terça-feira, dezembro 08, 2015

A peça de teatro que envergonhou um jornal


«Archivamos estes períodos porque elles hão de servir um dia para quem quizer escrever imparcialmente a história do partido republicano em Portugal, o qual partido conhece tanto a sua história que, em lhe mostrando os seus correligionários históricos taes quaes foram, desata a patear indignado por vêr reduzidas às proporções humanas de monstros sangüinários aquelles que falsamente lhes tinham pintado como seraphins de azas nos hombros e barrete phrigio na cabeça.»
Interpelado assim pelo Diário Ilustrado de 16 de Julho de 1886, recupero um dos mais embaraçosos momentos da carreira de Magalhães Lima, director de O Século.


O Teatro dos Recreios, inaugurado em 1871 no antigo parque do Palácio Castelo Melhor em Lisboa, ruge de fúria. Centenas de convivas engalanados batem furiosamente com os sapatos no solo, numa pateada épica. O ruído flui para fora da sala de espectáculos, alertando os transeuntes. Das primeiras filas da plateia, há quem se vire para o camarote D, engalanado com cortinas semelhantes às que a família real cobre o espaço quando assiste a espectáculos, e exprime a sua fúria.
«Vergonha! Vergonha!»
Alvo da súbita fúria da multidão, o homem de farta cabeleira e cuidado bigode louros desdobra-se em desculpas que ninguém ouve. Neste 14 de Julho de 1886, data de comemoração de mais um aniversário da Tomada da Bastilha e oportunidade propagandística para os republicanos portugueses, a auto-estima e a carreira política de Sebastião Magalhães Lima sofrem duros golpes. Por culpa de um amigo que na verdade não o era.
 
Referência a uma récita no Teatro dos Recreios, em 1887
(Pontos nos I, a partir de arquivo da Hemeroteca Municipal) 
ACTO I, INGENUIDADE E AVAREZA
Sebastião Magalhães Lima fora um dos fundadores de O Século, cinco anos antes deste episódio. Formado em Direito, era o típico recruta republicano da classe média. Não era oriundo de famílias fidalgas como o seu camarada de fileira e de jornal Trigueiro de Martel, nem fizera fortuna no Brasil como o administrador e mais tarde director José Silva Graça, mas a mãe deixara-lhe uma quantia razoável, administrada sabiamente pelo cunhado, Alves Dinis, «um dos mais importantes e conhecidos negociantes da praça de Lisboa», lembrou muito mais tarde Francisco Homem Cristo nas suas Notas da Minha Vida e do Meu Tempo (1937).
       Nas suas memórias (Uma no Cravo, Outra na Ferradura, s/d), Acúrcio Pereira, jornalista de uma geração posterior, conta uma história saborosa entre os dois homens. Quando Magalhães Lima chefiava A Vanguarda, chegavam-lhe constantemente pedidos de emprego e cunhas para o seu cunhado Alves Dinis. A recusa sistemática seria perigosa para um jornalista que tinha evidentes ambições políticas, pelo que Magalhães Lima e Alves Dinis combinaram um engenhoso sistema: Lima aceitaria todas as cartas ou pedidos de intervenção, remetendo-os para o cunhado por escrito. Porém, quando escrevesse sem vírgulas, o cunhado deveria perceber que o pedido merecia recusa polida. O sistema funcionou. Um dia, porém, apareceu em A Vanguarda, um indivíduo que recebeu uma carta de recomendação sem vírgulas. Por graça ou empatia política, «o redactor Gonçalves Neves, vermelhaço (…), mostrando que sabia da manha e desejava servir o postulante, quando ele regressava do gabinete de Magalhães Lima, contente com a carta, pediu-lhe que a mostrasse. A carta não tinha vírgulas. Rapidamente, Gonçalves Neves aplicou-lhas… e o homem obteve o emprego», conta Acúrcio.
       Magalhães Lima não compreendeu o desfecho: «Então, o meu cunhado até já os emprega mesmo sem vírgulas!»  


