terça-feira, julho 16, 2019

Valdemar visto por Mário Soares

Em 2010, o antigo Presidente da República Mário Soares escreveu o prefácio do livro República em Loures a 4 de Outubro, de António Valdemar. A recente distinção de Valdemar como sócio honorário da Associação Portuguesa de Escritores justifica a reprodução desse documento que testemunha a cumplicidade entre as duas personalidades.

«É um grande gosto – e uma honra – apresentar um livro sobre Loures e a República, escrito pelo meu velho amigo e antigo aluno, no Colégio Moderno, José Stone de Medeiros Tavares, que adoptou o nome literário e profissional de António Valdemar.
António Valdemar é, sem favor, um grande jornalista, profissão que exerceu brilhantemente ao lado e em convivência estreita com grandes jornalistas de todas as famílias políticas - diria dos maiores - da segunda metade do século XX. Mas não é só um jornalista. É um erudito, um homem de vastíssima cultura, conhecedor como poucos da história contemporânea portuguesa e das suas principais personalidades literárias, políticas, científicas, artísticas e universitárias. É sócio efectivo da Academia de Ciências de Lisboa e Presidente da Academia Nacional de Belas Artes. É, além disso, um curioso e um grande contador de histórias.
Açoriano de gema, filho de uma família de convicções republicanas, o Pai era advogado, tendo feito o curso de Direito em Coimbra onde foi condiscípulo de Mário de Castro, Eduardo Figueiredo, Alberto Martins de Carvalho, João Lumbrales e outros.
António Valdemar, ligado sentimentalmente aos Açores, amigo próximo de Vitorino Nemésio, de quem foi admirador e biógrafo viveu, contudo, sempre em Lisboa e, dadas as funções que exerceu, em diversos jornais, conheceu praticamente toda a gente que contou ou que conta ainda hoje na sociedade portuguesa. Tem, de resto, sempre uma história, quase sempre divertida, para contar, a respeito das pessoas de quem se fala, por esta ou por aquela razão. É, por isso, que costumo dizer que Valdemar é uma fonte inesgotável de referências, uma espécie de biblioteca viva. É, além disso, um leitor compulsivo, incansável e arguto, conhecendo pessoalmente as grandes figuras literárias portuguesas, dos últimos sessenta anos e os seus livros. Tem, aliás, uma memória impressionante, que vai até aos menores detalhes.
Herdou do Pai o amor pela República, tal como foi vivida, apesar de todos os incidentes ocorridos, na I República (1910/1926). Foi sempre, além de republicano, anti-fascista, tendo vivido a Ditadura Salazarista, que teve o privilégio de conhecer por dentro, numa atitude crítica.
É, por isso, que tem vivido com paixão o Centenário da República, de cuja Comissão Organizadora faz parte, como representante da Academia das Ciências e da Academia Nacional de Belas Artes.
A Assembleia Municipal de Loures convidou-o para fazer um livro sobre a República e Loures. É, assim, um texto límpido, original e erudito que ora vos apresento, a seu pedido.
Loures, como se sabe, é uma terra republicana, onde a República foi implantada a 4 Outubro de 1910, um dia antes da proclamação oficial feita, da varanda do Município de Lisboa, por José Relvas. Os leitores perguntar-se-ão: porquê? Porque quando Machado Santos revoltou o quartel de Campo de Ourique e marchou para a Rotunda, na noite de 3 para 4 de Outubro, depois de ter ocorrido o assassinato, por um louco, em Rilhafoles de Miguel Bombarda, chefe civil da Revolução. Isso suscitou várias hesitações, como, de resto, o suicídio do Almirante Cândido dos Reis, na noite de 4 para 5, por alguns oficiais comprometidos se terem convencido que a Revolução tinha falhado.
Loures proclamou a República em 4 de Outubro e manteve-se mais ou menos tranquila e isolada à espera das notícias de Lisboa, que finalmente chegaram.
O livro de António Valdemar tem vários capítulos, todos escritos com grande conhecimento de causa. Começa por uma breve  monografia de Loures, desde o princípio do século, passa para a republicanização do Concelho e reflecte sobre o estado do País, na época. Descreve, a seguir, a importância dos Centros Republicanos - o primeiro na área de Loures, surgiu em Sacavém - faz a distinção entre a Carbonária e a Maçonaria (com documentação inédita) e explica a influência desempenhada pela imprensa republicana numa vila como Loures. Refere a proclamação comparada da República, em Loures e em Lisboa e, finalmente, ocupa-se das reformas do Governo Provisório e das cisões no velho Partido Republicano, após a Constituição de 1911.
A edição é muito rica em ilustrações e tem uma excelente bibliografia do essencial do que se tem escrito, desde o aparecimento do Movimento Republicano, no Centenário de Camões (1880) até 1912.
Por tudo o que referi, felicito o António Valdemar pelo seu trabalho e incito, vivamente, à leitura do seu belo livro.»

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