quarta-feira, maio 13, 2015

Vicente e a Refinada Carta ao Director


Discutiu-se na semana passada o SMS trocado entre António Costa e o director-adjunto do Expresso. O teor desagradável da mensagem nocturna do secretário-geral do Partido Socialista surpreendeu, e a decisão de João Vieira Pereira de a tornar pública não recolheu unanimidade. Na verdade, não é caso virgem. O episódio que relato em baixo, e que me foi contado por um dos fundadores do Público, constituiu um precedente pitoresco.

Agosto de 1991. Desenhemos um triângulo no mapa da cidade de Lisboa.
O primeiro vértice fica na Quinta do Lambert, em Telheiras, sede da redacção de Lisboa do Público. O jornal leva pouco mais de ano e meio de funcionamento e o Accionista, o termo (carinhoso ou pejorativo, consoante os casos) que quase todos usam na redacção para aplicar à SONAE, começa finalmente a ver a luz ao fundo do túnel. No recente livro-entrevista Vicente Jorge Silva (VJS), Conversas com Isabel Lucas (2013), o primeiro director do jornal descreve as fortes expectativas que a SONAE depositara no comportamento económico do jornal e a sua decepção face aos primeiros números. Providencialmente, segundo VJS, a primeira guerra do golfo constituiu um chamariz de leitores, fazendo ascender as vendas a 70 mil exemplares por dia em Fevereiro de 1991. No Verão de 1991, a avaliar pela informação de tiragens [pouco mais de 60 mil exemplares/dia], o Público é uma locomotiva pesada que ainda procura engatar uma velocidade satisfatória.
Coloquemos o segundo vértice alguns quilómetros para sul, quase junto ao rio, em Moscavide. Ali funciona o Entreposto, grupo económico pujante que representa a Nissan, entre outras marcas, em Portugal, Espanha e Moçambique. O panorama é muito mais desafogado no grupo gerido por António Dias da Cunha, empresário de quem muito se falará quatro anos mais tarde quando entrar de rompante no Sporting ao abrigo do Projecto Roquette. Por ora, Dias da Cunha gere um grupo que o pai criou e expandiu incrivelmente, mantendo presença forte em Moçambique apesar das convulsões da Independência.
A fotografia da polémica
Falta o terceiro vértice que, por imposição geométrica, nenhum triângulo dispensa. Coloquemo-lo igualmente junto ao rio mas bastantes quilómetros para oeste. No Palácio de Belém, Mário Soares toma o pulso ao seu segundo mandato como Presidente da República. Foi eleito em Janeiro de 1991 com uma maioria inquestionável. O jornalista Jerónimo Pimentel, protagonista involuntário do episódio que aqui se conta, lembra que «a fina-flor da finança portuguesa apoiou Mário Soares. Houve uma sessão de apoio no restaurante Faz Figura onde quase todas as personalidades da finança se mostraram».
Dias da Cunha esteve lá, claro. Desde a primeira campanha presidencial de Mário Soares, em 1986, que o patrão do Entreposto apoiara a causa do MASP, o Movimento de Apoio Soares à Presidência. Foi membro do Conselho Executivo das duas campanhas. Em entrevista concedida ao Record no dia 26 de Agosto de 2000, Dias da Cunha contou que «a aproximação ao dr. Mário Soares veio a acontecer ainda ele era primeiro-ministro. Eu escrevia na revista Negócios, de que era director Gomes Mota. Nessa altura, fiz a defesa da candidatura do dr. Mário Soares à Presidência da República ainda no tempo do Governo do Bloco Central. Achava que ele era o candidato natural do Bloco Central. O meu texto acabou por ir parar acima [sic] da secretária dele e fui convidado para integrar a campanha, no grupo inicial. Foi o meu primeiro banho político», relatou.
No terceiro volume dos livros-entrevista que organizou com Maria João Avillez, Mário Soares contou também que, para a campanha de reeleição, decidiu não sobrecarregar o orçamento do PS. «Apelei às pessoas dispostas a ajudar-me e dirigi-me aos meios empresariais, avançando, desde logo, com uma condição: quem quisesse contribuir, deveria fazê-lo às claras e receberia um recibo, assinado por uma de três pessoas: António Dias da Cunha, Carlos Monjardino ou Gomes Mota», disse. O processo foi tão bem sucedido que sobraram cerca de trezentos mil contos. «Foi assim que se constituiu o fundo inicial para a Fundação Mário Soares.»
Ao longo da campanha, a comitiva de Mário Soares deslocou-se em carros cedidos pela Nissan. Não era estranho nas campanhas de então. Aliás, Jerónimo Pimentel crê que os repórteres do Público também viajavam à data com veículos da marca japonesa por força de um acordo com um dos grupos comerciais mais activos no mercado.
Em Agosto de 1991, porém, o então jornalista do Público deparou com uma circunstância peculiar. A revista internacional da Nissan, a Nissan Autographic, no seu número de Julho, publicou um artigo associando directamente o novo Presidente da República à marca. A Nissan lançava então o modelo Máxima e a revista não poupava adjectivos: «Maxima recebe votação máxima do candidato vencedor», assegurava um dos textos, sob uma fotografia de um sorridente Soares ao volante de um carro. «O principal político do país achou-o irresistível (…) e deu uma folga ao motorista», acrescentava outro texto, legendando uma fotografia do PR de pé, ao lado do carro.
Cumprindo todas as regras, Jerónimo Pimentel ouviu as Relações Públicas da Entreposto Comercial, que asseguravam a correcta cedência das fotografias pela Presidência da República, «com a indicação de que poderiam ser utilizadas como quiséssemos». Em Belém, Estrela Serrano, assessora do PR, garantia que Soares nunca autorizara «a utilização da sua imagem para efeitos promocionais».
Público, 13 de Agosto de 1991
(Arquivo da Biblioteca Nacional)
Vicente Jorge Silva não hesitou em puxar a história para a primeira página e escreveu um editorial sobre «a insustentável ligeireza de Soares». Comentava que ninguém pretenderia «a não ser por ostensiva má-fé, que Mário Soares recebeu qualquer pagamento ou outra espécie de contrapartidas pelo facto de imagens suas, ao volante de um automóvel, terem sido publicadas como publicidade pela Nissan». Porém, «parece inconcebível, pelo menos num país europeu, que um Presidente da República se preste, com tanta ligeireza e inocência, a promover um produto de consumo. É, além de ridículo, pouco consentâneo com a dignidade das funções de chefe de Estado (…) A condescendência e a permissividade com que Mário Soares se deixa arrastar para situações equívocas, a pretexto da simpatia, da gratidão ou do espírito de clã relativamente aos seus amigos ou apoiantes, tornaram-se um traço marcante do seu comportamento. (…) Soares é – será necessário lembrá-lo? – Presidente da República».
 Público, 13 de Agosto de 1991
(Arquivo da Biblioteca Nacional)
A história foi publicada no dia 13 de Agosto de 1991. «Deveria ter morrido ali», lembra Jerónimo Pimentel. «Era mais uma daquelas histórias incómodas, mas efémeras, que escrevemos sobre políticos. Não estávamos lá para lhes agradar.»
Até que chegou a Carta.