Homem Cristo em caricatura de 1921, reproduzida no Diário de Lisboa, 7 de Abril de 1986
(a partir de arquivo da Fundação Mário Soares)
O director de O Século primava igualmente pela frugalidade intencional. Homem Cristo, que com ele partilhou a redacção do jornal entre 1882 e 1884, saindo depois com estrondo do partido e do projecto republicano, pintou dele um retrato pouco lisonjeiro: «Magalhães Lima, unhas de fome, vivia sordidamente», registou nos seus volumes de memórias. «Nem um lavatório tinha. Uma bacia, no poial do pote; o contador, por cima. E era preciso, dizia ele, lavar as mãos discretamente. Não pela água. Ele não chorava a água. Mas pelos ladrões da companhia. A água caríssima, e eles a porem ainda em cima contadores que contavam quatro em vez de dois. Dois e quatro para exemplificar, que eu nunca vi o contador lá em casa passar de meio. Ladrões, clamava, enchendo as bochechas e afogueando-se-lhe o rosto! Sabonete… era luxo. Sabão do mais barato. Pentes… partiam-se. Uma escova para assentar o bigode e o cabelo. Uma porcaria bíblica! Contudo, ele lá esfregava as orelhas com a escova e limpava as unhas com os palitos que vinham da travessa de André Valente, gratuitos. O certo é que conseguia manter aparências de homem limpo.»
Mesmo Esculápio, jornalista que com ele privou mais tarde na Vanguarda, tinha um episódio de avareza para contar. A estrutura quádrupla de proprietários de O Século foi-se alterando nas duas primeiras décadas. Anselmo Xavier vendeu a sua quota depois de um escândalo sobre o negócio de panificação de que era sócio. Leão Oliveira faleceu em 1898. Magalhães Lima vendeu a sua quota em 1897, deixando Silva Graça com o leme exclusivo do jornal. Mesmo nessa ocasião, depois de ganhar uma pequena fortuna (cem contos de réis), Magalhães Lima despediu-se dos redactores, foi beber uma cerveja com Esculápio e outro jornalista na Cervejaria Jansen e… insistiu que fosse um deles a pagar a conta.
Neste ano de 1886, o director de O Século goza de prestígio crescente junto do Directório do Partido Republicano Português (PRP), que encara o jornal como o veículo mais penetrante da sua propaganda. Homem Cristo acusa Magalhães Lima de não ter propriamente convicções fortes. «Era a última pessoa que falava», conta. «Incapaz de assumir uma responsabilidade e de vencer uma dificuldade. Era por isso que concordava com todos e era por isso que todos o achavam boa pessoa.» Não é exactamente verdade. Neste Verão, o director de O Século acaba de publicar a segunda parte do seu Processo da Monarchia, volume furioso contra o regime e que lhe valerá sérios problemas nos meses seguintes.
Seja como for, parece óbvio que Magalhães Lima tinha o hábito pouco prudente e ingénuo de acolher abertamente os vindouros no seu jornal, desde que lhe falassem ao coração. 
       Como sucede agora no início de Julho de 1886. O jovem tipógrafo Luiz da Costa faz saber à direcção do jornal que pretende homenagear o aniversário da Bastilha com a estreia, no Teatro dos Recreios, da sua peça A República. Não fornece pormenores sobre a trama e ninguém lhos pede. Oferece à estimada direcção do jornal o camarote principal, uma borla que naturalmente cativa Lima. O Directório do PRP assume que uma peça com essa epígrafe será uma homenagem aos camaradas franceses e compra todos os bilhetes.
No Século, Magalhães Lima anuncia a peça do «nosso amigo Luiz da Costa», embora nunca o tenha conhecido. Publica-lhe anúncios. Confirma que «o drama está muito bem escrito e deve agradar extraordinariamente. Os coros que devem produzir grande efeito estão sendo ensaiados pelo distinto maestro Rio de Carvalho». Três dias antes da festa, O Século revela ainda que o actor Dupont de Sousa recebera um telegrama de um grupo de patriotas franceses agradecendo em nome da França a grande festa democrática prevista para o 14 de Julho. Os jornais afectos à causa republicana incitam os militantes à comparência na récita. Oferecem-se cem bilhetes para os alunos das escolas democráticas. Está montada a cilada.

ACTO II, EM PALCO
Ao fim da tarde de quarta-feira, 14 de Julho, o Teatro dos Recreios está a rebentar pelas costuras. Todas as cadeiras estão ocupadas e, no salão, retiram-se as vidraças que  separam a plateia geral para aumentar o conforto. Acendem-se os bicos de gás como nas noites de gala, pois a ocasião assim o recomenda. O guarda-roupa da peça, apesar de os actores serem distintos amadores, foi confiado ao sr. Franco, do Guarda-Roupa Lisbonense. O salão está decorado. O ministro de França em Lisboa foi convidado para a grande homenagem à República Francesa.
Começa a peça.
Entre os actores do Grupo Dramático Taborda, contam-se Guilhermina de Macedo, Joana Salaty e Emília Brazão. Apresentam-se personagens do ideário republicano: Marat, Robespierre. Há sussurros no final do primeiro acto, um certo desconforto percorre a sala. «Mas são amadores», comenta-se. Certamente que a peça melhorará nos actos seguintes.
No segundo acto, piora. «Os valentes heróis da brilhante cruzada francesa», como Magalhães Lima os apelidara nas páginas de O Século, são apresentados com crueldade, como bandidos sanguinários. Brandem machados contra os fidalgos, como qualquer malfeitor sem traço de heroísmo. Da plateia, começam a brotar insultos, imprecações – primeiro, espaçadamente; depois, em coro.
O terceiro acto é representado sob o pano de fundo inaudito de três centenas de pessoas vestidas a preceito pateando sem parar. PAM, PAM, PAM! Antes do último acto, Luiz da Costa enfrenta a multidão. «Sereno e sorrindo ironicamente», como contará o Correio da Manhã do dia 16, «adiantou-se para o proscénio. A casa como que oscilava tal era a violência com que a sacudiam com os pés».
Correio da Manhã, 15 de Julho de 1886
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
O encenador, indiferente à tempestade, fita o camarote onde está o Directório do Partido Republicano Português, leva a mão à lapela do casaco onde brilha a fita tricolor que fora oferecida a todos os dignitários, arranca-a e lança-a aos pés! Se já existissem sismógrafos em Lisboa naquela altura, certamente teriam registado o rugido do teatro. Luiz da Costa sai sob escolta policial. «Não o queriam guilhotinar, não, queriam apenas pateá-lo nas próprias bochechas», ironizou o Novidades. A fúria da multidão vira-se para os líderes do partido. Partem-se cadeiras. «De pé, os espectadores voltavam-se com o olhar faiscante para o camarote do Directório. Muitos, dirigindo-se a Magalhães Lima, gritavam: ‘Saia daí, tenha vergonha!’», rejubilou Homem Cristo.

ACTO III, A CHACOTA
Face à publicidade que O Século, O Diário Ilustrado e o Correio da Manhã tinham feito da récita, o fiasco da “República” tornou-se o tema de todas as conversas em Lisboa. O Correio da Manhã foi o primeiro a contar aos seus leitores «o charivari medonho» do Teatro dos Recreios. Com fina ironia, descrevia o «camarote do sr. Presidente da República Magalhães Lima, com o seu secretário e ajudante de ordens». O público, esse, «não gostou muito dos heróis do drama, do que se pode depreender que não é positivamente o seu fraco aquelas cenas de selvageria».
Novidades, 15 de Julho de 1886
(a partir de microfilme da Biblioteca Nacional)
Apupado por meia Lisboa e glorificado pela metade restante, Luiz da Costa escreve uma carta a todos os directores de jornais da cidade. Dirige-a «não aos republicanos arruaceiros, mas sim aos espectadores sensatos», lembrando que levou a palco «cenas que todo o mundo sabe que se deram».
«Não tive em vista fazer propaganda democrática porque não sou democrata e, se o fosse, bastar-me-ia a noite de ontem para abandonar um partido que só adora a mentira. (…) Se continuasse a fazer propaganda, limitava-me apenas a representar o Santo Marat de braço dado com o cândido Robespierre.»
Luiz da Costa prosseguia, revelando que nunca pedira publicidade. Fora O Século que a oferecera e interpretara o teor de uma peça pelo título, considerando-a adequada para os seus.
A imprensa monárquica ri vigorosamente. O Novidades de 15 de Julho descreve o incidente «como uma das coisas mais extraordinariamente curiosas e mais inacreditavelmente divertidas que têm sucedido em Lisboa». Sucede que a peça «escolhida como prato a seu gosto, ao paladar dos republicanos convidados, era nem mais nem menos do que… uma sova já premeditada e convictamente escrita contra as ideias daquele partido. (…) Espantoso, não é assim? Quando todos se preparavam para comer lebre, verificam com horror que estão a trincar gato!»
No Século, Magalhães Lima tenta fugir do embaraço. Culpa um grupo de jovens bem intencionados que lhe propôs a peça e a comissão do partido que lhe enviara comunicados para publicação sem validar o guião. «Fomos mistificados e mistificados foram também os nossos amigos por circunstâncias realmente muito lamentáveis», escreveu. Quanto ao autor, «nem mesmo lhe pronunciamos o nome (…) Em paz e às moscas…».
O Século, 16 de Julho de 1886
(a partir de arquivo da Biblioteca Nacional)
Como o Novidades regista, Magalhães Lima bem pode «sacudir à porta o pó das suas sandálias» que o incidente não seria esquecido. «Quererá dizer o Sr. Magalhães que ele, como redactor de O Século e não como membro do directório é que não foi ouvido nem achado em semelhante coisa?(…) Como é, então o Sr. Magalhães Lima, director, falou sempre tão baixo que o Sr. Magalhães Lima, redactor, não o conseguiu ouvir nunca?»
No Diário Ilustrado do dia 16 de Julho, por mão de poeta anónimo, ficou gravada a gazetilha inesquecível:
«Parabéns, Magalhães Lima
Da monarquia serrote,
A quem já ontem puseram
Cortinas no camarote.

Estás pois todo tricles
De barrete no totiço
Faixa tricolor à cinta
E eu que não soube d’isso!

De vez em quando, disseram,
Sorrias com altivez.
Dás um belo presidente,
Melhor que Grevy, talvez. [4.º Presidente francês]

De mais a mais tens cabelo,
Tens a pinha como o oiro
‘Inda há-de o povo dizer-te
- Dá cá beija-pé, meu loiro.

O Teatro dos Recreios não sobreviveu mais de 11 meses. No final de Junho de 1887, foi demolido devido ao início das obras do túnel ferroviário do Rossio, conforme nota o Diário Ilustrado de 29 de Junho desse ano.

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