes Vieira, nome inspirado numa opereta que chegou a fazer furor no Porto e que começava precisamente pela estrofe: «Dom Nicomedes, eu sou…»
Detido e conduzido de imediato ao vapor Índia, João Chagas não tem qualquer fuga possível. É remetido para Luanda, onde rapidamente começa a cumprir a pena de degredo a que fora condenado.
O comissário Morais Carvalho em gravura de "Maria Rita". Colecção do blogue urbinodefreitas.wordpress.com 

A FÚRIA DE CHAGAS
Detido no Forte de São José, Chagas tem tempo suficiente para ponderar toda a sua aventura. Está isolado, mas não é agredido. Despojado de qualquer conforto, é atirado para o degredo com a esperança de que assim seja esquecido. Para manter a serenidade, escreve ali um diário que mais tarde publicará e onde exporá o tratamento desumano dedicado pela monarquia aos presos políticos, incluindo as sevícias corporais que se julgavam desaparecidas do regime penal português.
Tem tempo para se enfurecer contra o amigo comissário – pela captura e pela história rocambolesca colocada a circular (e que, comprovo-o agora, chegou ao Brasil através do jornal Commércio de Portugal). «A primeira vez que li Nicomedes Vieira achei estúpido», anotou. «Passei adiante não sem uma ligeira irritação, deixando correr essa versão ridícula de que eu me chamara um dia Nicomedes e considerando que, visto ter sido necessário um Nicomedes, não via inconveniente em o deixar de pé. Um manifesto para destruir Nicomedes afigurou-se-me exorbitante; não fiz o manifesto e cá vim para África.»
A irritação do tribuno republicano transparece em cada palavra. À decepção da captura, junta-se a frustração pela associação do seu nome a um pseudónimo de reduzida qualidade literária: «Não! Nicomedes Vieira não é o disfarce de um viajante sem gosto literário; Nicomedes Vieira não existiu; Nicomedes Vieira não passou a fronteira. Nicomedes Vieira é uma burla e uma mentira. Nicomedes Vieira saiu da polícia.»
No seu diário, Chagas admite que já estivera noutra ocasião, incógnito, no Porto. «A polícia do Porto não suspeitava portanto da minha existência naquela cidade, onde eu já tinha ido, o que ela sabia por ouvir dizer, e onde acreditava que eu não voltaria, porque, pouco inteligente como é, não viu na minha primeira incursão mais do que uma aventura, de cujos bons resultados eu deveria estar satisfeito e que não repetiria. Assim foi que, pela segunda vez, pude entrar em Portgual com a minha chapeleira, o meu couvre-pieds e as minhas malas, descer onde me pareceu mais conveniente, tomar um trem, dirigir-me a casa de um amigo, sair dessa casa, atravessar a pé ruas concorridas, ir finalmente alojar-me no domicílio em que fui preso, sem que durante todo esse percurso, da Barca de Alva à Rua de Santo Ildefonso, fosse incomodado pelo olhar, pela houppelande ou pelo bengalão de Javert.»
A polícia, queixa-se, julgava-o em Paris. «Se algum sentimento de prevenção lhe inspirava, era o de uma inveja benigna: com efeito, estar em Paris, mesmo exilado, mesmo pobre, mesmo devorado de impaciência é coisa digna de ser invejada até pela polícia.»
No seu depoimento, João Chagas reconhece o dedo da denúncia. «Súbito, recebe instruções para me procurar na cidade. De quem? Provavelmente de quem lhas pôde dar. Há surpresa, há despeito, há naturalmente sanha. Procura-me, acha-me. Mas a polícia não acha; a polícia fareja. Ter-me achado não convinha ao seu prestígio. Era necessário que, perante a opinião, me tivesse “descoberto”. As corporações policiais vivem muito desta mistificação.»
Surge então o pseudónimo de Nicomedes Vieira, um nome que «sendo estúpido, é desastrado (…) Quando um homem pretende mudar de nome seja para escapar à acção da justiça ou seja para se esquivar a uma simples visita sanitária, escolhe nomes próprios em uso como João, Joaquim, José, António, Francisco e apelidos fáceis e triviais – nunca Nicomedes Vieira.»
Nesta farsa, lamenta Chagas no exílio angolano, o nome escolhido «evapora-se; é uma sombra, mas uma sombra provisória. O [Guerra] Junqueiro descobriu uma hidrofobia de aluguer: eu descobri uma sombra aos dias, como as mulheres de recados. Aqui temos pois Nicomedes sem dono – chapéu que não encontra cabeça, bota que não encontra pé, sobretudo a mais que ninguém reclama. Feitas as contas, Nicomedes sobra. Nicomedes é um desastrado e quem o inventou deveria pelo menos recheá-lo, meter-lhe alguém dentro.»
Rematando como o grande tribuno que sempre foi, João Chagas concluía: «Se quem o inventou foi imprevidente, quem o baptizou foi grosseiro. Scapin [personagem de Molière] compreende-se; compreende-se Crispim, Scaramouche, Arlequim [heróis da commedia dell’arte do século XVI]. Hugolino faz fome. Falstaff faz sede. Isto, esta coisa – Nicomedes Vieira – não faz nada, nem mesmo cócegas.»

EPÍLOGO
Em 1893, o governo de Hintze Ribeiro amnistia todos os detidos envolvidos na conspiração de 1891 e João Chagas regressa a Portugal Continental no final da Primavera. Conta a sua história. Torna-se um ídolo republicano. O pseudónimo que o comissário de polícia cunhara para explicar a sua captura transforma-se numa piada nacional, repetida em panfletos e em artigos da cada vez mais aguerrida imprensa republicana. A prová-lo: em Abril de 1897, o articulista principal do jornal republicano A Rua, de Coimbra, usa precisamente esse nome. Outros se seguirão.
Edição de Abril de 1897 de A Rua. Colecção da Biblioteca Nacional

Morais Carvalho não chega a ver o fim do regime que serviu. Faleceu em 1907, ainda como comissário de polícia do Porto. João Chagas serviria a República praticamente até à sua morte, em 1925. O pseudónimo que o marcou, em contrapartida, tornou-se entretanto mais popular: hoje, há políticos brasileiros que respondem por Nicomedes Vieira, tal como um investigador da Universidade de Coimbra. O nome rocambolesco, afinal, tem o seu encanto…

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