A CARTA
Passaram oito dias. Na tarde do dia 21, acabado de regressar de férias, Dias da Cunha tomou conhecimento da notícia do Público. É provável que tenha cedido àquilo que disse mais tarde ser o seu pior defeito: «Dizer aquilo que penso nos locais próprios. Nunca falo nas costas das pessoas».
O presidente da holding Entreposto escreveu uma carta a descompor Vicente Jorge Silva e o Público. Segundo Jerónimo Pimentel, «a carta era muito malcriada. Ameaçava – como veio a acontecer – cortar toda a publicidade do Entreposto no jornal, insultava-me como autor do texto e insultava o director». Vicente Jorge Silva leu o documento, partilhou-o com a direcção e com o repórter envolvido e «teve um ataque de fúria». Mandou publicar parte do texto na secção de Cartas ao Director no dia 22.
Juntou-lhe uma nota de redacção quase tão grande como o trecho seleccionado para publicação, informando os leitores de que o autor da missiva era «presidente da holding Entreposto e ex-director financeiro do MASP» – para não haver dúvidas. E o texto, que alguns dos fundadores do Público ainda citam de memória, era:
«Acabo de chegar de férias. Li o seu editorial do passado dia 13. Como muito bem sabe, tudo nele é falso. Trata-se de especulação pura a que procedeu exclusivamente para cobrir o que entendeu ser interesse seu.
É indigno instrumentalizar assim a honra alheia. É, na verdade, de refinado filho da puta.
António Dias da Cunha»
Carta ao Director, Público, 22 de Agosto de 1991
(Arquivo da Biblioteca Nacional)
EPÍLOGO
O Entreposto cumpriu a ameaça e cessou os contratos de publicidade com o jornal. A ferida demorou anos a cicatrizar. Durante semanas, o Público foi trazendo à estampa cartas de leitores vexados com a «atitude desnorteada e insolente desse senhor» (25 de Agosto) e perplexos com «os amigos do Presidente» (13/09).
Os arautos da deontologia debateram incansavelmente as razões do Público para difundir uma carta que contrariava o próprio Livro de Estilo do jornal, que exigia(e) missivas escritas «em linguagem correcta, de acordo com as normas de urbanidade».
Dois dias depois da mais famosa Carta ao Director da história do Público, o Caderno de Economia do Expresso publicou uma entrevista de uma página com Dias da Cunha sobre o Entreposto e os seus projectos. «Apostamos na distribuição alimentar em Moçambique», rezava o título.
Nenhuma pergunta foi feita a António Dias da Cunha sobre a Carta.

EM TEMPO
Francisco Teixeira da Mota, advogado do Público e dos seus jornalistas desde a fundação do jornal, teve a amabilidade de partilhar comigo uma curiosa reflexão recente sobre a publicidade e o uso não autorizado da imagem de personalidades públicas. Cita (aqui) o divertido caso da Lucky Strike, mas o desfecho poderia aplicar-se à Nissan.

Sem comentários: